“Todos os caminhos em direção à Alma se desenham dentro do silêncio. E é no silêncio que podemos encontrar a chave, o espaço e a coragem para alimentar a Alma.”

CP


 

Soa o alarme, o despertador marca o início de um novo dia. Saltamos da cama no ímpeto de ganhar tempo ao tempo. Pés no chão, sem complacência pelos sentidos atordoados ou qualquer amabilidade pelo corpo que nos adormece e que connosco amanhece desde o primeiro suspiro de vida. O mesmo corpo que esperamos que nos sustenha mesmo quando contra todas as probabilidades. Com os olhos praticamente fechados, lá vamos cambaleando para a rotina da manhã sem lhe colocar intenção senão apenas o dever cumprido. O relógio não para e os ponteiros vão ditando o compasso e a premência dos nossos gestos, entre um olhar e outro de soslaio na esperança que as horas e os minutos conspirem a nosso favor.

Saímos porta fora e lançamo-nos apressadamente à estrada, emergindo a dúvida e angústia do que terá ficado para trás. Percorremos o caminho sem limpar as nossas lentes e tampouco sem contemplar a paisagem. Não sabemos como chegamos ao destino ou em que momento do percurso o extraordinário se faz presente entre o vulgar. À nossa volta, tudo parece inalterado: os mesmos edifícios, o ruído ensurdecedor dos carros e das buzinas, os passos vertiginosos das pessoas, o olhar desligado e o corpo em piloto automático. Dentro de nós, o mesmo e constante diálogo frenético e as imagens em catadupa a nascer e morrer no mesmo lugar. Uma mente que saltita entre janelas temporais e explora caminhos insidiosos, enquanto nós vamos esquecendo dessa parte de nós que habita no profundo do Ser.

O dia vai acontecendo entre afazeres profissionais, pessoais, familiares e domésticos, dando enfim lugar à noite. No livro da nossa história, este parece ser apenas mais um dia banal entre tantos outros de vida vazia. Desprovido de sentido e desgovernado, sem fogo ou chão. O tique-taque parece dirigir a nossa vida e ser o responsável por escrever as páginas desse livro, cabendo a ele as vírgulas e reticências que determinam uma pausa para respirar. Mas, enquanto Guardião do Tempo, ele brinca de acrescentar linhas e mais linhas, e enche-as de diretivas relembrando que cada instante traz consigo a passos largos o instante seguinte, sem premiar intervalos. E desafia-nos constantemente para um fôlego rápido, sem permissão para Ser ou Sentir.

Este é o momento para assumirmos as rédeas da nossa própria história, cabendo a nós os pontos finais que sugerem uma metamorfose. A necessidade de abandonar velhos hábitos e de reescrever um novo e diferente capítulo. O nosso maior milagre é caber dentro da vida que está a acontecer, aqui e agora. E honrar esta Vida que Somos a cada instante implica aprender a desacelerar para reaprender a sentir. É preciso sentir o que ainda não foi sentido e até mesmo retornar ao que já foi sentido, levando o nosso olhar de principiante e abrindo-nos a cada experiência como se fosse a primeira vez. Apenas conhecendo-lhe o gosto, o cheiro, a textura e a temperatura poderemos abrir-nos à Vida tal como se manifesta e É, na sua magnitude e explosão de sabores. Só quando deixarmos de engolir a vida sem a mastigar, poderemos aprender a saborear a mesma. Poderemos até surpreender-nos ao descobrir que a própria felicidade reside na capacidade de aceitar com alegria o que a vida nos dá e em soltar com a mesma alegria o que ela nos retira, como em tempos proclamou Santo Agostinho.

Não se trata de atrasar os relógios, evitar os compromissos ou fugir às responsabilidades. Sair da armadilha que nos torna reféns das circunstâncias externas requer começar a viver o mundo diretamente, desde um lugar diferente. Implica largar as “saias da nossa mente” para habitar o nosso corpo e religar com os nossos sentidos. Abrir a porta da consciência e da liberdade, desligando o nosso piloto automático e fazendo escolhas conscientes no sentido de alinhar as nossas intenções e ações. À medida que formos cultivando esta atitude, poderemos descobrir-nos gradualmente a viver desde um ponto sensorial mas também desde um lugar profundo e intuitivo, que nos desperta para o que está a acontecer dentro e fora de nós, a cada momento.

Esta atenção plena, treinada e ancorada no silêncio, é o que nos ajuda a conectar com a nossa Essência e a identificar o que debilita e nutre a Alma. Através dela podemos compreender como restabelecer o equilíbrio quando nos sentimos esvaziados dos nossos recursos internos. Todos os caminhos em direção à Alma se desenham dentro do silêncio. E é no silêncio que podemos encontrar a chave, o espaço e a coragem para alimentar a Alma.

 

 

CÁTIA PINTO
TUTORA MASTER EM CONSULTORIA MINDFULNESS – EDT