Viver é uma forma de não estar seguro, de não saber o que vem a seguir, nem como.

Desde o momento em que descobres como, começas a morrer um pouco.

O artista nunca sabe do todo. Adivinha. Pode enganar-se, mas lança-se uma e outra vez no desconhecido.

Agnes de Mille

A Sul do país, conhecemos bem o Levante e o Siroco, os ventos do deserto, que chegam sem avisar e despenteiam as marés, a areia e as emoções. Não nos escapamos deles, permanecem sempre mais do que um dia e desencorajam tardes de calor e suaves banhos de mar tranquilo. Quando o Levante vem, as ondas crescem de forma bravia, a areia eleva-se em espiral, entranhando-se nos lugares mais recônditos e picando a pele despida. Se fugimos deles, há um desassossego que nos amarra. Não se controlam os ventos do deserto. Quando chegam, resta-nos aguardar e seguir o rumo a que levam, escutando a promessa sussurrada de noites cálidas e marés quentes.

Habituei-me a sentir o Levante dentro do peito, mesmo quando não estou no Sul. Quando não sei se as marés estão bravias ou se as espirais que se soltam das dunas me picam a pele ou se entranham nos lugares mais inóspitos. Os ventos do deserto soltam-se dentro e despenteiam os cabelos e a arrumação. Abafam certezas e sossegos, espantam a tranquilidade e despertam as emoções mais intensas, como cavalos selvagens correndo dentro do peito. Não há como controlar a ventania quente que nos descarna. Ela vem sem aviso e desnorteia, desaustina, sem que nada possa ser controlado. Há um apelo, porém, para mergulhar dentro. Adentrar no deserto e seguir os murmúrios de lugares diferentes.

Quando os ventos me visitam não perduro num lugar simples. Não é fácil, dócil ou ameno. Há uma ânsia de absoluto, uma dor profunda de saudade, um instinto selvagem de alcançar paisagens que desconheço. Os ventos do deserto enredam, com as suas estórias tecidas em suspiros, uma saudade não se sabe bem do quê, a maresia que nos chega à pele como a carícia de um amante por quem se espera há muito. Se lhes fujo, distraindo-me ou forçando-me a regressar a um lugar conhecido, integrado e bem-comportado, veste-se-me uma aridez intensa, como se o vínculo mais profundo da alma me fosse cortado.

Por isso, subsisto nesse espaço de desarrumação interna, em que os sussurros se transformam em gritos e danças selvagens, as marés me correm nas veias e nada mais posso fazer para além de criar os lugares por que tanto anseio. Escrevo, na maioria das vezes. Noutras cozinho, escolhendo ingredientes e especiarias com total dedicação. Experimentando novos sabores, como se o tempo não fosse importante. Ou vou para a floresta, para junto do mar, para qualquer paisagem que reflita a minha própria natureza interna.

 A criatividade tem cheiro destes lugares de Levante. Ela não é perfeitinha, nem encaixável numa prateleira, num horário ou numa secretária bonita e organizada. O novo não chega de espaços estéreis e conhecidos. Os nascimentos necessitam de ventre, de escuridão, húmus e lugares quentes.

O impulso criativo vem da natureza selvagem da psique. Ele aparece como as marés vivas, as grutas escondidas cheias de perigos e tesouros, as florestas densas de vida e lugares secretos, os desertos extensos com oásis parcos e verdejantes. Não sabemos ao que vamos. Quanto tempo demoramos. Sabemos que ele não depende dos tempos planeados da nossa vida. E que não pode ser domesticado.

Nos mitos antigos e contos de fadas, as heroínas perdem-se na floresta, escondem-se em troncos de árvores, tecem camisas de ervas venenosas que lhes aguilhoam as mãos e as deformam, ou descem ao submundo e são viradas ao contrário, sangrando durante três dias. Elas saem dos lugares protegidos da sua psique e são expostas à sua natureza selvagem até que a mesma seja acolhida. Não há doçura ou conforto. Nem uma lógica racional, ou um tempo delineado. A aparente passividade dorida como resposta à proposta que a vida traz é, na verdade, a rendição profunda ao ímpeto para sair de lugares seguros e caminhar para um lugar que nos despenteia e obriga a seguir outro rumo.

Ninguém se perde conhecendo o caminho. É nos trilhos desconhecidos que o impulso de vida encontra solo fértil. A casa na floresta, o cavaleiro nobre, o renascimento e a soberania eventualmente aparecem. Especialmente se não estivermos à espera.

Acreditamos que devemos transformar sombras em luz, seguir os ritmos fluídos da vida e que o esforço e a dor são forças opostas à criação. Mas a semente brota com esforço e o crescimento da planta vem contra a força da própria gravidade.

A psique selvagem, como a criatividade, é uma paisagem inóspita, paradoxal e indomesticada. Os demónios internos, os espíritos dos lugares, as feridas que transformámos em cicatrizes trazem-nos a desarrumação necessária para sair de regiões seguras e infecundas. Somos levados a conhecê-los, permanecemos durante um tempo, vivendo o sublime e a dor profunda, a beleza e o desespero, a saudade e o amor. Eles não se tornam aliados porque os controlamos, entendemos ou transformamos. Porém, perdemo-nos neles pressentindo que, como numa promessa sussurrada pelo Levante, algo nascerá de onde aparentemente nada havia. E nesse lugar, onde cuidamos, tecemos, cozinhamos, escrevemos, pintamos, acariciamos, descobrimos que os ventos do deserto nos trazem anseios daquilo que, na verdade, trazemos dentro.

Diz um provérbio Tuareg que “Deus criou o mar para que o Homem pudesse viver e alimentar-se e criou o deserto para que ele pudesse descobrir a sua alma”.

 

 Publicado no nº28 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT