“O interno não é menos real do que o externo, e, embora seja parte de nós, não está literalmente dentro da nossa pele”

Bill Plotkin


 

Quando falamos em desenvolvimento pessoal falamos, normalmente, de trabalho interno, das atividades ou exercícios que nos permitem um olhar atento para dentro de nós mesmos, para o lado interno da nossa vida. E como está dentro de nós, na esfera do que é privado e íntimo, que não se revela aos outros, é natural que a imagem que nos surja seja a de um mundo dentro da nossa pele, existindo na mente ou no coração, fora de vista e desconhecido.

Há muitas formas de aceder a este lado interno. Por vezes, nem queremos aí entrar. Sabemos, de antemão, que o que aí reside é tão grande e intenso que pode transformar-nos por completo, virar a vida ao contrário e vincular-nos a um poder interno que nos custa reconhecer e do qual tantas vezes fugimos.

No entanto, esse lado escondido não desiste de nos chamar ao longo da vida. Há quem lhe chame Coração, Desejo, ou ainda Alma, apesar de estes nomes estarem muito carregados de ideias e imagens, preconceitos, estórias de violência e dor, mal-entendidos e dogmas. Mas porque dar nomes nos ajuda a compreender, dar-lhe-emos o nome de Alma, esse universo interno, tão misterioso como um planeta de uma galáxia distante.

Esta Alma que é parte de nós chama-nos frequentemente, ao longo da nossa vida. Chama-nos de muitas formas, com um impulso de realização, de pertença, de completude. Como se nos pedisse para encontrar o nosso lugar no mundo, preencher o nosso espaço, completando este imenso mosaico que é a Vida. Sabemos isto, todos nós; mas não é incomum que fechemos os ouvidos internos aos seus sinais.

A linguagem da Alma é feita de natureza, de símbolos, de sonhos, de metáforas, de poesia, de música, de dança… De tudo o que traz um frémito ao nosso coração, nos faz vibrar como as cordas de um qualquer instrumento, ao som de uma nota matriz. Nestas ocasiões, em que o coração estremece, a pele se arrepia e os olhos se enchem de água, algo em nós se move e se entrelaça com a Alma. São muitos os caminhos para este reencontro.

A arte, palavra igualmente carregada, é impulso de captar aquilo que fez o coração estremecer, que nos enterneceu, seja o canto de um pássaro ou a visão de uma montanha, é também vontade de expressar o que nos vai dentro.
Desde que o Homem se conhece que a arte é um caminho para se aproximar do sagrado e celebrá-lo. O que nos sobra do homem primitivo, da idade das cavernas e da pedra lascada? Arte: pontas de flechas, gravuras nas pedras, imagens dos animais, dos homens, das estrelas, daquilo que era visto como misterioso e sagrado, porque dava e tirava Vida.

Também uma criança pequena reage a esse mesmo impulso interno, balançando-se ao som da música, pegando num lápis e fazendo rabiscos ou cantando umas palavras quaisquer.

À medida que vamos crescendo, contudo, bloqueamos essa expressão, com critérios de beleza ou comparações impossíveis. Mas a expressão criativa não deixa de manter essa capacidade extraordinária de nos ligar ao mundo interno e de o trazer cá para fora, tornando visível o invisível. Ou revelando a ligação profunda entre ambos os lados dessa consciência. Em termos terapêuticos, a arte tem o poder de trazer compreensão, novos significados, reparação e, claro, propiciar a sanação. Permite expressar o que calamos, soltar, deitar fora, trazer a catarse. Observar profundamente, com um olhar límpido e novo, aquilo que tantas vezes nos passou ao lado. E espelhar o mundo de fora e o mundo de dentro.

Na verdade, só a nossa perceção nos diz que um está fora e outro dentro, já que quando o nosso olhar se alarga, damo-nos conta de que há um só plano, o da consciência, e que o Mistério da Vida abunda tanto nos nossos sonhos quanto na floresta densa por onde caminhamos. Talvez por isso o Zen nos diga que é possível engolir o Oceano Pacífico num só trago…

 

PATRICIA ROSA MENDES
TERAPIA E MEDITAÇÃO – ESCOLA DE DESENVOLVIMENTO TRANSPESSOAL