“Todas as criaturas do planeta voltam para casa. É uma ironia que nós tenhamos construído santuários para a íbis, o pelicano, a garça-real, o bolo, o grou, o cervo, o alce e o urso, mas não para nós mesmos, nos lugares em que vivemos no dia-a-dia. “

Clarissa Pinkola Estés

Cresci numa praia e, talvez por isso, tenha alguma intimidade com as águas selvagens. Entendo o encher e esvaziar das correntes, as marés vivas, a calmaria e a tempestade. Conheço os sinais dos ventos e das neblinas e estremeço com a densidão do mar nas noites escuras. Sei que ser íntimo das águas não significa não as temer. Sei que quem está ligado às águas do oceano não consegue ficar muito tempo sem se nutrir delas. Sei que me dirigi vezes e vezes sem conta a essas mesmas águas para me reencontrar.

Cresci também junto de um poço e, se conheço a frescura da água saída do ventre da Terra, também escuto o bater atemorizado do meu coração ao espreitar para a límpida escuridão que um lugar aparentemente sem fundo.

Pele de Foca fala-me de uma mulher que não podia mais permanecer sem regressar às águas. Como me ressoa este conto. Como me conta a mim mesma desde que me recordo gente. A primeira estória pela qual me apaixonei foi A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen. A mesma estória, no fundo, reconhecida pelo tamanho que eu tinha. Encontrei-a mais tarde, nesta versão contada em quase todo o mundo, sobre uma mulher que precisa de recuperar a pele e regressar às águas para sobreviver.

A nossa mitologia pessoal habita-nos, entranha-se nos lugares mais escondidos da alma e tatua-se em nós. Não a escolhemos. Respiramo-la. E se, por vezes, a encontramos nas estórias que se entrelaçam nas nossas circunstâncias, é preciso estar muito atento às variadas versões e às encruzilhadas, pois são os momentos de Mistério nos quais podemos adentrar, ou reescrever o mito.

Acredito que todos aqueles que escutam pele de foca reconhecem o “roubo da pele” que inevitavelmente acontece ao longo de uma existência humana, tantas e tantas vezes e de variadíssimas formas. E, naturalmente, também nos ressoa o resgatar da pele, da essência, daquilo que é único em nós e que tem de ser reencontrado e vestido.

Mas há um outro olhar nesta demanda de “recuperar a pele”, que me canta aos ossos, numa melodia profunda. A mulher foca não pode regressar a casa sem a pele. Não pode mergulhar nas águas e respirar debaixo delas, nadar até à sua família e à sua estória. Sem a pele, ela é “só” humana, ainda que não inteira, pois nesta humanidade há uma separação da natureza, do ritmo da lua sob o qual as peles se tiram para dançarmos, das águas onde mergulhar para regressar a casa.

Há um lugar que precisamos recuperar. Encontramo-lo no conto Allerleirauh, também chamada Mil Peles, ou Todas as Peles. No conto, uma princesa veste-se de peles de animais selvagens e nessa capa permanece até descobrir quem é. Nesse processo, passa muito tempo escondida, entre tarefas mundanas e simples, pouco glamorosas, nas quais a astúcia própria de quem se vai remembrando, vai tecendo os símbolos e os lugares que lhe pertencem. Sem recuperar a sua natureza instintiva, felina, o processo de individuação não está completo.

Recuperar a pele é voltar a ser bicho. Recordar a natureza animal. Encontrar um lugar no qual o cheiro, o instinto, a visão, estejam alertas. A pele é o nosso maior sistema de defesa e, paradoxalmente, é através dela que tocamos o mundo e o que nos rodeia. Recuperar a pele é recuperar a fisicalidade sagrada, onde o mistério e o divino habitam. Sem a separação do corpo, da matéria orgânica, do planeta.

Regressamos às águas quando recuperamos o bicho que somos, o instinto, a fisicalidade e a ligação a tudo o que late no planeta. Quando nos tornamos pertença aos lugares e quando começamos a remembrar estória.

As águas são as senhoras da memória, o berço do nascimento da vida, as veias e o sangue do planeta. Amamo-las porque nos recordam útero e carícia, pois permeiam a nossa pele em limpeza e conversas ancestrais. Tememo-las porque, como o inconsciente, não conhecemos as suas profundidades, os lugares das cavernas submersas, as sereias, as serpentes marinhas e os lugares de Mistério que somos.

Porém, algo se torna inegável. Por onde as águas correm a vida desponta. O alimento vem. Quem viaja, aproveita para descansar e matar a sua sede. Por vezes fica um pouco mais e nesse lugar, algo acontece.

A mitologia pessoal, o símbolo, são linguagens da alma. Mas a alma é o lugar que pertence. Ela não necessita transcender, pois a sua espiritualidade é o lugar onde está. E, por isso, viver o símbolo pode ser tão importante.

Talvez a nossa fisicalidade sagrada necessite de ritmos próprios. Talvez necessite de aguçar os instintos, treinando os sentidos como o animal que somos. Talvez possa encontrar um lugar onde as águas corram e se sente, respirando, e siga com o olhar um fluxo e uma canção mais antigos que a própria vida. Talvez se possa ir remembrando, enquanto se recorda quem é e recupera estória de uma forma não racional ou cognitiva. Pois a pele que nos pertence reconhece o fluxo da água e as canções antigas.

Recuperar a pele e regressar às águas. Encontrar os lugares antigos da alma nos lugares onde os nossos pés pisam. Reconhecê-los e acarinhá-los. Haverá canção mais bela e mais antiga?

Publicado no nº25 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT