“O conceito de “eu” ou de “ego”, tem sempre algo a perder e a ganhar, alimenta-se das recordações do passado e das antecipações do futuro, mas não pode sobreviver na simplicidade do momento presente, na consciência plena do agora, que significa a liberdade e o apaziguamento final do conflito, da projeção mental, da distorção, da identificação e da divisão.

Soltar a fixação no ego e deixar de nos identificarmos com ele, permitir-nos-á adquirir uma grande liberdade interior. Uma liberdade que tornará possível que nos aproximemos de todos os seres e que abordemos qualquer situação com naturalidade, benevolência, coragem e serenidade.
Ao não ter nada que ganhar nem nada que perder, somos livres de dar e receber tudo.
.”

Matthieu Ricard

 

Desde que nascemos que somos povoados por histórias cheias de passado, presente e futuro, que forjam o nosso olhar sobre a vida e o mundo. Aos poucos, vamos desenlaçando esse emaranhado de mensagens, mais ou menos subtis, e aprendendo a interpretar, rotular e compartimentar as experiências. Começamos cedo a cartografar e a circunscrever os vastos territórios, dentro e fora de nós. A discernir as forças do bem e as forças do mal, a separar os heróis dos vilões, o certo do errado.

A verdade é que nos tornamos tão hábeis neste processo que, frequentemente, nos convertemos em especialistas na arte da exclusão e da fabulação. Eliminamos excessos, preenchemos vazios, retocamos algumas rugas de expressão e, sem delongas, suturamos a velha pele para nos apresentarmos com um rosto diferente ao mundo, acreditando-nos ainda autênticos e inteiros: eu sou o herói e tu o vilão; eu sou a estrela e tu o figurante; eu sou o sábio e tu o ignorante; eu sou o salvador e tu o indefeso, eu sou a vítima e tu o agressor….

Investimos tanta energia em modelar e manter este personagem que ignoramos, na maioria das vezes, que ele só sobrevive nesta dança de papéis “consentida”, ao compasso da cena e contracena desempenhadas pelos próprios atores. E enquanto isso, nos bastidores treinamos e aperfeiçoamo-nos a criar barricadas para proteger esta identidade forjada pela nossa mente pequena, um ego que gira em torno de si mesmo e que carece de sustentação.

Algumas pessoas enredam-se tanto neste protecionismo e na ilusão de separação que acabam a traçar uma linha intransponível entre o eu e o outro, sob a premissa de que “aquilo que nos diferencia é aquilo que nos separa e exclui”. Criam cortinas de ferro entre geografias, etnias e cores de pele, estratos e ideologias, géneros e identidades. E, com isso, mutilam a própria condição humana, erradicando o valor fundamental da sua existência: o direito a Ser.

Perante a diferença, acresce o seu sentimento de ameaça. O medo do desconhecido acorda a sua vulnerabilidade e expõe a construção frágil da sua persona. Para esta, o outro representa alguém com o poder de tocar, remexer e desarrumar os nossos medos, as nossas crenças, os nossos valores, as nossas sombras e feridas. E fugir ou atacar, é a única saída possível.

Uma das grandes aventuras que podemos empreender é rumar a esse espaço amplo de encontros, afetos e cuidados. Sairmos da nossa zona de conforto para conhecer em maior profundidade os outros e o mundo sem os filtros mentais que distorcem a verdadeira natureza de quem está perante nós, tentando encontrar muito mais a nossa humanidade partilhada do que a rejeição, o ataque ou o temor.

Quando soltamos as amarras do nosso ego, abrimos caminho para pistas mais profundas sobre “quem eu sou”, descobrindo novas facetas de nós mesmos, aspetos de melhoria e desafios a superar. Olhar para os conflitos ou tensões interpessoais na nossa vida pode ser uma excelente oportunidade para investigar preconceitos, rótulos e aversões a que estejamos presos, resistências que tenhamos à mudança, dificuldades para descobrir no outro a sua própria história ou para exercitar o nosso espírito compassivo.

Num mundo marcado cada vez mais pela pluralidade e diversidade, fazendo-se escutar a várias vozes, este pode ser o momento chave para nos aproximarmos com suspensão de julgamentos e mente de principiante daqueles com os quais mantemos uma desafinação constante, deixando que se aninhem em nós interrogações essenciais: Que desculpas limitadoras dou a mim mesmo para não me conectar com esta pessoa? Deteto em mim algum padrão limitador de fuga ou ataque? O que temos ambos em comum? Quem quero ser neste momento com esta pessoa? E que comece a aventura consciente…

 

CÁTIA PINTO
TUTORA DE MASTER EM MINDFULNESS