Estes últimos meses, estranhos e caóticos, têm-me trazido inúmeras reflexões, entre emoções diversas, vividas com maior ou menor intensidade.
Dou por mim a ansiar pela sensação de familiaridade, que parece estar ausente do quotidiano, aquela sensação de proteção, de casa, de conforto. Pequenas coisas do quotidiano me levam a recordações antigas, em particular da infância, e desse mesmo sentimento de aconchego, que parece faltar hoje em dia.

Creio que este é um movimento interno natural nos seres humanos, quando confrontados com crises e mudanças. E, contudo, a minha reflexão levou-me também para a conexão (ou falta dela) que sinto ser uma necessidade primordial de qualquer ser vivo. Afinal, todos precisamos de nos sentir conectados para vivermos saudavelmente.

Uma planta, conecta-se ao sítio onde vive, pelas suas raízes, na terra, pelas suas folhas, absorvendo o sol, crescendo no ar. Um animal, conecta-se ao seu habitat, através daquilo que lhe serve de alimento, e do que lhe serve de abrigo, ambas necessidades que só quando satisfeitas lhe permitem, não só sobreviver, como prosperar. E nós, seres humanos? A que nos conectamos?

Aos nossos olhos urbanos e civilizados, a conexão pode ser associada ao que é virtual, aparecendo como algo desenraizado e um pouco volátil. No entanto, a primeira e vital conexão que estabelecemos, é à matéria, como qualquer outro ser vivo. A nossa existência mecanizada, industrializada e tecnológica parece ter-nos removido dos elementos básicos de vida; no entanto, é deles que somos feitos.

Cada vez mais me parece que a raiz dos nossos dilemas existenciais – desde os individuais aos coletivos – passa por nos termos amputado da Natureza, olhando-a como algo externo e longínquo, não a reconhecendo nem acolhendo, seja em nós, seja exteriormente. Perdemos a conexão: à matéria viva, ao corpo, à terra. Perdemos a raiz. Somos capazes de elaborar bonitas frases, raciocínios lógicos e científicos, mas ficamo-nos pela mente… o nosso coração e o nosso corpo não parecem sentir, fisicamente, essa verdade.

Contudo, sem conexão, a nossa vida parecer-nos-á, sempre sem substância. Sem conexão não seremos capazes de encontrar as soluções para os nossos problemas, nem seremos capazes de atravessar os desafios naturais da existência. Viveremos insatisfeitos, sempre em busca da experiência de estar vivo. Não seremos capazes de encontrar significado nem propósito para o nosso caminho, nem de integrar as experiências, transformando-as em sabedoria pessoal.

Precisamos de nos conectarmos a nós mesmos, ao nosso corpo, às nossas emoções, aos nossos instintos. Precisamos de nos conectarmos aos lugares que habitamos, à Terra que nos sustém, à Natureza de que somos parte. Precisamos de aprender a amar a matéria de que somos feitos, a honrá-la e a ocupar o nosso lugar nela, com humildade. E precisamos de nos conectar aos outros, à comunidade a que pertencemos, humana e não-humana. Precisamos de enraizar. Para crescer, sem medo de sentir, sem medo de viver.

 

PATRÍCIA ROSA-MENDES
TUTORA DE MEDITAÇÃO, TERAPIA E CÍRCULOS DE MULHERES