“A vida de uma pessoa não é o que aconteceu, mas o que ela recorda e como recorda.” 

Gabriel García Marquez


 

A vida de cada um de nós está repleta de memórias, estórias para contar, algumas felizes, outras profundamente dolorosas. A felicidade, a forma como lidamos com o que surge a cada esquina depende do peso que damos a cada uma dessas estórias e à forma como nos vemos nesse enredo.

Como contaríamos a nossa estória, se tal nos fosse pedido? Alguns escreveriam livros, colocando-se no centro da ação, verdadeiros heróis cheios de garra. Outros, escreveriam um ou dois parágrafos sintéticos. Outros, ainda, escreveriam uma crónica de fazer chorar as pedras da calçada, onde a dor, a maldade e a sensação de esmagamento estavam sempre presentes. Interessante seria pensar que a primeira situação e a última teriam vivências muito semelhantes, perdas, problemas a resolver, acontecimentos dolorosos. Não existem heróis ou vítimas se não existirem situações que os construam. Apenas a narrativa seria diferente. Alguns ver-se-iam como heróis. E outros como vítimas.

Não é difícil perceber que a “verdade” varia em função de cada um e do valor que damos às situações. Numa discussão, cada pessoa contará a sua verdade e, dentro daquilo que é o seu cenário interno, terá a razão do seu lado. E, se surgir um observador, aparentemente neutro, provavelmente verá a razão e a verdade no que estiver mais de acordo com os seus próprios valores internos. Em última instância, não somos maus ou bons. Temos diferentes valores e diferentes verdades. E somos mais ou menos felizes de acordo com a estória que criamos dentro, que habita os nossos pensamentos e anseios e, sobretudo, que contamos aos outros e a nós mesmos.

Somos infelizes devido às mentiras que contamos a nós próprios.

Hoje em dia sabemos que a nossa atenção, assim como a memória, tem “filtros” para o que recebe como vivência ou experiência. Esses “filtros” são criados a partir de experiências da infância, do que nos ensinaram em crianças e das crenças que possuímos sobre nós e o mundo. Cada experiência que vivemos não é recebida como nova, ela é “encaixada” naquilo que já acreditamos conhecer sobre a vida. Quando eu acredito que o mundo não é de confiança, vou encontrar mais “factos” que me mostrem isso. E vou recordar com maior facilidade todas as pessoas desonestas que conheci, as vezes em que fui enganada e também aquelas em que “quase” fui enganada. Esta última classe, na maioria das vezes, aconteceu somente na estória interna que vivi. Qualquer pessoa menos simpática ou cujo comportamento se enquadre no que acredito ser alguém desonesto vai entrar para as personagens desonestas da minha estória.

“Afastei-me dele porque era desonesto.” E tenho mais uma narrativa moldada pela minha realidade interna, ainda que nada tenha efetivamente acontecido. Conto a minha estória em função daquilo que acredito ser a vida.

Grande parte das pessoas que procura ajuda terapêutica chega enredada numa estória pessoal, onde não há diferença entre ela e os problemas que vive. As suas vivências foram moldadas pelas crenças e, ao ser relatadas, transformam-se nas narrativas que deram forma à sua vida e relações.

É preciso tempo para que a pessoa comece a ver o problema como algo diferente de si própria. Para que encontre qualidades e recursos que não se tinha dado conta que possuía. Para que aprenda a estabelecer uma relação saudável com o problema. E, se tudo correr como o esperado, para que mude a narrativa e encontre um significado diferente na sua vivência.

As terapias narrativas surgiram no anos 80, no âmbito das terapias sistémicas, e dizem-nos precisamente isso. Que as pessoas contam as suas estórias em função das suas crenças, cultura, circunstâncias e do problema que as envolve. Que a pessoa não é o problema. O problema é o problema e quando nos aprendemos a conhecer como alguém distinto desse mesmo problema, com recursos distintos, e que já superou outras questões anteriormente, recontamos a nossa estória e estamos prontos para andar para a frente.

