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Entrevista à aluna da formação de “Instrutor de Meditação Transpessoal” – Catarina Santos – pela tutora Patricia Rosa-Mendes

1. Quando te inscreveste na formação de Instrutor de Meditação o que é que na altura procuravas?
Eu às vezes penso nisso e creio que na altura não sabia muito bem o que procurava. Hoje em dia, olhando para trás – faz já 5 anos que frequentei o curso – e tendo em conta o caminho já percorrido e o novo nível de consciência, eu consigo perceber que andava à procura de mim mesma, de um sentido para a minha vida, que me dissesse quem sou e o que ando aqui a fazer. Na altura sentia-me um bocadinho perdida e acabei por seguir um movimento, um apelo interno.
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2. E sentes que conseguiste encontrar esse sentido?
Sim. Com todo este caminho percorrido, que não foi fácil, foi muito “às cambalhotas”, com alguns “trambolhões” e algumas lágrimas, cheguei a um ponto onde me sinto bem comigo. Para mim a meditação significou e significa isso mesmo, um encontro comigo mesma, um descobrir, todos os dias, um bocadinho mais de mim e cada vez com mais leveza. Neste momento tenho uma capacidade diferente para lidar com o meu “entulho” interno, observando-o quando surge, e abrindo espaço para decidir com outra consciência. Isto era algo que eu não tinha na altura e que me faz agradecer a cada uma das “Catarinas”, aquelas em que me fui transformando, desconstruindo e construindo a cada dia, por hoje ter a capacidade de me sentir bem na minha própria pele.
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3. Foi muito bonito o que disseste e além disso cheio de sincronia porque ia precisamente perguntar-te o que era para ti a meditação. De qualquer forma, na altura em que entraste na formação, ainda que não soubesses bem aquilo de que estavas à procura, como é que tu vias a meditação?
Eu na altura não sabia muito bem o que era a meditação apesar de a ter sentido “chamar por mim”. Eu pesquisava em várias fontes, na internet, nos vídeos, nos livros, mas não tinha uma noção clara do que era e do impacto que tinha.
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4. E que desafios é que foste encontrando na tua prática meditativa?
Logo ao início, e esse foi o maior desafio deles todos, foi o lidar com as emoções. Eu sentava-me para fazer meditação formal e acabava por chorar, era quase automático. E dava por mim a pensar “O que é isto? Onde é que está a paz interior, a tranquilidade, o relaxamento? Não é nada disto que eu leio nos livros”. Lembro-me de ter partilhado isso contigo em tutoria e de me teres dito que quando meditamos tudo aquilo que lá está começa a surgir. Depois vem a tal capacidade para lidarmos com isso que surge. E simplesmente observar e reconhecer já é muito.
Esse é o obstáculo que mais partilho com os outros pois há a ideia de que ao praticarmos a meditação vamos atingir um estado de enorme serenidade e isso, principalmente no início, não é necessariamente verdade.
O outro obstáculo teve a ver com aquele mito da meditação que é o de “esvaziar a mente” e o não pensar. E isso quase se tornava anedótico porque quando estava mais serena pensava “será que já esvaziei a mente?”, e só isso, já era um pensamento. O tal espaço vazio é às vezes um segundo, um hiato muito curto.
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5. No fundo, tu foste atravessando esses desafios com a própria prática?

Sim, exatamente. E falando também com pessoas que tinham mais experiência do que eu e me podiam dar força e a sensação de que era “normal” as coisas que sucediam e que também elas já tinham passado e ainda continuavam a passar por isso. Mas mesmo com esses obstáculos no caminho, uma coisa que nunca me aconteceu foi pensar em desistir… eu sentia que era para continuar a persistir mesmo naquele “lamaçal”.
Ainda que a prática seja um pouco solitária, porque é um encontro connosco mesmos, de nós para nós, o facto de partilhar e de ter estas trocas com outras pessoas que tinham o mesmo propósito, também me ajudaram a percorrer este caminho.

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6. Hoje, como é que tu te vês enquanto facilitadora de processos de meditação?
A meditação já é uma prática integrada no meu dia-a-dia, é como lavar os dentes ou tomar banho, é natural, uma limpeza interna. Portanto, não é só uma prática formal, mas também informal, uma atitude mindfulness aplicada ao dia-a-dia.
Como facilitadora aquilo que tento é dar a mão ao outro e, de acordo com a minha experiência, apoiá-lo nesta prática.

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7. E uma última pergunta…qual é que achas que é o papel da meditação no mundo atual?
Eu quando comecei a ter estes conhecimentos da meditação só pensei “porque é que não me ensinaram isto mais cedo?”. É claro que cada um tem o seu processo e tem coisas pelas quais tem de passar, mas acho que esta prática torna tudo mais fácil em situações adversas. Mais fácil não num sentido de retirar a dor, mas nessa possibilidade de distanciamento e observação daquilo que os eventos nos querem dizer, o sentido.
As pessoas estão cada vez mais abertas, mais despertas, procuram saber e experimentar, e cada uma tem o seu tempo/momento. Eu criei agora um projeto, muito recentemente, que se chama “crescer mindful” e que será, numa primeira instância, direcionado para as crianças, para que tenham acesso a essas ferramentas. O que depois farão com elas já tem a ver com o processo de cada uma. Numa segunda instância, este projeto será também direcionado ao trabalho com os educadores.
Há dias lembrava-me que na altura do meu secundário havia a disciplina de “religião e moral”, que era opcional. Talvez daqui a uns anos, não muito longínquos, exista a disciplina de “meditação” nas escolas, também opcional. Acho que isso iria fazer muita diferença no mundo. No fundo, há que fazer o trabalho de mudança, mas de dentro para fora.

 

PATRICIA ROSA-MENDES
TUTORA MEDITAÇÃO – ESCOLA DE DESENVOLVIMENTO TRANSPESSOAL