“Ah, September! You are the doorway to the season that awakens my soul…”

Peggy Toney Horton


 

Anuncia-se Setembro, marca de recomeços, de ciclos que se completam e outros que se voltam a abrir, pedindo-nos que aos poucos nos preparemos para regressar mais a casa, às quatro (ou mais) paredes que nos confortam, suportam e protegem. Recolher um pouco do buliço da vida e retornar ao ninho.

À medida que o tempo arrefece lá fora e os dias de luz se encurtam, com a lua a espalhar prata mais cedo, é também a casa-corpo, casa-pele que nos pede que a revisitemos e, com carinho, nos preparemos para uma nova época do ano mais exigente e ativa.

A forma como nos habitamos – e habitamos os nossos espaços vitais – é o que nos torna sagrados, esse olhar com intenção de nutrir e cuidar, arejar as janelas dos sótãos, limpar as teias de aranha às preguiças e procrastinações e fazer caso do que a alma nos sussurra, talvez há dias, talvez há meses.

Simbolicamente, a cozinha é o coração da casa, lugar onde misturamos cores, sabores, texturas, onde nutrimos a família, onde os cheiros se confundem e a Alquimia antiga se transforma em moderna quando as poções dão lugar a bebidas quentes, cheias de especiarias e conforto.

É o lugar onde se curam maleitas, experimentam receitas e se espreita o futuro. Com um fogão dos antigos, borbulhante de magia, de saberes ancestrais, que se passam de geração em geração.

Na nossa casa interna, o coração é o sítio do fogo, da chama que, ora em lume brando ora em fogo aceso, nos transforma, nos alquimia a alma. E esta, que não é pequena, tem gavetas por aqui e acolá que abundam de gente e de sonhos, metas e projetos, muitos por cumprir.

Agora que se abre novo ciclo, com uma oportunidade de escutar estes sussurros e lhes dar, talvez, um molde real no mundo, teremos para nós a mesma atenção e amor que costumamos distribuir? Que partes de nós demandam voz, expressão, espaço na agenda, encontros alegres connosco mesmos? E como poderemos dar força a esse fogo-fátuo que merece cuidado e nutrição?

Sem “devias” que nos aprisionam e arrastam, recordemo-nos de que tal como em volta do caldeirão se encontram o sagrado e o profano, sem se estranharem, também dentro de nós e neste corpo que tanto nos serve há pedidos por atender, criações por parir de um qualquer bloco de apontamentos, dietas equilibradas e plenas de vida para nos encher de energia e foco, ritmos dançantes ou mais tranquilos para abraçar com as ancas e o coração por igual.

Setembro pede-nos mais ação, talvez, mas é nossa escolha – e não dever – trazê-la desde o ponto certo. “Desde onde” o corpo pede, a alma chama, e o coração alumia.  

 

 

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE MINDFULNESS EM EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES