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Entrevista à aluna da formação de “Consultoria em Mindfulness  – Florbela Silva – pela tutora Cátia Pinto

1. Gostaria de começar por perguntar o que te levou a querer conhecer e aprofundar a prática de Atenção Plena?
Olha, a prática da atenção plena nesta componente transpessoal começou na formação de terapia transpessoal em que havia um módulo em que abordámos a atenção plena e… É curioso como na vida realmente as coisas vêm e às vezes ficamos atentos a estas sincronicidades, não é? Porque eu estava na terapia transpessoal e, ao mesmo tempo, tinha esses módulos e havia uma pessoa que me desafiou de alguma forma a criar um grupo de meditação – uma coisa assim muito leve – em que dividíamos entre os dois. Ele faria as práticas mais de mindfulness e eu comecei por fazer alguns exercícios que nós tínhamos na terapia transpessoal, não só de atenção plena mas também de outro tipo de meditações guiadas. E assim começámos o grupo. E aquilo despertou em mim um interesse muito… muito genuíno, no sentido de «O que é que estava a chegar às pessoas?». Foi um bocadinho por aí, a atenção plena transpessoal… Por outro lado, em mim, o despertar… o perceber-me, o dar-me conta… De repente, ligar a atenção realmente e aperceber-me de tantas coisas que se estavam a passar e que aconteciam comigo.
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2. Quais foram os maiores desafios e as descobertas mais significativas ao longo desse caminho de aprendizagem na EDT? 
Desafios… Desafios foram o tempo porque nem sempre estamos habituados a tirar tempo para nós no dia e a prática da atenção plena tem este compromisso de dedicarmos este tempo a nós diariamente. Esse foi um desafio sem dúvida grande porque o dia-a-dia é muito rápido e facilmente nós não pensamos o que são as nossas prioridades e… então foi um pouco o ajustar das prioridades, o que realmente é importante para mim. E eu acho também que o que ajudou foi, ao fim de algum tempo (que não foi muito), eu começar a sentir essas diferenças do dar-me conta. E ao dar-me conta e a aperceber-me de determinadas coisas foi motivador. Foi algo que me ajudou a manter firme essa ideia. Claro que há dias em que, por vezes, passa… mas com o tempo, até isso depois nos faz falta, parece que falta alguma coisa na nossa vida. Parece que faz-nos falta esse espaço. Eu costumo dizer que sou uma pessoa espaçosa nesta questão de tempo para mim e, realmente, se por algum motivo, algum dia não deu, no dia seguinte já há ali alguma coisa que não está igual… Portanto, há que voltar. [E nesse sentido, qual é a descoberta mais significativa que tu destacarias no meio desses desafios?] Quando nós nos colocamos em primeiro lugar… Às vezes, nós achamos que somos egoístas por nos estarmos a colocar à frente dos outros, especialmente quando estamos com outras pessoas, quando temos outras responsabilidades, e achamos que isso não é o melhor ou mais correto. E eu senti isso por vezes… Eu acho que foi isso, foi o descobrir que esse tempo em que eu me dedico a mim, no fundo, estou a potenciar-me a mim e estou a melhorar a minha relação com os outros. Porque é aquela velha máxima da máscara do avião, não é? Se eu não estiver bem não posso cuidar do outro. E sinto isso perfeitamente, o tempo para mim… que é necessário.
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3. Em que medida estar atenta e presente – a ti e ao que te rodeia – implicou mudanças na relação contigo mesma, com os outros ou com o mundo?
Quando estamos atentos a nós, ao que se passa connosco… sem dúvida que temos aquele «darmo-nos conta» do que é que está a acontecer e vamos tomando consciência dessa escolha, não é? Se é realmente aquilo que nos faz sentido, ou não, ser assim… E quando não nos faz sentido, termos essa capacidade de escolha, termos essa capacidade de poder mudar… Nem sempre conseguimos logo. Nem sempre conseguimos mudar esse piloto automático que temos dentro de nós muito rapidamente, mas… Com prática, com persistência… Na verdade, na prática da atenção plena, no darmos conta, nesta presença, há uma coisa que está muito intrínseca aqui que é o comprometimento que nós temos para connosco. Porque quer a prática de fazermos diariamente ou qual for a periodicidade que queiramos fazer… Quer a prática quer esse darmo-nos conta e querermos fazer alguma coisa vem desse comprometimento de evolução pessoal, de desenvolvimento, de estarmos bem… é daí que advém essa melhoria, não é?
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4. Atualmente, intervéns e difundes o MDF em empresas. Queres falar-nos um pouco desse trabalho, como é que o MDF pode ser aplicado ao contexto empresarial e de que forma é que os colaboradores e gestores podem beneficiar desta relação com a prática de Atenção Plena? Quais são os maiores desafios ou obstáculos que tens encontrado? E que tipo de retorno tem sido dado? 
O mindfulness pode ser aplicado em ambiente empresarial para o momento de stop – que é dos momentos com maior aceitação e com maior retorno que existe porque permite realmente a paragem, o dar conta… O facto das pessoas darem-se conta… Primeiro, é este autoconhecimento de como elas são… Por vezes, as pessoas estão num piloto automático tão forte, tão forte, que elas não se apercebem da forma como reagem com os outros e, de alguma forma, também interiorizaram determinados comportamentos ou determinados papéis da sua vida que estão em linha de conta com aquilo que lhes foi passado em outras alturas e que nem sequer está completamente alinhado com aquilo que faz sentido nas relações hoje em dia. Então, o facto das pessoas darem-se conta dos seus próprios comportamentos e conseguirem ter esta perspetiva de que cada pessoa tem a sua leitura do mundo – e que aquilo que a pessoa está a fazer que nós podemos interpretar como certo ou errado – abstendo-nos desses julgamentos, abstendo-nos dessa forma crítica de olharmos o outro… Ter essa capacidade de ver de que forma o outro… «Porque é que para ele faz sentido este tipo de comportamento? O que é que está do lado de lá?» Quando as pessoas começam a fazer esse tipo de exercício abre-se aqui um mundo completamente diferente às pessoas, e tem sido muito compensador observar isto a acontecer.
Os maiores desafios e obstáculos que eu tenho encontrado têm muito a ver com o observar do mindfulness apenas como uma prática de Wellness, apenas como uma prática de bem estar. E eu procuro alterar um pouco isso. Então, o facto de haver determinados preconceitos ou pré-conceitos do que é o mindfulness e, às vezes, estar ligado com cultura zen ou budista ou esotérica… Isto, por vezes, tem um fator obstáculo nas empresas. Quando eu consigo desconstruir um pouco esta ideia, quando consigo apresentar o conceito do que é o mindfulness, então isso muda logo e normalmente tem uma recetividade muito grande.
O retorno… acima de tudo, o autoconhecimento das pessoas – que é uma das coisas que tem mais feedback – e outra tem a ver com a forma como as pessoas lidam com as suas emoções. Nomeadamente, eu acompanho sempre os meus programas com inquéritos em que faço a avaliação do que acontece. O fator que é mais diferenciado é mesmo a forma como as pessoas usam e lidam com as suas próprias emoções. Depois, por fim, o impacto nos relacionamentos. O facto das pessoas conseguirem olhar para os outros com uma maior responsabilidade naquele relacionamento – não porque a outra pessoa é assim mas porque ela deixa, porque ela permite que determinadas coisas aconteçam. E, portanto, há esse lado das pessoas que se auto-responsabilizam pelo que está a acontecer nas suas vidas.
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CÁTIA PINTO
CONSULTORA MINDFULNESS – ESCOLA DE DESENVOLVIMENTO TRANSPESSOAL