“Sai para o bosque, sai. Se não saíres para o bosque nada nunca te vai acontecer e a tua vida não vai começar.”

Clarissa Pinkola Estés

Ancestralmente, a Irmandade existia a cada passo. A força do círculo traçava-se desde o colo da mãe ao cuidar das mulheres da aldeia, à passagem de saberes das anciãs curandeiras, ao próprio estar ao serviço da Terra e dos seus ciclos de fertilidade e colheita. A mulher era ela própria testemunha e parte integrante desta grande roda da Vida, no seu corpo desenhavam-se os ciclos e na sua Alma guardava o sagrado dever de devolver à Mãe a abundância de que dispunha.

Quando penso nela, nesta ancestral de há tanto tempo atrás, gosto de a ver quieta, olhando o mar que se estende em frente, com o avental cheio de ervas e plantas e no olhar uma calma que vem de se saber quem se é e onde se pertence. Da conexão.

Hoje em dia este encontro é muitas vezes recordado nas linhas que entrelaçam um círculo de Mulheres. O caminho da floresta, com o seu cheiro húmido de terra, o canto da ave, as plantas e os seus dons faz-se (também) dentro, de encontro a um bosque interno onde habita essa Mulher-instinto, sábia e simples, de quem tantas vezes nos afastámos nos nossos afazeres de vida. Mas há um momento, sempre, que nos desperta e traz de volta. Que, como uma sede súbita que invade a garganta, nos exige que tracemos os passos de volta ao húmus, ao âmago, aos pés descalços pisando os ramos, às estórias e risos ao luar. Ao lar.  

O movimento de encontro à Mãe é um de redescoberta de quem somos e do nosso lugar no Mundo, um lugar mais consciente e inteiro. Um lugar onde encontramos esta mulher quieta, com o olhar de saber quem se é. Que respeita o seu tempo, o seu espaço, que tem ouvidos para escutar todas as suas vozes, da mais selvagem à mais tranquila. Uma mulher que dança com a mesma alegria com que faz amor, que que cozinha com o mesmo respeito com que cuida do seu mundo e do mundo para além da janela. Que sabe que tudo é sagrado e pertence ao ciclo da vida, desde o nascer do Sol gigante à mais pequena gota de orvalho. Que rega com minúcia este bosque interno, para não correr o risco de se perder de novo nos passos que a levam lá.

A jornada do Feminino acolhe e abraça. A (im)perfeição da vida, os sobressaltos, as lágrimas de outra irmã. No colo há espaço para embalar, no coração para escutar e partilhar. Até porque de estórias se fazem as vidas, e se encontra sempre, mesmo que na diferença, o som da nota comum que nos faz sentir que aquela também é, de alguma forma, a nossa estória.

A tal que começa quando saímos para o bosque.

 

Retiro Online de Círculos de Mulheres – A Mulher Arquetípica – 6 e 7 de Fevereiro de 2021

 http://escolatranspessoal.com/project/a-mulher-arquetipica/ 

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES