Nas casas antigas, a lareira era o coração da casa. O fogo era mantido aceso, em lume forte ou apenas em borralho, mas sempre vivo, pronto para aquecer o que fosse necessário. Fornecia calor e luz, permitia cozinhar os alimentos, ferver a água e proteger do frio. O fogo do lar era um símbolo do fogo que a Vida pede, para se ir cumprindo, esse fogo invisível, o fogo interno, que nos inflama e excita, que ilumina e aquece. 


Na maior parte das culturas, ao longo dos séculos, e por todo o globo, o fogo era divino. No lar, ele era consagrado a uma divindade e mantê-lo aceso era uma tarefa sagrada. Marcava também os eventos comuns, as reuniões dos clãs, as noites de festa depois das batalhas. Desde o primeiro dia em que o ser humano o descobriu, o fogo não mais deixou de fazer parte de cada ato da vida, do mais sagrado ao mais profano, e ainda hoje é assim, mesmo que se manifeste de formas mais subtis. 

O fogo une o sagrado e o profano, estados aparentemente contraditórios. Embora saiba que, só quando ambos se interligam numa dança harmoniosa vivo a plenitude, os passos desta dança não deixam de ser um desafio a cada momento de vida. De cada vez que balanço mais para um dos lados, surge o desequilíbrio, e quando compenso para o outro, nem sempre é fácil recentrar a energia. Se toda a vida é uma dança de opostos, este é um dos principais pares a mostrar-se na pista. 

Profano é aquilo que não pertence à religião, segundo o Dicionário Universal da Língua Portuguesa, é o que “não (é) iniciado em certos conhecimentos; estranho a certos assuntos”. Vive-se o profano naquilo que é comum e ordinário, naquilo que provoca os sentidos, que nos convida a experimentar a superfície, a leveza, a temporalidade, os prazeres, os instintos… E, contudo, em cada uma destas vivências, também reside a chama do que é sagrado, daquilo que nos convida à profundidade, à essência, ao que nunca perece porque é imortal. Mais do que um conjunto de atividades que podemos rotular de profanas ou de sagradas (já que qualquer atividade pode ser vivida de uma ou outra forma), trata-se mais de pontos de observação, espaços internos desde onde nos convidamos a experimentar o sagrado ou o profano. 

Na antiguidade, o cisma entre sagrado e profano talvez não fosse tão evidente como mais tarde, durante a cristianização, onde se criou uma divisão clara entre ambos: profano era o que pertencia ao corpo, à carne, à matéria. Sagrado, era o que estava no reino do céu, do Pai Divino, destituído de substância, todo ele espírito e luz. Infelizmente, somos mais influenciados por esta visão – ainda hoje, numa sociedade laica – do que gostaríamos, e associamos frequentemente aquilo que dá prazer ao corpo como sendo profano, logo inferior. Almejamos o espírito, a luz, o afastamento da terra, de tudo aquilo que nos recorda da nossa finitude, e voltamos a trazer para o nosso quotidiano as exigências e autoritarismos rígidos que caracterizavam as instituições religiosas mais antiquadas, vestindo-os com outras roupagens, sem nos darmos conta de que perpetuamos o paradigma. 

Buscamos a vivência do sagrado porque ela permite que fechemos o imenso fosso de separação que acreditamos serem as nossas vidas. Estamos separados, isolados, sós, entregues a nós mesmos, num mundo hostil e perigoso, e buscamos algo que anule essa sensação em cada busca de prazer e em cada fuga ao que é doloroso. Também a espiritualidade traz prazer, e de cada vez que sentimos o fogo da devoção no nosso interior, de cada vez que as nossas crenças nos trazem significado àquilo que parece insuportável, ou que encontramos paz interior nuns momentos de meditação, sabemos que estamos menos separados. 

