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Entrevista ao aluno da formação de “Terapia Transpessoal” – Fábio Silva – pela tutora Mónica Ferreira

Fábio, estás a poucos meses de terminar a tua formação como psiquiatra, tendo já experiência de acompanhamento terapêutico.
O que é que te motivou para a escolha desta profissão? E agora, o que te inspira a continuar?

Em relação ao que me motivou a seguir psiquiatria, é uma pergunta difícil, mas vêem-me à cabeça duas resposta, dois motivos.
A primeira resposta é que, e eu não sei porquê, mas desde muito novo que tenho interesse em perceber o que é a mente humana, como funciona, e por navegar nos recantos da mente humana.
Eu lembro-me de estar no 5.º, 6.º ano, e de todos os livros que os meus pais tinham em casa, eu ia sempre para aquela secção da psicologia e dos livros que falavam do inconsciente e de coisas assim…
Desde muito cedo que me interessava essa temática da psicologia e da mente humana, e o que é que é afinal esta coisa de sermos humanos.
E isso permaneceu em boa parte da adolescência.
Assim, quando chegou a hora, lá pelo 9.º ano, de começar a decidir à área de estudo, surgiu a psicologia.
Mas depois acabei por seguir para ciências e escolher medicina – mas escolhi medicina já com a ideia de seguir psiquiatria.
Outro motivo, e este é capaz de ser mais delicado de partilhar, mas foi também o conhecimento pessoal – aliás, há aquela piada de que quem escolhe psiquiatria, ou psicologia, ou psicoterapia é porque já é um pouco “avariado da cabeça” – e se esta questão é posta de uma forma um bocadinho ridicularizada e até preconceituosa, a verdade é que não surge do nada.
Eu acho que este preconceito, vamos chamá-lo assim, de que as pessoas escolhem psiquiatria, psicologia, psicoterapia ou terapia, porque vão à procura de se conhecer e, até, de se curarem, é verdade – isto é, eu falando por mim, acho que isso é verdade.
Eu fui à procura sobretudo de autoconhecimento mas, também, de cura – porque mesmo durante a faculdade tive problemas de ansiedade e de depressão.
Esta é a resposta mais genuína que surge. Não é aquela, que também surge e também é verdadeira, de que foi para ajudar os outros, para salvar. Mas o autoconhecimento foi o que verdadeiramente me motivou – e eu acho que é importante também reconhecer isso.
Até porque como é que nós podemos conhecer o outro se não nos conhecemos a nós próprios, e como é que nos vamos conhecer a nós próprios se não conhecemos o outro? -porque somos todos feitos da mesma substância.
No fundo as nossas questões são semelhantes – as questões com os pais, as questões com as inseguranças, com sermos cada vez mais nós mesmos – são questões transversais a todos nós.
Agora, inspira-me acompanhar o outro, até porque, é muito interessante verificar que, no fundo, as questões nucleares de todos nós são meia dúzia, mas as suas manifestações são tão diferentes de pessoa para pessoa – as histórias de vida, a maneira como se manifestam os nossos conflitos, as nossas preocupações, são tão diferentes.
Acompanhar o outro é uma curiosidade que nunca cessa, é ter contacto com esta diversidade – somos todos unidos por meia dúzia de coisas em comum, mas as histórias são tão diferentes; é tão interessante ver a forma como as pessoas vivem os seus conflitos, como os comunicam, como os explicam, como os resolvem ou como os aceitam.
Acompanhar o outro é sempre uma descoberta, desta diversidade que é ao mesmo tempo uma unidade.

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O que procuraste na Terapia Transpessoal? O que encontraste?

