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A Linguagem simbólica em Terapia

“O símbolo é a melhor expressão possível de algo essencial que ainda não pode ser conhecido plenamente.” 

C.G. Jung

Deparo-me com a dificuldade que é escrever sobre algo tão íntimo, tão familiar, que poderia correr-me nas veias. Como se escreve sobre o que não tem palavras? O grande poder da linguagem simbólica, da informação imensa que a cognição – com todos os seus recursos – não tem como chegar.

O símbolo existe desde que a alma existe, desde que as “imagens” transformam emoções, experiências e saberes. Das pinturas em cavernas até aos nossos dias, ele é a grande linguagem do inconsciente e de tudo em nós que não pode ser expresso, na totalidade, por palavras, levando-nos a territórios novos, plenos de metáforas e significados. Ele está em todo o lado, desde a aliança de casamento que se coloca no dedo até ao conteúdo dos nossos sonhos, ao longo das noites de sono.

Este espaço vivencial, experiencial, que habita entre o mistério e o significado, acompanha-nos ao longo de toda a vida.

Ele revela-se no brincar da criança, nas histórias que escuta vezes e vezes sem conta, na poesia, na arte, nas paisagens sublimes, nos sonhos, nas metáforas que nos explicam melhor as circunstâncias do que uma análise esmiuçada ao pormenor.

Não é difícil percebermos a força e a importância do símbolo. Quando pensamos num desenho de um coração ou de uma espada, a resposta emocional do nosso corpo não é somente uma resposta a um desenho. O corpo responde emocionalmente ao significado profundo contido nesse mesmo símbolo, filtrado pelas experiências que estas emoções nos trouxeram ao longo da vida. Se pensarmos numa espada a perfurar um coração, temos as mesmas duas imagens e um significado emocional totalmente diferente, sem que sejam necessárias palavras, ou que as mesmas possam trazer toda a carga emocional dessa mesma imagem. Talvez por isso os “emojis” atuais sejam uma forma tão fácil de comunicação.

Para além da nossa vivência diária com o símbolo, ele abarca um lugar de grande importância na terapia, trazendo significados e expressões emocionais e agindo como uma ligação entre o consciente e o inconsciente.

No campo terapêutico, o símbolo é soberano, pois trabalhar com ele é dar permissão à alma para se expressar. Jung trouxe-nos esta ideia de que os símbolos não escondem, não disfarçam. Eles revelam. Funcionam como janelas para o inconsciente coletivo, são expressões orgânicas, vivas, dos arquétipos que habitam a psique humana. O símbolo é, assim, uma ponte entre a pessoa e a totalidade, trazendo uma expressão própria a cada psique, a cada significado pessoal.

Utilizar a arte-terapia, a análise de sonhos, o trabalho somático, ou o storytelling são formas de trabalhar com o símbolo. Para a curiosidade e sensibilidade de um terapeuta habituado a mergulhar no mundo simbólico, no entanto, esta linguagem aparece por si mesma, ao longo das sessões.

“Carrego um peso nas costas”, “sinto um frio no estômago”, “sinto que me estou a afogar”. Estas frases não fazem sentido, se analisadas literalmente, dentro de uma sala de terapia. Porém, todas elas nos dão conteúdo e significado profundos acerca das circunstâncias do ciente. Quando nos possibilitamos permanecer com o símbolo e explorá-lo, abre-se uma janela para níveis de experiência muito mais ampliados, que nos permitem compreender as paisagens emocionais nas quais o outro caminha. Permitir-nos caminhar por entre o mundo simbólico, com o outro, ajuda-o a dar forma ao invisível, ao que não consegue ser expresso e, talvez por isso, facilite tanto uma libertação emocional.

Da mesma forma que nos permite aceder aos conteúdos do inconsciente, o trabalho com o símbolo facilita-nos, também, a abrir um espaço novo dentro das circunstâncias e, sem sabe, criar novos significados transformando, tantas vezes, cicatrizes em tatuagens. O poder de explorar uma metáfora, contar uma estória que nos surgiu enquanto o cliente falava de si, pedir uma imagem que reflita o que se passa dentro, vai muito para além de uma técnica terapêutica. Quando o “mundus imaginalis” entra no espaço terapêutico, convidamos o próprio mistério a sentar-se connosco.

Como podemos usar mais o símbolo em terapia? Trabalhando com ele nas nossas próprias vidas. Usando as nossas imagens internas, explorando sonhos, fazendo journaling e olhando ativamente para as nossas próprias metáforas. Cada um de nós filtra o mundo simbolicamente através da sua história pessoal, da sua cultura. Respeitar este mundo simbólico por onde navegamos é honrar a própria alma e permiti-la expressar-se. E quando a alma é escutada, a vida ganha uma nova perspetiva.

Se este é um lugar que te toca, se as tuas células, como as minhas, também dançam perante este universo simbólico, segue-nos com atenção. Trazemos novidades, muito em breve.

ÉLIA GONÇALVES e PATRÍCIA ROSA-MENDES

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