Muitas das nossas crises pessoais são situações de dissonância interna, de não sabermos como viver vidas significativas e plenas, em face a todos os desafios que o mundo nos traz. Encontrar a harmonia – ou a consonância – é um impulso de todos os seres humanos, que pode ser cultivado.
​Por Patrícia Rosa-Mendes

in REVISTA PROGREDIR | OUTUBRO 2018


 

Numa orquestra ou grupo musical, é da maior importância que todos os instrumentos estejam afinados. Afinar um instrumento é, afinal, colocá-lo em consonância com uma referência vibratória, um diapasão. Esta operação é algo de natural no quotidiano de um músico. Na verdade, em muitas das nossas atividades humanas, a consonância – sinónimo de acordo, conformidade, entendimento, harmonia – é imprescindível. O próprio corpo humano procura, constantemente, enquanto organismo vivo, uma harmonia no funcionamento de todos os seus sistemas, funções e composições químicas, chamada de homeostase.

Se juntarmos a este conhecimento comum as descobertas da Física Quântica no final do século XX, sobre a frequência e vibração de todas as partículas que constituem a matéria, facilmente compreendemos que a consonância, por oposição à dissonância, é parte das leis naturais do Universo.

 A espiritualidade é o campo de vivência humana que nos remete para aquilo que há em nós para além da pessoa que somos e das circunstâncias em que vivemos, aquilo que em nós pertence à Vida. O conceito de espírito remete precisamente para aquilo que todos os seres humanos têm em comum, pois embora membros distintos de um Cosmos, cada um de nós partilha a mesma essência de Vida. Esta vivência e conceito acompanha os seres humanos desde que começaram a refletir sobre as grandes questões filosóficas, sendo que as diferentes reflexões que daí surgiram acabaram por originar as grandes religiões, ou seja, as diferentes formas de re-ligar o ser humano ao transcendente.

 

Mas, afinal, o que tem tudo isto a ver com a consonância?
A verdade é que a maior parte de nós já se colocou as grandes questões: qual o significado da Vida? Estou aqui porquê e para quê? De onde vim e para onde vou? Há algo mais para além da rotina diária, do sofrimento inerente à condição humana? Provavelmente, a maior parte dos leitores desta revista escolheram uma qualquer via de espiritualidade, pois a necessidade humana de encontrar sentido e propósito é inata e tão importante como qualquer outra. Pode ser que encontrem a paz interna através da meditação, pode ser que encontrem respostas numa religião ou estudem os segredos do universo, através do esoterismo. A maior parte das vias espirituais remete-nos para um caminho ascendente, caminho de conhecimento mental, em direção ao que é luminoso, pacífico, total, e esse é o impulso do espírito.

Contudo, existe um outro caminho, uma outra dimensão do ser humano, que é a dimensão da alma, daquilo que é característico e específico de cada um de nós, não partilhado em particular por mais ninguém. Algo em nós que tem que ver com as nossas capacidades, talentos, valores e conhecimentos, algo que anseia pela partilha com o Outro, que louva os sentidos, as sensações, o prazer, a beleza, a arte, enfim, um caminho que ressoa ao coração.

Ambos precisam de estar presentes nas nossas vidas para que haja consonância, dado que preferir uma via em detrimento da outra pode ser apelativo, mas é, em última análise, incompleto, dissonante, que nos leva a não reconhecer uma parte de nós. Como pode haver consonância se não há totalidade? Pode um piano vibrar em harmonia se eu lhe retiro os sons responsáveis pelos acordes menores, mais melancólicos?

As grandes questões filosóficas da vida não têm respostas finais, concretas ou tabeladas, porque a Vida, em si mesma, é Mistério. Seja qual for a via que possamos ter escolhido, seja qual for o significado que tenhamos atribuído à nossa vida, a necessidade de nos sentirmos completos estará sempre lá, a vibrar em nós, levando-nos numa constante busca por alcançar realização atrás de realização, enquanto vivermos. Para não entrar em dissonância, é importante que cada um de nós alimente uma harmonia entre mente/espírito e coração/alma, cultivando as qualidades de um e de outro. Por exemplo, manter uma prática meditativa é vital para nos fazer viver em equilíbrio num mundo tão impermanente e instável; mas também o é aprender a comunicar os nossos sentimentos e emoções e aprofundar o auto-conhecimento de forma terapêutica. Trabalhar com uma atitude cooperativa, em prol de algo, juntando visão ao pragmatismo do trabalho é tão importante para o ser que somos como aprender a desfrutar, a celebrar e trazer leveza ao quotidiano.

O contacto com a Natureza mostra ser imprescindível para qualquer um de nós, tal como o cultivo do olhar artístico, e da expressão do nosso mundo interno através de uma qualquer forma de arte.

Seja qual for a via que nos toca, não nos esqueçamos de estar em contacto connosco próprios, indagar se nos sentimos nutridos e completos, pois esse será um excelente indicador de consonância. A dissonância instala-se quando não somos coerentes connosco, quando não conhecemos ou não distinguimos as nossas necessidades e embarcamos na rigidez de valores externos, valores que intrinsecamente sabemos não serem os nossos. Não é um caminho fácil nem rápido, o de nos encontrarmos connosco mesmos e de nos recuperarmos, inteiros: é caminho de uma vida. Mas sem isso, não encontraremos realização no mundo exterior, não desfrutaremos do dar e do receber dos relacionamentos nem caminharemos pela vida com alguma sensação de conforto. Porque no nosso mundo interno também isso está dissonante.

 

PATRICIA ROSA-MENDES
TERAPEUTA TRANSPESSOAL – ESCOLA DE DESENVOLVIMENTO TRANSPESSOAL