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Diálogo de Vozes: a Arte de vivenciar tudo o que somos

O ser humano é uma casa de hóspedes
onde todas as manhãs há uma nova chegada.

Rumi

 

A penumbra instala-se e, com ela, a promessa de um espaço de repouso, uma bebida fresca, o sofá que nos convida à ociosidade e um lugar interno que pede o direito ao recolhimento. De repente, o ruído emerge por entre as cortinas do descanso: o relatório que ficou por fazer, e que seria despachado em menos de uma hora, se nos focarmos só por um bocado. E na verdade, a díade que nos desconecta não é suficiente, pois um terceiro sussurro faz-se ouvir, apelando ao doce que guardámos no frigorífico para outra ocasião e que certamente resolveria o impasse.

Agora, que já as escutámos, qualquer decisão parece insuficiente – para não dizer que somos nós que parecemos insuficientes para colmatar as três necessidades. O que é melhor para nós? Qual é a prioridade mais gritante, qual o preço de escolher uma e que parte de nós é abandonada noutra?

Soa familiar? Caminhamos pela vida na busca da famosa autenticidade, acreditando que ser “um” é ser coerente no pensamento, ação e palavra. Como se fosse uma coisa simples… quem nunca sentiu o estalo da contradição interna? Quem são estas personagens, estas vozes, estes hóspedes internos? Quem toma a decisão final?

Na década de 70, os psicólogos norte-americanos Hal e Sidra Stone trouxeram uma perspetiva revolucionária e radicalmente libertadora: não somos um, mas uma multidão. Ao seu método de mapeamento e exploração da psique intitularam Voice Dialogue (Diálogo de Vozes).

Segundo os fundadores do método, que bebeu diretamente da psicologia profunda de Jung e da psicossíntese de Assagioli, a arquitetura da nossa alma organiza-se numa coreografia dinâmica entre subpersonalidades que se mostram e outras que se escondem na névoa. Possuímos os Eus Primários, as personas de sobrevivência que assumiram o controlo para protegerem a vulnerabilidade. Todos os conhecemos: o perfeccionista, o crítico interno, o agradador compulsivo. As vozes que falam mais alto, que tão bem conhecemos, e assumem aquilo que nos habituámos a chamar personalidade. E possuímos os Eus Exilados, que vivem nas margens a que chamamos Sombra. Partes que, por medo ou anseio de pertença, lançámos para a escuridão. A raiva, o egoísmo, a tristeza (ou a alegria esquecida) e, sem dúvida, a própria vulnerabilidade.

Neste mapa da psique surge o trabalho com o Ego Consciente. O espaço, o silêncio entre as partes. A presença que permite escutar cada uma das vozes, sem julgamento ou parcialidade. O espaço que aprende a suster os opostos numa tensão criativa, profundamente compassiva e revolucionariamente oposta às receitas rápidas de autoajuda, que insistem na tirania de “vencer os medos”, “calar o sabotador” ou “transcender a sombra”. O Diálogo de Vozes caminha no sentido inverso, através de um movimento de reverência e honra por toda a nossa história e por todas as partes que a compõem. Ele assenta num pressuposto que continua a comover-me: todas as partes de nós nascem por amor e por ele permanecem, mesmo quando são desadequadas.

Longe de ser uma discussão intelectualizada, uma sessão de Diálogo de Vozes é sempre um lugar experiencial. O facilitador vai convidando o cliente a mudar de lugar, assumindo cada Voz (subpersonalidade) com tudo o que ela traz. Não é incomum a voz do cliente mudar, a respiração alterar-se e postura corporal assumir uma outra forma. Não apenas conhecemos a voz, tornamo-nos ela. E, enquanto vivenciamos essa experiência, o Ego Consciente vai observando e integrando essa parte, com todos os seus contornos.

E, nesta dança entre opostos, percebemos que o crítico pode ser também o protetor, o preguiçoso pode estar a defender um possível esgotamento e o perfecionista a cuidar da necessidade de ser-se visto.

A inteireza vem de uma orquestra onde cada músico é amado e encontra o espaço para o seu instrumento. E o Ego Consciente transforma-se no maestro que dirige a sinfonia, encontrando o espaço justo para cada melodia.

 

ÉLIA GONÇALVES

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