“O privilégio de uma vida inteira é ser-se quem se é.” 

Joseph Campbell


 

Se não houvesse batimento cardíaco, os altos e baixos que observamos no ecrã, estaríamos mesmo vivos?

Desta roda gigante de que são feitos os nossos dias guardamos com saudade a coleção dos momentos de alegria, prazer e puro êxtase, do desfrute mais intenso e inteiro de que temos memória, e evitamos a lembrança de outros tempos que deixaram dores, saudades irremediáveis ou feridas ainda por cobrir de água oxigenada e uma “curita”.

A vida é cíclica, mas por vezes esquecemo-nos disso, perdidos que estamos na intensidade de um qualquer momento (belo ou doloroso), vivendo-o como se fosse único, invencível, um Adamastor emocional.

A verdade é que a espiral dá muitas voltas, e elas vão-nos aproximando ou afastando, brincando, entrelinhas, ao que chamamos de Destino mais ou menos cocriado pelas nossas mãos, vontades, desejos e um brincar de Deus lá de cima, que por vezes nos parece teatro de marionetes.

Nos momentos em que o carrossel gigante nos coloca de pernas para o ar, em periclitante equilíbrio, tal como Innana, na sua famosa descida ao mundo do Não-Tempo, vamos despindo camadas mais ou menos acessórias que nos enfeitam e definem, caminhando em direção ao centro, à essência, quente e palpitante, húmida, vulnerável e com cheiro a terra. Às vezes tacteando, adivinhando o trilho.

No olho da tempestade, é difícil encontrar pontos de apoio e de razão. E quando parece que tudo é cansaço, ou dor, dúvida ou medo, saudade, que o corpo se arrasta e a vida está sempre um passo à frente e não conseguimos lá chegar então não há caminho senão abraçar também esse tempo de vazio, esse nada que é tanto também e que nos pede um olhar compassivo para nós, e para aqueles pequenos movimentos que nos soam minúsculos e ridículos mas são gigantes em esforço e vontade.

Nem sempre há luz, alegria, leveza, criatividade, conexão.

Mas há sempre, isso sim, uma mãe interna gigante e amorosa capaz de nos embalar no seio e sussurrar que está tudo bem, que mais não é preciso, por hora.

Às vezes, no nevoeiro misterioso que nos rodeia, não é intuitivo encontrar essa voz que aguarda quieta e doce por entre outras que rugem, rígidas, exigentes, “maravilhosamente” comparadoras de milímetros e conquistas.

A autocompaixão que o momento pede não é – de todo! – fraqueza, fragilidade ou desresponsabilização, é simplesmente (fosse simples assim!) aceitar os limites que o corpo traça por nós e mimar-nos o mais que pudermos, dos pés à cabeça.

É responsabilidade e compromisso, aquele que mantemos connosco mesmos – amar, proteger e honrar -, o mais íntimo, belo e difícil.

Até porque a roda gira uma vez mais, os gonzos rangendo, e depressa estaremos de novo no mundo, o peito cheio de fogo e os olhos chispando energia e desejo.

Mas isso é amanhã ou depois.

Por hoje, há sempre tempo para mais um abraço, daqueles de urso, ao que Há.

 

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA MINDFULNESS EM CONTEXTO EDUCATIVO E FACILITADORA CIRCULOS MULHERES – EDT