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O Dia da Terra ou a colonização da Alma

Há anos li uma frase num dos posts da minha querida Sofia Batalha, que me tocou até aos ossos. Era algo como: “não te esforces tanto para ascender. A Terra precisa de ti.”

Este lugar, numa altura em que estava a estudar Ecopsicologia e que os meus lugares-comuns se desfaziam pedaço a pedaço, devolveu-me uma paisagem interna onde o desconforto, o erro, a humanidade, a vida, eram o verdadeiro solo do crescimento e pediam suor, sangue e lágrimas. Lutos e relação. Ah, uma qualidade de relação que eu jamais atingiria se permanecesse na fantasia de que relações são coisas que acontecem somente entre humanos.

Dizemos “Terra” como se falássemos de um lugar onde aterrámos por acaso, o cenário que observamos da janela, um jardim por onde caminhamos para nos sentir bem. Mas há uma constatação mais profunda e menos dócil: não há separação entre a nossa pele e o solo que pisamos.

A nossa pele é um espaço de diálogo constante entre o que chamamos “eu” e o que chamamos de “mundo”. Uma teia de conversas que não param, por entre as linguagens sussurrantes do micélio, os uivos do vento ou os anseios vibrantes da medula das pedras. Se o solo está exausto, a nossa alma não pode estar vibrante. Se os ciclos da água estão rompidos, as nossas emoções perdem o fluxo.

Habituámo-nos à ilusão de que a psique está isolada e o planeta é este grande armazém de recursos à disposição, quiçá um passeio ou um retiro de fim de semana para “recarregar baterias”. Mas o inconsciente é ecológico. A ansiedade, que tanto nos assalta e rouba espaço é, tantas vezes, a voz da Terra a gritar através do nosso sistema nervoso.

A psique selvagem não se reduz a um espaço de cognição. Ela espalha-se e respira por todos os lados onde foi forjada. Existem desejos, pulsões, em nós, que nada têm a ver com os planos de carreira ou a busca por felicidade. Existem lugares internos que necessitam do fluxo, do ciclo, do espaço que não pode ser domesticado.

Não estamos na natureza, somos natureza. As nossas relações não se fecham no círculo social ou familiar. Elas pertencem também à árvore da esquina da rua, ao inseto que poliniza aquela flor ou à chuva que molha o rosto e transborda rios. E, da mesma forma, trespassam-nos os ecos da floresta que quer persistir, do rio que foi bloqueado ou da pedra que é escravizada.

Talvez, no dia da Terra – como se existissem outros! – possamos baixar a cabeça e deixar, por instantes, de ser palco para ser um fio da trama. Encontrar um espaço para ficar, ainda que doa. Abraçar o luto por cada espécie que se perde e o desconforto de aceitar que o privilégio é feito de extração. E sim, somos toda essa magia e matéria que formam as estrelas, mas também a lama, as bactérias e o chão. Aceitar que, ainda que não possamos “salvar”, podemos permanecer e sentir. Ficar.

E, por entre o luto e a ansiedade, sentar com o mistério que nos diz que somos atravessados por anseios não só nossos. Permitir que a psique selvagem encontre, finalmente o lar, que raramente está no tipo da montanha. Provavelmente estará no abraço húmido, complexo e visceral da Grande Mãe onde pertencemos.

 

ÉLIA GONÇALVES

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