Arquetipicamente, qualquer jornada se inicia com uma saída da zona de conforto, do conhecido, do chamado “mundo comum.”

 

Se, por vezes, escolhemos esta viagem, ou ansiamos por ela, na maioria das vezes ela apanha-nos de surpresa, empurra-nos, leva-nos a resistir e a perguntar-nos “porquê?”. Porquê eu, porquê agora, porquê…? 

Sem nos apercebermos, pagamos viagem num carrossel que nos transporta para lugares onde não sonharíamos ir e a descobrir recursos que não imaginávamos ter.

Inevitavelmente, mergulhamos em pedaços de nós que escondemos na sombra e, através deles, encontramos tesouros e novas fórmulas de viver a vida. 

Ainda que não seja a fase mais intensa, apaixonante ou floreada, das grandes jornadas da vida, a última é, sem dúvida, uma das mais impactantes. O regresso a casa. O retorno ao mundo que deixámos, quando já não somos a pessoa que partiu. 

Não pertença, desenraizamento, desconforto, solidão são algumas das sensações que nos assolam. Percorremos tão longo caminho para descobrir quem somos, e pagamos o preço de deixar de pertencer aos lugares que conhecíamos. 

Resta-nos a escolha de nos afastar, ou de ficar para reconstruir. De nos sentirmos melhores do que os comuns, ou de caminhar por entre os lugares, partilhando quem somos e o que descobrimos. Recriando-nos e fazendo a diferença de formas criativas, enriquecedoras e acolhedoras. 

Os momentos atuais do mundo apelam-nos a uma das maiores jornadas de sempre. E, se o mundo comum por onde caminhávamos não era o ideal, sem dúvida que as viagens de carrossel por onde somos testados nos abrem caminhos, recursos e novas formas de estar e pertencer. 

Talvez sejam agora os momentos das boas decisões. De nos enraizarmos finalmente no corpo e na terra e escolher diferente. Respeitar a vida. Consumir de forma consciente. Precisar de menos. Partilhar mais. Amar melhor. 

Que grandes escolhas necessitam de ser feitas? Que boas mudanças nos trazem de volta a nós mesmos? Que passos nos aproximam da terra-mãe que nos acolhe?

Estas são as grandes perguntas. 

As jornadas de individuação são fundamentais para cada um. E a etapa seguinte é, sempre, o regresso a casa. Os heróis arquetípicos caminham sempre em “sacro-ofício”. Em prole de todos.

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT