“Ninguém de entre nós é imortal, mas uma estória, sim.”

Clarissa Pinkola-Éstes


 

Usando apenas 10 palavras, descreve-te a ti mesma.

Sou uma buscadora apaixonada pela vida, pela natureza, pela humanidade.

Conta-nos um sonho de criança e de que forma se cumpriu.

Em criança tinha muitos sonhos, entre eles ter uma família grande e feliz, ter uma vida simples e gratificante, escrever livros, ser veterinária… E, na verdade, tenho cumprido muitos deles, os mais importantes. Contudo, há um que sinto estar muito ligado a esta pergunta e, na verdade, já o tenho contado muitas vezes, à equipa e aos alunos: quando era pequena, adorava as séries de ficção científica que davam frequentemente – e a aventura de viajar e conhecer outros mundos, outros seres, com outras culturas e sabedorias era tão apelativa que desejava ser astronauta. No entanto, o meu lado mais pragmático dizia-me que tal não seria possível porque eu não era boa aluna a matemática, e um astronauta tinha de ser também um cientista e saber muita matemática. A minha imaginação de criança, porém, arranjou logo uma alternativa. Visto que eu era boa a línguas, eu podia ser a intérprete dos extraterrestres!!! Anos e anos mais tarde, num encontro de práticas, dei-me conta de que afinal, eu tinha cumprido o sonho de ser astronauta: não no espaço, por entre as galáxias, mas sim nos universos de cada um. E esse, foi um momento inesquecível!

A que dons e vocações costumas ser associada?

Aquilo a que normalmente me costumam associar, quer aqueles que fazem parte do meu mundo profissional, quer aqueles que me conhecem de forma mais privada, é à capacidade de organização e à calma. Faço esta distinção porque aqueles que lidam comigo em família ou em amizades de longa data, nem sempre conhecem ou compreendem o meu trabalho e a minha vocação, e é natural que assim seja. Contudo, para quem priva comigo na área profissional, há uma outra característica que surge muito, que é o dom de contar estórias. Durante muito tempo, porém, era-me difícil considerar qualquer um deles como dom. Hoje já os vejo assim, e dou-me conta de como são importantes e transversais a tudo o que realizo na minha vida.

Que frase deixarias como legado?

Esta é difícil…!!! Para mim, o legado está conectado com a demanda, aquilo que é a nossa busca ao longo da vida. Recentemente dei-me conta de que a minha demanda sempre foi o amor: procurar ser amada, buscar o amor, amar-me… De alguma forma sabia que esse amor trazia também compreensão e gerava a experiência da unidade, do divino. O que descobri é que esse amor maior, esse divino, que sempre procurei fora, existe dentro: dentro de cada olhar, de cada coração, de cada ser humano. Assim, sendo, a frase que deixaria como legado poderia ser: “A experiência do Divino ou a experiência do Amor, está acessível a cada um de nós através da simplicidade do ser.”

O que dirias ao Amor?

Ao Amor diria que estou aqui, que me entrego e que me rendo. E que sei que isso implica tanta coisa, tanta coisa que desconheço, tanta coisa que me magoa, tanta coisa que sana… Mas estou aqui, tão cínica quanto inocente, tão mentirosa quanto verdadeira, com tanto medo quanto coragem.

Um poema.

Só um? Tantos, tão importantes, tão arrebatadores… Hoje, agora, há um que tem estado mais presente em mim e é de Natália Correia: Credo

Creio nos anjos que andam pelo mundo,

creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amém

A compaixão passa por…

Acolher. Acolher o que há, da forma que se pode.

A perfeição é algo que…

Mata. É como uma droga, que nos convence de que há um tesouro fantástico que resolverá todos os nossos problemas se a conseguirmos pôr em prática, mas que aos poucos nos corrói, até que nos petrifica por completo.

Que aprendizagem trouxeste da tua família, pela qual estás grata?

Uma das aprendizagens que trouxe de casa, e que me faz sentir grata, foi a capacidade de olhar para o mundo que me rodeia e de saber que aquilo que acontece de trágico aos outros, também me pode acontecer a mim, pois a vida pode modificar-se num segundo. Isso ensinou-me não só a não dar por garantido nada, como a ser grata pelo que tenho.

Que estória mais te impactou?

Oh, deuses, estórias então…!!! Como quem me conhece sabe, eu amo estórias, e as estórias causam-me sempre grande impacto, embora em certas fases da vida algumas estejam mais presentes do que outras. E curiosamente, há sempre qualquer coisa que me aproxima de estórias com cenas algo macabras…!!  Há uma estória medieval de origem celta, que fala de uma princesa que enlouquece de dor, e se torna selvagem. Ao lê-la, senti-me profundamente tocada, para lá da lógica e da razão, ao nível do corpo: A Loucura de Mis, é o seu nome.

O que necessitavas de ouvir hoje?

Hoje necessitava de ouvir que aquilo que faço, faz diferença; que tem impacto no prato da balança que pesa o Amor. Eu sei que faz. Mas precisava de ouvir.

A minha forma preferida de passar o tempo é…

A ler estórias! E em conversas filosóficas intermináveis sobre a vida, sobre a morte, sobre o amor, as estórias, os mitos, a consciência, o ser humano…! Com uma boa música de pano de fundo, e as pessoas que fazem parte da minha alma, num belo cenário natural…. isso é paraíso!

 
 

 

 

 

ENTREVISTA A PATRICIA ROSA-MENDES
TUTORA/FORMADORA ÁREAS TERAPIA, MEDITAÇÃO e CIRCULOS DE MULHERES