Hoje em dia, cada vez mais desenvolvida no âmbito da psicologia, alguns fundamentos da terapia narrativa são também utilizados na terapia transpessoal.
“Sempre me disseram que eu era a inteligente da família e a minha irmã era a bonita.” Quando alguém cresce com uma narrativa destas, o mais provável é que molde as suas memórias e vivências para as notas que teve na escola, a forma como se formou num curso superior, os livros que leu ou o sucesso profissional que venha a ter. A narrativa interna transforma-se na sua verdade, porque nunca valorizou a roupa, a aparência exterior, festas ou o seu corpo. Ela e a sua “falta de beleza” são a mesma coisa.

O terapeuta teria como função, através de perguntas e propostas, ajudá-la a encontrar a “estória alternativa”. Quem lhe disse que ela era bonita? Em que situações escolheu não se vestir melhor, não se pintar, não cuidar do seu corpo? Quantas vezes a sua irmã vai ao ginásio ou ao cabeleireiro? Se não o fizesse como seria a sua beleza?
Ou podíamos ir mais longe. Com que personagem das estórias infantis a nossa paciente se identificava? Que estória é parecida com a sua? Qual o final desta estória, qual a moral da mesma?
Imaginemos o patinho feio…. Que não era feio, somente se comparava com algo que não era! O que é tornar-se um cisne?
Podíamos pedir-lhe também que nos contasse a sua estória, em versão de contos de fadas. Como se veria, nesta versão? A princesa, uma fada, uma guerreira? E o problema, essa falta de beleza, que personagem seria?
Quais os recursos de uma guerreira, de uma princesa? Quais os seus dons? Como pode vencer a personagem que representa o problema? Com base nisso, como recontaria ela o seu passado?

Quando damos significado ao que vivemos estamos a curar as feridas. Encontrarmos a nossa “moral da estória” ajuda-nos a seguir em frente com mais auto-estima, mais consciência, mais recursos.
Como poderemos nós recontar a nossa estória, olharmo-nos no dia-a-dia como pessoas válidas, merecedoras, que vivem ao seu melhor e no seu melhor?
Olhe para as suas circunstâncias, os “factos” da sua vida. Como poderia narrá-los de forma a viver essa vida mítica digna de um romance?
“Terminei a relação porque era insuportável e o casamento foi um fracasso.” Ou “Terminei a relação porque merecíamos viver com mais felicidade e dessa forma honrámos tudo aquilo que vivemos, sabendo quando colocar o ponto final.”
Num mesmo facto temos duas narrativas. Uma diminui-nos e torna a nossa vida destrutiva. Outra dignifica-nos e coloca-nos ao melhor das nossas circunstâncias e recursos. Qual escolheria para ser a sua?
Pode também contar a sua estória como se fosse um conto de fadas e reconhecer a personagem “mágica” dentro de si, assim como os dons dessa personagem e a forma como os aplica à sua vida. Durante muito tempo, perante uma situação desafiante, questionava-me silenciosamente “O que faria a melhor versão de ti mesma?” e isso ajudava-me a recuperar valor e honrar a minha vida e as minhas vivências.
A nossa vida é o que dela fazemos, juntamente com essa parte de mistério que nos conduz e nos coloca bênçãos e desafios. E os nossos 50% passam por dar aquilo que temos para dar, aprender a olhar-nos com dignidade, aproveitar cada instante e – definitivamente – ser felizes.
A felicidade passa, também, por olhar para trás e sorrir perante os sonhos cumpridos e os que foram postos de lado, os desafios e as celebrações, os dias de sol e as tempestades e a sensação de tudo vivido ao melhor do que sabíamos, com consciência do que escolhíamos e a responsabilidade de agarrar nas coisas com todos os recursos que nos foram dados.
Ainda vamos a tempo. De olhar o passado e ver os ”pormenores escondidos”. Os momentos em que fomos fortes. As vezes em que seguimos em frente. Quando a vida nos emocionou. Ainda vamos a tempo de ver a princesa, o rei, a guerreira, o aventureiro. Ainda vamos a tempo de dar um final feliz a cada capítulo da nossa narrativa.

 

 

ÉLIA GONÇALVES
DIRETORA CRIATIVA E DE PROJETOS DA EDT