“Não aceitamos que a felicidade seja um estado passageiro, e buscando-a compulsivamente criamos mais infelicidade e trauma na nossa mente.”

Mark Epstein

  

O som de um “Era uma vez…” traz consigo uma vontade irreprimível de nos sentarmos em círculo, olhos postos no narrador, e nos abrirmos à estória. Escancara-se a porta da fantasia, e a criança em nós volta a vestir-se de Rei ou Rainha, Dragão, Sereia, Monstro marinho ou pequeno Duende e, magicamente, reentra num reino encantado, onde o adulto pode encontrar, escondida simbolicamente, a chave para algum mistério na sua vida.

Os contos de fadas são contos da vida, disfarçados de mistério, sonho e brilho. Carregam consigo, entrelaçados nas letras, lemas de vida, trilhos de individuação, provações que nos remetem para episódios da vida quotidiana, personagens que nos fazem recordar alguém e, algumas vezes, soluções simbólicas para problemas reais, quando os ouvidos estão despertos e a alma sabe decifrá-las.

É talvez por isso, por este carácter que toca subtilmente o inconsciente colectivo, que quando chegamos à parte do “viveram felizes para sempre” com que a maior parte dos contos de fadas fecha a última página, prometendo um fim sem fim à vista, sem ondulações difíceis e ventos contrários, um oásis de pura beleza e paz, nos confundamos com isto da felicidade, tomando-a como um continuum da vida, intocado pelo quotidiano.

Não existe um “sempre” nem um “nunca” nisto de se ser feliz. A vida oferece-nos uma paleta emocional de degustação diversa, onde estão presentes sentimentos de puro êxtase, bliss, serenidade, e outros de dor dilacerante, ansiedade, medo, vergonha, entre sabores mais tranquilos, que se aninham com mais docilidade no coração.

Por mais que o desejemos, não há como viver por metades – acordar de manhã para o lado sorridente da vida e voltar a fechar os olhos ao meio dia, se este prometer tempestades. As emoções mais densas e duras fazem crescer – e crescer dói -, desafiam-nos a conhecer pedaços de nós mais profundos, a mergulhar fundo na caverna interna de quem somos e escavar recursos, desencafuar emoções, abraçar a humildade, amadurecer. Responsabilizarmo-nos por nós. E regressar ao mundo com mais capacidade de nos abraçarmos, em tudo.

Permanecer agarrados a uma ideia fantasiosa da felicidade constante é correr como Dom Quixote atrás de moinhos de vento, julgando-os gigantes, na sua ilusão. E é perder-se, talvez, os momentos realmente felizes, os “encantados”, tão empenhados que estamos no caminho da durabilidade. Se o mundo fosse todo cor-de-rosa deixaríamos de notar que existe cor, e até a emoção deixaria de ser perceptível.

“Para sempre” é cada momento em que o coração estremece e sorri. Cada abraço, cada dança, cada contemplação da vida a acontecer, cada singelo segundo em que a gratidão nos inunda o peito e sabemos quem somos.

“Para sempre” é cada momento inefável em que saímos à aventura, descobrimos mais um pedaço de nós e voltamos a Casa mais inteiros, coesos e despertos.

 

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE MINDFULNESS EM EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES