Os deuses criaram a humanidade porque adoram escutar estórias.

Provérbio Africano

Escutamos poucas estórias. Escutamos pouco, as estórias. Num mundo de previsões, opiniões, dados científicos e uma necessidade cada vez mais prevalecente de nos sentirmos seguros perante certezas e lógicas lineares fornecidas por algo (ou alguém) que prometa tomar conta de nós, esquecemo-nos de escutar as estórias que nos conectam com as dimensões sagradas da nossa vida interior. Se as escutássemos, muitas e muitas vezes, com uma atenção para além de um sentido físico, talvez surgisse um lugar para acolher as encruzilhadas.

A mitologia pessoal é uma forma de se olhar para a terra da alma, melhor dizendo, o mapa da nossa própria alma. A alma é o sítio dos lugares profundos. É também o lugar que imagina (em sonhos, fantasias, anseios e na nossa relação com o sagrado). A capacidade de imaginar – tão mais complexa e importante do que a forma corriqueira com que a empregamos – é o que nos faz entrar em contacto com a alma do mundo. Neste lugar, metaforicamente, trazemos os trilhos abertos, as florestas densas, as barreiras que nos impedem de seguir viagem. E, naturalmente, trazemos as encruzilhadas.

Na mitologia, nas antigas estórias, as encruzilhadas são pontos de paragem que conduzem a uma escolha. Porém, ao ser uma boa estória, a escolha não é linear, nem óbvia. Existe algo na encruzilhada, para além das direções. Um símbolo cujo significado não é claro. Uma pedra de forma estranha. Uma seta virada ao contrário, que confunde sobre o sentido a tomar. Um corvo ou uma raposa, com um sorriso matreiro e um olhar enganador.

Por vezes uma anciã, como a Baba Yaga eslava, que nos provoca com uma pergunta sem resposta adequada. Ou um demónio cujo desafio colocado relativiza tudo o que conhecemos como “verdade”. Estas figuras, perturbadoras e que desmontam o que, aparentemente, estaria arrumado, eram ancestralmente referidas como “daemons”, os antigos espíritos dos lugares.

Estruturas psíquicas que surgem sob a forma de elementos desconcertantes, elas funcionam como o “trickster”, o matreiro que age para além do bem e do mal. Transportam a duplicidade, a polaridade, mas também o que está para além da dualidade, pois não encaixam em nenhum sistema ou rótulo. Acabam por ser ajudantes, mas não pela sua bondade. Elas pedem-nos uma superação de provas, que testam as certezas, o caracter e as metáforas pelas quais vivemos.

Deparamo-nos com uma encruzilhada quando a vida que estamos a viver já não ressoa com quem sentimos ser. Essa é, provavelmente, uma das grandes questões míticas da vida. Quando o mito pessoal prevalecente (aquele com o qual temos vivido) se depara com um mito pessoal emergente (algo novo que clama por nascer). Quando as nossas personagens internas deixam de encontrar espaço para se movimentar. São momentos de profunda incerteza, pois os valores que nos regiam, a sabedoria interna que iluminava os passos, cessa a sua voz. Já não podemos escutar os sinais de um mito que deixou de ressoar connosco. E, em plena encruzilhada, não conhecemos ainda as roupagens do novo, do emergente, da nova vida que nos chama.

Nestas alturas, sem certezas internas, corremos o risco de fugir. Voltar para trás, enveredar por um qualquer caminho, agarrar-nos a convicções que já não temos. Sob o medo e o desconforto da encruzilhada, abandonamos tantas vezes a autoridade interior, em prole de certezas “vendidas” pelo mundo. É mais cativante acreditar na linearidade do bem e do mal do que na complexidade arquetípica que somos.

Porém, a encruzilhada chama por outras personagens em nós. Os divergentes. Os que fazem as perguntas. Os que acolhem a incerteza. Os que encontram um caminho onde as respostas fáceis não existem. Somos esses também, se soubermos escutar as estórias. Os mitos, os grandes temas, as personagens que trazemos dentro não se vestem de linearidade. Quanto mais ancestrais as estórias, maior complexidade trazem.

Encontro temas míticos pelos quais vivo e personagens internas na minha própria história. Um dos meus bisavôs era guarda fiscal. Outro era contrabandista. Viviam em terras rivais, um de linhagem paterna, outro de linhagem materna. Cresci com o guarda-fiscal, mas sonhava com o contrabandista. Escutando as suas estórias, compreendi uma parte do meu próprio mito pessoal, as metáforas pelas quais me rejo. Eu “sou” a contrabandista e a guarda-fiscal. Vivo ambas, escuto as suas vozes em circunstâncias diferentes. Abraço o guarda fiscal, pisco o olho ao contrabandista.

Porém, quando encontro uma encruzilhada, escolher um deles não me traz qualquer satisfação. A sua polaridade não me consegue acalentar. A encruzilhada pede-me que sacrifique a consciência linear em prole do desconhecido. Que encontre a terceira via, o olhar do paradoxo. Não sou um ou outro, sou ambos. Qual a solução que escolheriam, perante um desafio do espírito do lugar? A resposta não surge logo e requer tempo para que se instale dentro de mim. Parte do processo vem da incerteza de saber se algum dia escutarei a voz desta nova personagem. Não sei quem ela é, mas caminho na fé de que abarcará a minha dualidade.

O mapa da alma é-nos fornecido através dos trilhos que arriscamos percorrer. Na encruzilhada, surge um convite a uma paisagem inexplorada. Há que forjar a personagem que caminhará por essa senda.

Nas palavras de Joseph Campbell, “Se queremos mudar o mundo, temos de mudar a metáfora”.

Publicado no nº29 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT