Afrodite, torcendo as sobrancelhas com uma gargalhada, disse:

«(…) olha bem para aquele monte, onde estão aqueles penhascos muito altos. De lá sai uma fonte muito negra; desce por aquele vale, onde faz curvas negras e turvas; e dali saem alguns riachos infernais. Dali de cima daquela fonte, traz-me esta taça cheia de água.»

(…) Psique, viu uma grandiosa dificuldade para chegar, porque o penhasco parecia que chegava ao céu, tão liso, que não havia quem por ele pudesse subir.  Para além disso, guardavam-na dois dragões atentos e espantados, sempre alerta. (…) Quando ela tentou subir, as mesmas águas falaram-lhe:

«Psique, afasta-te daí. Não tentes aproximar-te, ou morrerás.»

Mas a águia real de Zeus apareceu de asas abertas e disse:

«Não sabias que estas águas do Estige são proibidas aos deuses e até à Zeus? Dá-me essa taça.»

 A águia voou e encheu a taça, trazendo-a a Psique, que a levou a Afrodite.

Nesta terceira tarefa de Psique, na sua demanda para conseguir o apoio de Afrodite e, desta forma, alcançar o perdão de Eros, é-lhe pedida uma tarefa “impossível”. Encher uma taça de cristal da fonte de águas que alimenta o Estige e o Cócito, que brota do cimo de um penhasco. O Estige e o Cócito são rios associado ao submundo e o Estige desce de uma montanha imensa, desaparece em direção ao reino de Hades e regressa ao cimo da montanha. É um curso de água circular, que toca a luz e a escuridão, o dia e a noite, o sagrado e o mistério. Ele flui de cima para baixo e de baixo para cima. Uma fonte circular urobórica, já simbolizada nos dragões que a guardam. Une a escuridão e a profundeza inconsciente e misteriosa do mundo inferior ao elevado e inacessível cimo da montanha, o mundo superior. É um dos cinco rios que atravessam o submundo e a característica deste é a invulnerabilidade. Foi neste mesmo rio que Tétis mergulhou Aquiles para o tornar invulnerável. O Cócito é o rio das lamentações. Apesar de não se falar nas propriedades destas águas no mito – até porque o pedido é que se vá à fonte das mesmas – fica a curiosidade do perigo de nos podermos afundar na invulnerabilidade ou na lamentação.

Psique tem, desta forma, a tarefa de subir uma montanha impossível, guardada por dragões ancestrais e encher a taça de uma fonte na qual, o mais provável será afogar-se e morrer. De alguma forma soa-me a “comum” e conhecido na vida que adotamos, como se parecesse o esperado de se fazer. Tarefas impossíveis e abissais, por entre a dança da lamentação e da invulnerabilidade que nos esgotam e mutilam. Sem abrir espaço para saborear o que há a cada instante, um doce-amargo com ramificações que enlaçam, sem que necessitemos de nos agarrar somente a um dos lados.

Como as outras anteriores – separar as sementes e apanhar a lã dos tosões – esta soa a uma tarefa de desespero, no qual o mais provável é a morte. E, da mesma forma, é a subtileza e a mudança de perceção que a salvam.

A vastidão das águas, o dia e a noite, o visível e o invisível, a vida e a morte, o sagrado e o profano são mais do que conceitos, eles surgem-nos como a própria vida, experiências intensas que nos habitam e envolvem. As propostas surgem-nos sem ser apresentadas, o surgimento da menarca, uma ferida antiga que vem à superfície, uma paixão intensa, uma descida ao nosso próprio submundo. Como tudo o que vem das profundezas, da fonte de vida, e rompe num momento específico, não pode ser contido, não depende da nossa vontade e é avassalador. Se existem elementos visíveis e palpáveis dessas experiências, outros são inconscientes, profundos e, como as águas circulares, falam-nos de morte e renascimento internos.

Como se lida com a vastidão das águas? Como se abraça a imensidão das experiências?

Como se bebe a vida?

É o segundo elemento mítico que nos surge como um sussurro de perceção. A taça de cristal.  A taça, contentora de água da vida. Recetora, feminina, cristalina e preciosa, a capacidade de receber o fluxo selvagem em pequenas porções e dar-lhe forma.

Numa civilização que nos impele a obter o máximo possível de experiências, no mínimo tempo possível, com o máximo de controlo sobre as mesmas, vivemos assoberbados com a insuficiência e a ambição assola-nos em diversas formas. Sucesso infindável, posses materiais, processo pessoal interminável.

Tanto queremos chegar à montanha inacessível, que nos esquecemos da taça. E, sobretudo, da águia.

A águia é sagrada para a maior parte das tradições ancestrais. Ela é a visão, o distanciamento necessário e a possibilidade de olhar a vastidão da vida sem me afundar nela. Considerada um psicopompo (mensageiro, elemento que viaja por entre os mundos, podendo unir o mundo visível e o invisível, o sagrado e o profano), eleva-se acima do terreno para contemplar o padrão geral. Ela permite-nos ampliar a perspetiva para a ausência de soluções de uma visão limitada pela própria magnitude da experiência.

Independentemente do ruído, da vastidão das águas da vida, da necessidade de posse que vem de um controlo mutilador, o que necessitamos mesmo, a cada instante? O que nos toca viver? Qual é a porção necessária?

Como se bebe a vida?

A montanha inatingível pertence ao próprio mistério, com o seu fluxo de vida e morte. Saborear a imensidão da vida é saborear uma porção dela, conhecer o que nos toca, a parte que nos cabe, os lugares que ocupamos e onde pertencemos. Olhar para além dos lugares comuns, desconstruir conceitos e treinar a visão ampliada dos padrões gerais do mundo. Não tirar para além do necessário. Encontrar a minha taça e enchê-la quando é preciso. Saborear a vida.

Como se bebe a vida? Um trago de cada vez.

Publicado no nº26 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT