“Desejava que não tivesse acontecido no meu tempo”, disse Frodo.

“Também eu,” respondeu Gandalf, “assim como todos os que vivem para ver estes tempos. Mas não lhes cabe decidir. Tudo o que temos para decidir é o que fazer com o tempo que nos é concedido.”

inThe Felowship of the Ring”, JRR Tolkien

 

Há uns dias, numa conversa de trabalho, uma colega que vive perto de uma creche comentou comigo que conseguia distinguir perfeitamente os pais que deixavam as crianças pela primeira vez, pela dificuldade, pelas lágrimas, pela dor. A mim que ainda não tive que passar por isso, já me falhou uma batida no coração.

Seja-se adulto ou criança, há muitas “primeiras vezes” que implicam mudanças duras e difíceis de manobrar. Para uma criança que atravessa o umbral de uma escola diferente, com educadores diferentes, espaços que não conhece, pode ser assustador o novo mundo que a espera. Ainda mais quando os sorrisos, colos e abraços com que habitualmente seria recebida são forçosamente substituídos por distâncias cautelosas, mascarilhas estranhas e álcool-gel. Valem-lhe os olhares, quentes e amorosos, estendendo pontes sem braços.

Acredito que muitos de nós gostariam de não estar a atravessar esta pandemia. Estamos numa época confusa, em ajuste constante, que se traduz em mudanças centrais na nossa forma de viver, trabalhar e educar. As escolas lutam para respeitar normas de saúde impostas para defesa de todos. Em salas pequenas onde cabiam 25+1 agora é preciso fazer uma ginástica criativa para que os mesmos caibam com a distância devida, sem partilhas e intervalos sancionados, em muitos casos. Bombas de energia contidas entre quatro paredes, ameaçando explodir.

A ansiedade começa a fazer parte normal dos nossos dias. Acendo a televisão para ver notícias de crianças que se querem fechar em casa, que recusam a saída dos pais, com o medo na voz. Converso com uma vizinha que me conta que o filho, um adolescente de 16 anos, lhe pedia, há uns meses, para recusar um convite de uma amiga para uma festa de aniversário, porque ele receava ir mas não tinha coragem de dizer que não (todos fomos adolescentes alguma vez!). Recordo-me de o ouvir aos gritos, ocasionalmente, na altura do confinamento, dizendo que não aguentava mais estar fechado em casa, exigindo sair. E tudo isto, e muito mais, me faz temer pelos futuros efeitos destas mudanças abruptas e forçadas às nossas crianças e jovens, que se debatem com um mundo tão diferente do habitual.

Também nós, adultos, educadores, profissionais ou pais, estamos remexidos com as circunstâncias. Não sabemos bem até onde podemos ir, o que é seguro ou inseguro. E às vezes o medo leva-nos a actos irreflectidos, como o de dizer a uma criança num tom agressivo “chega-te para lá, não venhas perto”. O medo é mau conselheiro, tem historial disso, sai-nos em reactividade se não tomamos atenção. Causa dano, a quem sente e a quem sofre. Até porque não dá para viver encapsulado, numa bolha. A vida continua, e a vida é lá fora.

E no meio de tudo isto que escuto e observo, há pequenos milagres que me chegam. Há quem traga consigo o olhar da criança dentro, e o transborde em mistério, curiosidade e beleza. Como a professora que pediu aos alunos para trazerem máscaras de pano diferentes umas das outras, e resolveu transformar a sala num baile de máscaras com direito a música, luzes e solenidade devida. A mente de principiante no seu melhor.

A distância pode ter de ser física, mas não tem de ser emocional. Não há dúvida que este ano lectivo nos obriga a olhar para dentro, para emoções difíceis de gerir, perante medos e questões que nos fazem sair, sem dúvida, da zona de conforto.

Mas o que não nos pode roubar, e mais ainda neste momento tão incerto, são os afectos. Preservar uma atitude de encontro, de ternura, de recepção amorosa, de empatia e compaixão, de auto-compaixão, numa comunidade educativa – professores, funcionários, pais, cuidadores – que tem de se moldar a um limitar das expectativas e exigências, pesadas numa mochila que já leva tantas restrições.

Ainda agora que acabo de vos escrever recordo com alegria a tutoria em que da janela da minha aluna se escutavam os gritos felizes e as risadas de crianças no recreio. De olhos fechados, em meditação silenciosa, parecia que me inundavam o escritório, como se estivessem a meu lado e o seu sorriso fosse palpável, mesmo aqui.

Que haja espaço, criatividade e coração para nos reinventarmos no meio de tudo, e podermos trazer um bocadinho de magia aos dias, às salas, aos ginásios, aos recreios, às actividades, aos recursos, a nós mesmos.

Porque, de facto, só podemos fazer o nosso melhor com o que nos é concedido. E isso basta.

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE MINDFULNESS EM EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES