– a alma e os “lugares de lado nenhum” –

Há um sonho que nos está a sonhar.

Kalahari Bushman

 

Qual é o propósito de um sonho? De um amigo imaginário? De uma estória bem contada e que nos remexe as entranhas ou lida numa tarde de chuva, por entre mantas e chás quentes?

Que partes de nós se alimentam e sanam, respiram vida e emoção ao recordar um mito antigo? Onde se situa o sonhar acordado nas nossas apressadas vidas?

Remetido para um canto da infância, ou para um lugar de escapismo, apenas prestável aos artistas (e nem todos têm essa benesse), o Imaginário tornou-se pouco útil aos olhos do racionalismo humano, num mundo onde o estímulo-resposta e o Objetivo-Produto-Meta são soberanos.

Desbravámos terreno pelos meandros da consciência e da psique, escavando no autoconhecimento, no desenvolvimento e na terapia. Adentramos nas melhores versões de nós mesmos, como indivíduos, pais e mães, professores e elementos de um casal. Escavámos as feridas e a criança, as sombras e o perdão.

Só que nos esquecemo de trazer a alma na bagagem, o mistério, as povoações secretas da imaginação, os “lugares de lado nenhum” onde as regras conhecidas não se aplicam. A tradição oral, a poesia e a arte, os sonhos e os rituais habitam esses lugares.

Mundus Imaginalis é o termo usado por Henri Corbin, um especialista da filosofia Sufi, para esse Reino. Um espaço-mundo que coexiste entre o mundo natural e o mundo do divino, não percetível pelos sentidos da forma como os habituámos a usar. Onde a dualidade matéria e espírito ou realidade e mito não se aplicam, pois na verdade não há um “lugar” para este reino que não a alma. Somente aí nos relacionamos com o mundo arquetípico, mitológico, mágico, sagrado e latente de vida. E é também desse lugar que a alma do mundo se relaciona connosco.

O que somos nós sem eles? Os lugares da alma, repletos de símbolo e magia, sincronicidade e mistério? De que servem as ferramentas, se perdemos a capacidade de nos assombrar com o mundo que nos rodeia?

De celebrar a passagem das estações e a mudança das luas, escutar e reverenciar a vida nas suas variadas formas? De sentir as marés e os ventos do deserto, os sussurros da brisa e a dança das arvores? Quem somos nós quando nos perdemos da magia?

Ainda que seres individuais, existimos na verdade também como seres coletivos e arquetípicos.  Somos seres em crescimento. Somos também pertença. A pessoas, a aldeias, a paisagens e a estórias. A sonhos e a poesias. E somos magia e eternidade. Estórias mil vezes contadas; por vezes narramo-las nós, outras vezes, somos nós a ser contados.

E quantas vezes somos “contados” num sonho antigo, nosso ou de outros, ou talvez do próprio mundo, numa estória narrada por uma voz intemporal, junto de uma lareira numa noite de Inverno? Quanto de nós se sana, quando nos permitimos viver dentro de uma boa estória?

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT