“Assim que amanheceu, mandou Afrodite chamar Psique e disse-lhe:

– Vês aquela floresta, por onde passa o rio, que tem aquelas grandes árvores ao redor? E vês aquelas ovelhas resplandecentes e de cor de ouro que andam a pastar sem que ninguém as guarde? Pois, vai lá e traz-me esta cesta cheia da sua preciosa lã.

Psique, vendo a força e violência dos carneiros, foi para lá, não para fazer o que Afrodite lhe mandara, mas sim para dar fim aos seus males, lançando-se para dentro do rio. Quando chegou ao rio, uma cana verde, que é mãe da música suave, meneada por um doce ar por inspiração divina, falou desta maneira:

– Psique, tu que sofreste tantas tribulações, não queiras sujar as minhas santas águas com a tua morte, nem tampouco tentes chegar a estas espantosas ovelhas, porque com o calor do Sol costumam ser muito raivosas; com os chifres agudos e as frentes de pedra, e até com os dentes venenosos, matam muitos homens. Depois que passar o ardor do meio-dia, as ovelhas repousarão na frescura do rio. Quando vires que começam a dormir, sacudirás os ramos e folhas daqueles arbustos perto delas e ali encontrarás as jubas de lã de ouro que se agarram quando as ovelhas passam.

Ela, quando isto ouviu, não foi negligente em cumpri-lo. Fazendo e guardando tudo o como a cana dissera, furtou a lã de ouro dos arbustos; trouxe-o e jogou-o no regaço de Afrodite. “


Esta é a segunda tarefa de Psique, na sua demanda por recuperar o amante, Eros, descrita no Asno de Ouro, de Apuleio. Entre várias tarefas – quase sempre aparentemente impossíveis para um “comum mortal” – Psique vai encontrando ajudas “sobrenaturais” que a ensinam a cumprir o necessário de formas mais leves do que aquelas que ela abarca para si.

Há uma profunda sabedoria nesta tarefa (como em todas, neste mito). Ela mostra que, de algo aparentemente perigoso e violento pode descobrir-se uma solução simples e pacífica, mas sobretudo revela-nos uma extraordinária pergunta, segundo o psicólogo Junguiano Robert A. Johnson: que quantidade de energia masculina é suficiente?

Esta é uma questão tão pertinente de sabedoria que poderia ser colocada antes de qualquer decisão ou ação, sobretudo para o universo feminino, num mundo onde o Mito do Perfeccionismo se tornou, equivocadamente, um dos “talentos” das Supermulheres sem capa em que nos tentamos tornar.

O mundo ocidental injeta-nos mensagens sobre produtividade, ação, concretização e uma agenda repleta de mil e uma tarefas como sinónimo de poder, sucesso e competência. Adotamo-la com um sorriso orgulhoso e caminhamos pela vida cumprindo todas as “obrigações”, muitas das quais autoimpostas, para provar a nós mesmas que somos suficientes, que “conseguimos dar conta do recado”, que valemos aquilo que fazemos.

A resposta do mundo é a que esperávamos: que maravilha, fazemos tanto, conseguimos tudo, que competência extraordinária. E, sem perceber a faca de dois gumes de cada elogio, cumprimos ainda mais para ser vistas e reconhecidas, acreditando que temos de chegar a todos os lados. Continuamos, assim, a demanda de “arrancar a lã dourada dos tosões raivosos, à luz do sol ardente”, e mutilando-nos silenciosamente até à essência.

Entre o trabalho, as tarefas domésticas, os filhos, o ginásio, a vida social, as compras e tanto que nos vamos impondo como “mínimos olímpicos”, apropriamo-nos da crença de que “necessitamos de ter tudo organizado” para poder descansar, sem entender que, para esse oásis chegar, temos de destruir o mito do perfecionismo estéril no qual aprendemos o que era ser-se suficiente.

Vivemos tempos que nos colocam perante um lugar diferente daquele que conhecíamos. Uma paragem forçada, a estadia a tempo inteiro no espaço que chamamos de lar e com as pessoas que povoam o nosso núcleo mais íntimo. E, da maneira mais dura, apercebemo-nos de que não é tanto o mundo lá fora que nos posiciona numa correria de obrigações e tarefas inegociáveis. Somos nós, com os nossos horários, as limpezas, as refeições a tempo e horas, o tempo para as crianças e o apoio à escola. Com uma crença violenta de ter de chegar a todo o lado e na qual, por mais que o forcemos, nunca chega.

De repente, a casa, o lugar seguro onde o acolhimento, o descanso e o desfrute nos resguardam do mundo, corre o risco de se transformar no campo de batalha de todos os dias, na qual a eficiência e a produtividade nos escravizam e nos refletem maior ou menor valor enquanto pessoas.

O universo arquetípico no qual o cuidar, o embelezar e o nutrir nos empoderam e se tornam pilares emocionais de sustentação de um lar perdem-se para tarefas estéreis de competência e obrigação.

Na tentativa de chegar a todo o lado, esquecemo-nos de que nada temos para dar, se não nos dermos nada. Que quantidade de energia masculina é suficiente? Necessitamos assim tanto de completar todas as tarefas daquela forma? Necessitará uma casa de estar a brilhar, quando alguns espaços de leitura, silêncio, criatividade e dança podem encher-nos de brilho a nós mesmas? Onde está o equilíbrio necessário para que o lugar onde habitamos se transforme num verdadeiro lar? Onde a vida e o movimento têm espaço e expressão?

Esta tarefa de Psique – um mito que esmiúça tão bem as tarefas arquetípicas do amadurecimento do feminino – pede-nos que nos aquietemos. Que não nos precipitemos no “calor do sol ardente”. Que nos perguntemos se necessitamos de despender mesmo toda aquela energia para completar tarefas autoimpostas ou se podemos escolher outro caminho. Um trilho mais criativo, mais suave, feito à nossa medida e no qual a expressão verdadeira de quem somos tem mais força do que os talentos produtivos de uma supermulher que, à custa de mutilação violenta, se vai esquecendo de quem é e do que tem verdadeiramente para dar.

Que quantidade de energia masculina é a suficiente para que a Alma (Psique) possa, através de um trabalho mais criativo e menos violento, entregar a lã dourada no regaço da Deusa Alquímica que também somos (Afrodite)? 

Artigo publicado na Revista Vento e Água, número 21

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT