A Porta do Feminino

As portas para o mundo do Ser selvagem são poucas, mas são preciosas. Se tens uma cicatriz profunda, aí está a porta, se tens uma velha, velha história, aí está a porta. Se amas os céus e as águas tanto que mal consegues aguentar, aí está a porta. Se anseias por uma vida profunda, uma vida plena, uma vida sã, aí está a porta.
Clarissa Pinkola Estés

Na maior parte das vezes, a vida não nos basta. Não é a vida em si, mas a forma como fomos levadas a acreditar que ela é. Independentemente do que fazemos na vida ou da forma como o fazemos, o mais comum é que sintamos que nos falta algo, que ainda não chegamos onde quer que seja que tenhamos de estar, ou que perdemos o rumo algures ao longo do caminho. Há quem lhe chame “regressar a casa”. Nos meios espirituais, essa vontade é frequentemente interpretada como o regresso a algo de que estamos separadas: a alma, a divindade ou mesmo o cosmos.

Nos últimos anos, grande parte das mulheres tem-se descoberto numa separação profunda, mas de si mesma. Estamos separadas de quem somos, da nossa essência, da nossa sabedoria, do Feminino em nós. Estamos separadas do corpo, dos seus ritmos, e dos seus avisos.

O trabalho com o Feminino vai muito para além do género e, tal como o trabalho com o Masculino, é ainda um território profundamente desconhecido para a maior parte de nós. Os papeis de hoje são fluidos e deixaram de haver diretrizes fixas para se ser mulher, diretrizes essas que, apesar de limitadoras eram também tranquilizadoras. A maior parte das mulheres habita um reino caótico e totalmente desconhecido e tem de descobrir por si mesma o que é isso de ser mulher. Tem a ver com aquilo que nos foi passado ou com o que sentimos no mais profundo de nós? Escutamos esse sussurro, ou somente confusão?

Os círculos de mulheres e o desabrochar do Feminino tem vindo a ganhar espaço numa sociedade que ainda preza a competição, a produção e o poder material acima de tudo. Começamos a ganhar nova consciência sobre aquilo que é o “poder da vulnerabilidade”, tantas vezes confundida e vista como fraqueza. Olha-se para a ecologia, a sustentabilidade e a simplicidade da vida com olhos renovados, algo acessível a todos e não apenas aos insatisfeitos. Encontra-se mudança no respeito pela Vida, sob todas as suas formas.

E as mulheres começam a escutar os anseios profundos que a alma sussurra. A parte de si que lhes pede que sejam inteiras e cuja inteireza pouco tem a ver com o que vestem, onde trabalham, quantos filhos têm ou qual o tamanho da sua conta bancária. As mulheres começam a ter consciência da necessidade crucial de estarem consigo mesmas, de terem momentos de silêncio profundo, de entrar em contacto com a natureza e a vida.

As mulheres precisam de resgatar a Mulher Selvagem que a todas habita, de a honrar, de a viver plenamente, de respeitar o seu corpo tal como ele é. De aceder à sabedoria que está incutida nos seus ossos, no sangue, nas vísceras. Aquela que, tantas vezes, descarta porque “parece mal”. De recuperar os instintos e a sabedoria das suas ancestrais, não copiando o que faziam, mas integrando as suas experiências. De se sintonizar com os ciclos de expansão e contração aos quais tudo o que é vivo está sujeito. De voltar a apaixonar-se pela vida na sua totalidade, com tudo o que tem de sublime e, especialmente, tudo o que tem de cru, de intenso, de cheiros e paladares, de matéria (mater/mãe).

Quando nos olhamos umas às outras, paramos para nos escutarmos e nos acolhermos, vivemos um costume ancestral das mulheres que se juntavam para se acolherem, apoiarem, motivarem…. Sentadas em círculo, a bordar, a costurar, ou apenas a partilhar uma refeição, desde sempre as mulheres cultivaram o seu próprio universo, onde podiam ser escutadas e falar abertamente com a certeza de serem totalmente aceites. Uma irmandade de iguais, onde as questões de uma trarão compreensão e consciência a todas.

Hoje em dia começam a criar-se cada vez mais círculos de mulheres, cada um deles focados em pontos distintos, mas todos com um objetivo muito claro. Nutrir, apoiar e acolher todos os seus membros. Os círculos de mulheres não são para algumas mulheres, a todas abarca. O mais importante é sabermos que, quer gostemos de saias compridas, grinaldas de flores, celebremos Samhain ou, sintamos atração pela adrenalina de fechar um negócio de milhões, viajar para Nova York, desfilar numa passerelle ou do desafio constante de ficar em casa a cuidar da família, somos mulheres inteiras, válidas, reais e tão merecedoras umas quanto outras. Num circulo de mulheres, não há exclusões.

Este é o seu verdadeiro papel. Ser um útero sagrado para sermos quem somos, sem julgamentos nem criticas, numa aceitação da Vida com tudo o que ela traz. A oportunidade de voltarmos à linguagem do corpo, à linguagem da alma, dos símbolos, das estórias, das metáforas, dos arquétipos. A oportunidade para nos abrirmos ao sagrado que reside em cada momento, em cada ser, em cada gesto.

Patricia Rosa-Mendes
Facilitadora Circulos de Mulheres
Instrutora de Meditação
Terapeuta Transpessoal