Uma estória é como a água

Que aqueces para o teu banho.

Ela leva mensagens entre o fogo

e a tua pele. Ela deixa-os encontrar

E isso limpa-te!

Rumi

Quando eu era pequena, vivia numa casa muito antiga, comprada pelo meu bisavô. A casa era grande e a cozinha ampla fora construída de forma a abarcar o poço, aquela entidade que parecia ter vida própria, com uma abertura enigmática para lugares antigos. Lembro-me de me debruçar sobre ele, quando era destapado, num misto de curiosidade e temor, para observar o meu reflexo espelhado na escuridão das águas. Existe qualquer coisa de mágico e desconhecido em partilhar a casa onde se vive com um poço. Era uma sensação que transbordava para mim, quando entrava na cozinha. Ele estava ali e a sua presença fazia-se sentir.

Tínhamos água canalizada, mas havia uma certa responsabilidade nas vezes em que se abria a torneira. As águas do poço eram usadas, por isso, sempre que necessário. Para lavar vegetais, regar o jardim ou cozinhar.

Existiam outras regras. Depois da meia-noite, ninguém tirava água do poço. Um dia, perguntei ao meu pai porquê.

– Porque a água está a dormir. – respondeu-me. – Não se acorda a água. Mas, se um dia precisares mesmo, tens de a chamar primeiro pelo nome. Chama-a três vezes. Depois disso, poderás utilizá-la.

A sensação, já existente, de que o poço tinha vida, juntamente com o facto de a água dormir e ter um nome moldou a minha relação com a água. A forma como a utilizo, como a bebo, como a encaro e comunico com ela. A água está viva, não somente porque é feita de elementos químicos ou porque abarca seres vivos nela. Ela está viva porque dorme e tem um nome, porque se move pelo mistério e sou eu que tenho de aprender a vê-la e a aceitar que ela me vê. Ela merece o meu respeito, a minha atenção e o meu cuidado. Ela merece a minha reverência e a magia da reciprocidade.

No imaginário de uma criança, o mundo é um lugar pleno de vida, de encantamento e possibilidades. Aquilo com que nos relacionamos tem vida e comunica connosco, seja um pássaro a cantar, uma princesa numa torre antiga ou a água cujo nome temos de chamar. Acredito verdadeiramente que isto não acontece às crianças porque são crianças, mas porque o seu olhar ainda não foi quebrado pela ilusão de separação do mundo a que pertencem e, dessa forma, elas sabem e podem conectar-se com ele.

 Porém, as estórias, sejam pessoais ou coletivas, pertencentes ao folclore regional ou sob a forma de contos de fadas, parecem ter sido remetidas a lugares de infantilidade, fantasia e imaturidade. Esquecemo-las ou ignoramo-las, como uma tarefa própria do ato de crescer.

Adulteramo-nos na tentativa de ser adultos, abandonando as roupagens da alma e do sagrado, desalmando-nos do encantamento e da vida que late em cada um dos nossos passos. O vazio ganha espaço, enquanto os ritmos, as estações, as estrelas e a terra debaixo dos nossos pés se tornam objetos. A solidão emaranha-se num corte profundo que nos desconecta do mundo sagaz onde pertencemos.

Mas as estórias conduzem memória. São a grande linguagem da alma, o elo de ligação entre o passado, presente e futuro, a entrada para o Mistério e para a consciência subtil de que tudo o que nos rodeia vive e comunica. Elas são orgânicas e entrelaçam-nos na própria vida em si. Se nos ligam aos elementos, à natureza e aos seus habitantes, moldam a nossa intimidade com eles. Torna-se fácil amar e cuidar o que conhecemos.

Recuperar estórias é restaurar a ligação ao mundo. Adentrar na vida por inteiro. Fazer parte do corpo da terra, permitirmo-nos ser sonho para além de sonhador.

Onde estão as nossas estórias preferidas? Ainda as escutamos, lemos ou contamos, permitindo que nos vistam novamente desses lugares? Deixando que nos atravessem, transformem, emocionem e alimentem?

Para onde remetemos as estórias da infância, das avós e das velhas sábias que habitavam lugares isolados? Onde deixámos a memória dos pés descalços na areia, dos mergulhos nos riachos e das ligações profundas a flores e a pequenos animais? Onde estão as receitas antigas, os rezos, as mezinhas, as canções? Essas memórias repletas de cheiros, sensações e eternidade?

A nossa mitologia pessoal veste-se do que lhe damos, interna e externamente. O seu alimento tem a riqueza que permitirmos. Vivemo-la, com maior ou menor consciência, conhecendo os seus meandros ou nem por isso. Precisamos de substituir a fantasia de um mundo controlável e que nos serve, para o lugar da Imaginação – como o grande caldeirão da alma! – onde nos deixamos inundar pela vastidão da vida a que pertencemos. Precisamos de resgatar os lugares míticos dos nossos percursos, as estórias onde fomos criados, o direito pleno de fazer parte de um universo vivo.

Talvez, se o consentirmos, possamos sentar-nos um pouco com o Mistério. Escutar, falar-lhe ou permanecer num silêncio partilhado. Comover-nos com os malmequeres que desabrocharam, ou onde nasceu uma ninhada de coelhos. Encontrar as personagens que perdemos. Recordar que já morámos onde a água dormia, caminhamos junto a árvore abençoada ou por numa ribeira onde uma Moira Encantada pedia três tarefas.

Nesse lugar, podemos dar connosco junto a um poço, depois da meia-noite. E, numa necessidade de saciar a sede, talvez olhemos para a água, lá em baixo, com um misto de temor e reverência, e a chamemos baixinho:

– Maria… Maria…Maria…

Quem sabe, esse primeiro gole nos traga mais de sagrado do que sede saciada.

 

 

 

 

Publicado no nº27 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT