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Entrevista à aluna da formação de “Consultoria em Mindfulness  – Maria Lencastre – pela tutora Mónica Ferreira

1. Quem era a Maria antes e quem é a Maria depois desta relação com o Mindfulness… depois da formação de consultoria em Mindfulness?
O que é que te trouxe esta prática?
Acho que não sei quem era a Maria antes e acho que ainda não sei quem é hoje.
Mas sem dúvida que o Mindfulness ajudou e ajuda a este caminho de descoberta, de descoberta pessoal e de aprendizagem, de consciência, de crescimento… …crescimento no sentido de evolução, não necessariamente de aperfeiçoamento, de melhoria…
“Aí”, o Mindfulness tem desempenhado um papel muito importante.
Em primeiro lugar pela prática, pela experiência; outra perspetiva, outra linguagem para trabalhar o desenvolvimento pessoal, ou pelo menos uma linguagem diferente daquela que eu estava habituada – foi o Mindfulness que me trouxe o meu primeiro contacto com algum tipo de meditação, por assim dizer – um amor à primeira vista, nesse sentido – e ao mesmo tempo uma total identificação com aquilo que são os princípios ou os valores do Mindfulness.
E nesse sentido um Norte, um rumo, mas sobretudo uma ética, uma perspectiva que permite em alturas menos conscientes ou menos atentas relembrar “ok, o que é que eu quero… quem é que eu sou, onde é que eu estou ou para onde é que eu vou…” …uma bússola.
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2. Quando estavas a terminar a formação de Consultoria em Mindfulness, criaste um projecto de acompanhamento de jovens através do Mindfulness, em ambiente escolar, projecto esse que implementaste – com um primeiro grupo de jovens, durante 8 semanas, e com um segundo grupo, durante 12 semanas.
O que é que sentiste que esta experiência te trouxe a ti e a esses jovens? E o que é que sentiste que o Mindfulness podia dar a estes adolescentes, o que é que eles podiam necessitar, em que é que o Mindfulness podia fazer a diferença na vida destes jovens?
Na prática, estes adolescentes em particular com quem eu trabalhei, não tinham contacto nenhum com qualquer tipo de aprendizagem menos formal – nunca se tinham sentado em círculo numa sala, coisas tão simples como esta. Portanto, houve aqui um fator de novidade tremendo, e essa experiência da novidade foi vivida por eles de forma muito entusiástica.
Eles confidenciavam que em determinada circunstância tinham parado e tinham feito “aquela coisa da respiração”.
Era sobretudo esse espaço e tempo que eles sentiam como deles, nesta lógica de círculo, de se sentarem e de a sala estar configurada de forma diferente e lhes permitir parar, relaxar, acalmarem-se através do simples notar da respiração.
Mas cada vez mais, com a experiência, e com as leituras que vou fazendo – e também notei isso na prática – fazer um curso de 10 semanas, ou 8 ou 12, parece-me manifestamente pouco. Até porque eu era uma estranha à escola e, quando se trabalha com grupos, é preciso um tempo para se criar uma relação. Se este trabalho for feito por alguém que já “está” na escola, a repercussão, o impacto que se pode ter em termos práticos pode ser muito maior.
Eu senti que havia “aqui” muitas limitações devido a este contexto e que tudo podia ser mais potenciado se fosse a própria escola a abraçar uma cultura mais consciente, uma cultura mais compassiva. Não é de estranhar a tendência destes programas e projectos ser, cada vez mais, a de capacitar os professores, agentes mais permanentes nas escolas, por forma a que eles possam apoiar a criação de contextos e culturas e salas de aulas mais conscientes. De outra forma, é um lançar de sementes, que acaba por ficar assim um bocadinho, depois, sem rega, sem ninguém para conversar ou acompanhar o crescimento… …podia-se jardinar mais…
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3. Depois da formação e desta experiência, “lançaste-te” para um doutoramento no âmbito do Mindfulness, nomeadamente dedicando-te a preparar uma avaliação do programa “Mindful Self Compassion”, junto de estudantes universitários.
O que é que te “chamou” a este tema?
E, até à data, quais têm sido os maiores desafios e as maiores aprendizagens sobre o tema e sobre criar e desenvolver uma tese de doutoramento na área do Mindfulness?
Já nas escolas eu sentia necessidade de informação, porque me pediam – comprovação de resultados, boas práticas, … – e por outro lado, senti a necessidade de contribuir para a credibilização do Mindfulness junto de determinados agentes – e isso é uma coisa que a investigação pode fazer.
Mas antes disso o que a investigação pode fazer é descobrir – qual é que é o impacto, quais é que são os resultados; com os seus instrumentos, que são aqueles que conhecemos, e olhar para a realidade e perceber de que é que estamos a falar quando falamos de Mindfulness –esta “moda” actual.
E depois, naturalmente, porque eu gosto muito de livros e de teoria – não que me sinta “um peixe na água”, mas gosto muito desse “mundo”.
Quando eu falo do “Mindful Self Compassion Program”, eu sei que ele é constituído por x sessões, com determinadas temáticas, atividades, e com um manual muito pormenorizado sobre tudo o que acontece e o que deve acontecer – e isto permite aumentar a capacidade de comparação e de saber – quando estamos a falar de um método mais quantitativo, naturalmente. E eu achei que isso fazia sentido.
E também achei que isso fazia sentido porque ao longo do meu percurso de aprendizagem na EDT, uma palavra que fui ouvindo com bastante frequência foi “compaixão” – logo desde a primeira sessão.
“Isso”, a compaixão, fazia-me muito sentido a nível pessoal – foi, e está a ser, uma aprendizagem grande em termos pessoais – e que eu acho que tem ressonância em toda a sociedade. Numa sociedade mais competitiva, exigente, agitada, hipercrítica, acho que a compaixão ajuda a contrariar um bocadinho todo esse movimento.
E depois, a nível pessoal – fui mãe recentemente… ter uma bebé – ser mamífero – fazer um doutoramento, regressar ao trabalho… essa logística diária acabou por ser também um desafio.
A motivação para fazer o doutoramento está completamente presente, mas também está um caos muito grande, que necessita de ser abraçado, e como ele já está a semi-engolir-me, eu não tenho outra hipótese senão viver isto de forma plena!
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4. E o Mindfulness – a prática, os valores, o teu conhecimento – ajuda em alguma coisa neste novo “caos”? Consegues no meio desse “caos” sentir que o Mindfulness está presente na forma como te relacionas com essas novas circunstâncias?
Curiosamente, sim. Apesar da indisciplina que tenho tido ultimamente, começo a achar que isto é como andar de bicicleta… …há coisas que se vão descobrindo e que não voltam para trás – tomadas de consciência que são como um pano de fundo.
Há momentos em que me perco no caos, mas também há momentos em que consigo trazer a compaixão e sorrir um pouco para tudo isto… …tenho essa consciência de que é uma fase muito particular na minha visa… e que isto também passará.
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MÓNICA FERREIRA
TUTORA TERAPIA E MINDFULNESS – ESCOLA DE DESENVOLVIMENTO TRANSPESSOAL