O meu caminho no Transpessoal segue muito do que foi o meu caminho na psiquiatria. Começou, sobretudo, pela necessidade de encontrar algumas respostas a nível pessoal, ou seja, de me conhecer a mim próprio – e só depois de eu ter sentido que consegui mergulhar nesse processo de me conhecer a mim próprio é que a terapia transpessoal me fez sentido como ferramenta para utilizar com outras pessoas.
O primeiro ano da formação foi o ano para me autoconhecer e fazer terapia a mim mesmo, e depois de um interregno de 3 anos, iniciei o segundo ano.
O que é que a terapia transpessoal me dá agora?
Para além de autoconhecimento, eu gostaria de integrar a filosofia da terapia transpessoal e algumas práticas da terapia transpessoal na psiquiatria no futuro.
Não é muito fácil da forma como a psiquiatria funciona agora, no nosso sistema nacional de saúde, em que os tempos de consulta são muito curtos, em que a intervenção está sempre muito focada na redução dos sintomas… neste momento é difícil, mas eu acho que estamos num ponto de viragem, em que é possível expectar que as coisas mudem.
A psiquiatria está num momento muito, muito entusiasmante, em que regressa à psiquiatria uma coisa que se perdeu nos anos 60 e nos anos 70 que foi o uso dos estados ampliados de consciência como uma ferramenta terapêutica.
Todas aquelas experiências que são bem conhecidas para a terapia transpessoal, aqui na Escola com a Respiração Holoscópica – experiências cume, experiências de união – isso está a voltar para a psiquiatria, como ferramenta terapêutica.
Curiosamente está a voltar através de uma abordagem muito farmacológica; isto é, utilizando substâncias conhecidas como substâncias de poder – a psilocibina dos cogumelos mágicos, o DMT da Ayahuasca – com um objectivo terapêutico.
Mas, no futuro, porque não técnicas sem substâncias? Porque não a Respiração Holoscópica? Porque onde esta ferramenta nos leva é muito semelhante.
Neste momento a psiquiatria precisa de ter uma coisa concreta – uma molécula, uma substância, está a recomeçar por aí, mas eu acredito que daqui a uns anos pode chegar a um ponto em que, porque não, integrar uma respiração holoscópica?
E quando chegar esse momento espero que aja um diálogo muito maior entre campos que são aparentemente distintos, mas eu sublinharia aparentemente – campos mais convencionais e campos menos convencionais (como a terapia transpessoal). Esse diálogo já começa a existir, mas eu acredito que novas pontes sejam criadas.

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Enquanto psiquiatra, em que medida sentes ser importante a vivência da dimensão espiritual?

Primeiro ponto, algumas experiências psicopatológicas que o psiquiatra vê todos os dias, para poder diagnosticá-las como patológicas implica que conheça o que não é patológico. Esta é uma distinção que nos é útil – o que é patológico e o que não é patológico – mas precisamos de saber o que é normal/não patológico.
Por exemplo, na doença bipolar, que é uma doença que ao longo do tempo cruza episódios da vida em que a pessoa está deprimida e episódios da vida em que a pessoa está em estados de euforia – nestes estados de euforia, é muito comum a pessoa ter uma auto-estima muito grande, uma grandiosidade, e ter delírios religiosos, místicos, achar que é um messias, ou que é Deus, ou que tem uma missão especial e vai salvar o mundo. E para nós percebermos porque é que esta experiência é uma experiência má para a pessoa, precisamos de perceber o que é uma experiência religiosa genuína e que é boa para a pessoa. Nestes casos patológicos, por exemplo, o ego é insuflado, e não transcendido – eu sou Deus, mas eu sou o único Deus! E não, eu transcendo a minha dualidade para passar a fazer parte de uma coisa maior que eu, que é Deus. Mas o psiquiatra necessita de saber o que é uma experiência religiosa, ou mística, autêntica, para poder fazer um diagnóstico correcto.
Segundo ponto, pessoas que estão mais conectadas com a dimensão espiritual adoecem menos. Isto está estudado, estas têm menos depressões, menos ansiedade, e quando adoecem conseguem recuperar melhor.
Curiosamente, nós sabemos isto, mas pelo menos que eu conheça, não existe nenhuma intervenção que use a espiritualidade para curar, como uma forma de intervenção. Quer dizer, agora começa a ressurgir…
E isto leva-me ao terceiro ponto… com o interesse da psiquiatria nos estados modificados de consciência e do uso de algum tipo de substâncias, eu acho que é cada vez mais importante os psiquiatras estarem à vontade nesta questão da espiritualidade e neste tipo de experiências – em que os terapeutas transpessoais estão bem por dentro.
Uma das questões que se discutia muito num congresso em que eu estive há um tempo, um congresso de cientistas, académicos e terapeutas não convencionais, era o que é que fazia com que uma experiência de um estado ampliado de consciência fosse curativa? O que é que acontece para que aquela vivência mude a pessoa? E o que se acredita, ou o que parece que a experiência mostra, é que as pessoas que têm nestas experiências uma experiência de união – morte do ego, transcendência e união com o todo – estas pessoas são as que têm mais probabilidade de curar os seus problemas – adições, depressão, ansiedade, ansiedade em pessoas que estão com diagnósticos terminais – que é algo de que se fala na terapia transpessoal, isto é, no fundo o que está na base de todo o sofrimento é esta desconexão com aquilo que é maior que nós, é acreditar que somos individuais e que estamos sozinhos, desconectados do todo. E o que estas experiências dão a estas pessoas é esta reconexão.
É um caminho. Há muitos outros, mas é um caminho. A meditação faz a mesma coisa… mas dá mais trabalho… 🙂

 

MÓNICA FERREIRA
TUTORA DE “TERAPIA TRANSPESSOAL” – EDT