Buscamos a vivência do sagrado também porque a um certo nível sabemos – não por uma questão de acreditar, mas porque todo o nosso ser o sente – que algo em nós é mais vasto do que tudo o que acreditamos ser. Porque sentimos que há um Mistério maior na vida que tantas vezes damos por certa, um Mistério que já nos sussurrou ao ouvido, tocou ao de leve a nossa face e ignificou uma chispa de Vida nos nossos corações. Pode ter sido numa profunda experiência mística, um momento de oração, um concerto, a contemplação da natureza, de uma obra de arte ou uma experiência onde alcançámos as alturas da transcendência. No entanto, se nos permitirmos recordar com honestidade, talvez tenha sido no mesmo momento em que estávamos no nosso estado mais vulnerável, quando sofremos uma perda irreparável, ou então, quando fazíamos amor, quando observámos a capacidade de solidariedade e entrega do ser humano, ou ainda quando assistíamos ao nascimento de um novo ser vivo. Como todos os grandes poetas, os grandes místicos e os inocentes tão bem sabem, a vida apela à Vida, e toda a vida é, inerentemente, sagrada. 

Sinto que a harmonia de sagrado com profano vem pela vivência de cada momento a partir de um lugar interno de reverência e sacralidade, esse profundo em nós que sabe esta verdade. E, tendo dito isto, admito que será impossível vivê-lo constantemente. Contudo, não será impossível cultivá-lo, enquanto processo (e não como fim), nas nossas vidas. Como, pergunto-me frequentemente, posso cultivar esta conexão com a sacralidade da vida? De que forma posso viver intimamente, a minha vida comigo mesma? 

Começo pelo corpo, a nossa casa, para lá de qualquer outra. Não o cultuo, porém, relembro-me frequentemente de que o amo e o respeito, e de como me sinto quando lhe dou aquilo que ele necessita. Páro cada vez mais para o escutar, e levá-lo em conta. Dou-lhe movimento, dou-lhe alimentos sãos, dou-lhe espaço e contacto com a Natureza, à qual ele pertence. Dou-lhe tempo e descanso. Mas, também sou alma, e também sou espírito. Por isso, tento escutar as outras partes de mim em igual medida, e olhá-las com o mesmo olhar de reverência e de sagrado, dedicando-lhes também o espaço e o tempo para se expressarem. 

A minha alma pede-me os prazeres simples do convívio com quem amo, tantas vezes à volta da mesa, saboreando uma refeição preparada por mãos amorosas e dedicadas. Pede-me que me dê ao que me apaixona. Desfruto, fazendo peças que me nutrem, tecendo com fios de lã ou pintando com ceras, dando asas à criatividade. Leio, leio muito! E páro, em silêncio, contemplando: uma formiga, o mar, o meu próprio silêncio interno… Contemplando a vida. Cultivo a gratidão, cada vez mais. Permito-me encher de gratidão, até que os meus olhos transbordem, ciente das bênçãos imensas com que fui agraciada. Ou choro, fazendo o luto por aquilo que morreu, dentro ou fora, e não poderá regressar sob a mesma forma, nunca mais. Relembro-me, uma e outra vez, quando acendo a vela, quando passo a mão pelos cabelos dos meus filhos, quando olho nos olhos do meu amor, que a Vida é um Mistério, tão grande e tão profundo, tão maior do que qualquer um de nós e do qual também eu sou parte. Um Mistério que em tempos, como dizem as estórias antigas, fez Céu e Terra apaixonarem-se e unirem-se, criando todas as formas de vida que hoje conhecemos. O grande Amor, o amor entre espírito e matéria, entre divino e humano, o mesmo amor que levou Rumi a escrever a sua poesia apaixonada, plena de fogo sagrado, ao Amado. O mesmo amor que nos trouxe aqui, agora, e que nos mantém vivos, espírito vivendo a aventura de ser humano, alma caminhando em espiral, cíclica, intemporal e eterna.

Artigo publicado na Revista Vento e Água, número 21

PATRÍCIA ROSA-MENDES
TUTORA DE TERAPIA TRANSPESSOAL, MEDITAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES – EDT