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Entrevista ao aluno da formação em Mindfulness – José Agostinho Santos – pela tutora Cátia Pinto

Querido José, começando exatamente pelo princípio… Quais foram as motivações   que te trouxeram até à Escola de Desenvolvimento Transpessoal e qual foi o apelo  ou chamamento que tu sentiste para esta formação de Mindfulness em particular?

Eu encontrei a escola precisamente porque tinha esse apelo, esse chamamento… Para algo que me completasse enquanto ser humano e que eu sentia que era necessário enquanto desempenho da minha atividade profissional. Ou seja, eu sentia que ao longo do meu dia-a-dia tinha muitos encontros com seres humanos e que, efetivamente, esses encontros eram em torno da saúde mas que muitas vezes só podiam ultrapassar a medicina. Ou seja, era impossível aproveitar todo o potencial destes encontros – que são as consultas – se eu me cingisse apenas à medicina. Porque com esta abordagem, enfim, do ser humano enquanto um ser global – e mesmo que nos centrássemos apenas na sua saúde -, eu centrar-me apenas na medicina ou na minha formação profissional seria, a meu ver, não prestar um serviço ao próximo de uma forma que eu, se calhar, poderia fazer com algo mais. E foi por causa disso que eu pensei, refleti um pouco sobre o que poderia fazer… Como poderia eu ajudar a retirar deste encontro algo que fosse muito produtivo para aquela pessoa que me procurava enquanto médico mas que, no fundo – e eu sentia – me procurava sobretudo como um ser humano? Então, nesta minha reflexão, uma das coisas ou áreas em que eu pensei foi o mindfulness porque já tinha ouvido falar anteriormente e em diferentes situações. E pensei que o mindfulness me poderia ajudar precisamente por causa disto. Porque, de certa forma, me permitiria abrir a consciência sobre a forma como eu era humano e, portanto, de certa forma, também me permitiria estar mais aberto para receber um pouco a humanidade do outro. E então achei que seria por aí… E foi dessa pesquisa, alguma na internet sobre o mindfulness, que encontrei a escola. Depois, o programa curricular agradou-me imenso e foi dessa forma que fui ter à escola. E o chamamento ou apelo veio muito por este contacto diário com as pessoas, com os seres humanos.

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Já nos revelaste que és um profissional da área de saúde, mais concretamente médico. Eu ia pegar exatamente nisso… Agora, após esta formação, como é que tu sentes que o mindfulness te veio ajudar nesse acompanhamento aos outros?

De diferentes formas… Enquanto ser humano que desempenha a sua atividade profissional como médico, ou melhor, enquanto papel de médico, de facto isso permitiu-me ter consciência de um conjunto de situações que, até então, eu não estava tão consciente. Relações de trabalho, relações de gabinete médico-paciente, relações com a tutela… Enfim, toda uma ampla gama de comunicações que um médico estabelece com diferentes vertentes, em reuniões de trabalho, outros compromissos profissionais, com pacientes, com os membros da gestão e da administração… Portanto, há aqui todo um fator comunicacional, e o tom do fator comunicacional tornou-se muito evidente para mim com o mindfulness. E isso permitiu-me, por diversas situações, abordar determinadas questões de uma forma por vezes muito mais ativa e, por outras vezes, de uma forma muito mais passiva.
Enquanto médico ou clínico, por assim dizer, ou seja, já no campo da relação médico-paciente, o mindfulness também me trouxe temáticas muito semelhantes. Também me trouxe, muitas vezes, algum desprendimento de questões que seriam muito relativas a formas arcaicas que eu teria – e que ainda tenho – de pensar e que, de facto, se calhar, provavelmente não teriam a ver com a situação da relação nem do paciente em si. E, portanto, houve aqui um conjunto de situações de que me tornei consciente ou que me dei conta, e que foram momentos que criaram momentos de desapego… Foram momentos importantes. E também me permitiu suster, de alguma forma, muitos processos de tomada de consciência dos pacientes com as questões que me traziam. Portanto, acho que a formação também me permitiu ser aquele acompanhante de alma em muitos momentos da consulta – aqueles acompanhantes de alma de que tanto falamos por diversas situações… Portanto, acho que respondendo à tua questão, eu divido um bocadinho aqui as questões em “eu enquanto funcionário de uma instituição”, mas também “eu enquanto clínico”. Acho que o mindfulness me ajudou muito nessas duas vertentes do meu dia a dia. Pronto… Depois nos campos pessoais, ou seja, fora do campo profissional, também teve um impacto muito positivo no meu dia-a-dia.

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Aproveitando essa tua deixa, de que forma é que sentiste esse impacto a nível  pessoal? Não sei se será ou não o caso, mas sentes que há um “José antes” e um        “José depois” desta formação e da integração do mindfulness?

 

Sim, há. A nível pessoal, ou seja, fora do campo profissional… Na verdade não é assim muito diferente. Porque os amigos e familiares são pessoas como quaisquer outras pessoas que entram no meu gabinete e, portanto… É um pouco complexo dividir assim desta forma mas pegando, por exemplo, no caso dos familiares e dos amigos. Há um José diferente… ou não diria que é diferente, há um José que entretanto segue o seu caminho e que, desta vez, está a fazer o seu caminho e está a tomar consciência do seu caminho. E isso, por sua vez, faz com que eu, ao tomar consciência, mude um bocadinho de rumo. Mas também não acredito que houvesse um José dantes porque sempre estive em mudança. Acho que sempre estive em mudança mas, se pudesse fazer um apanhado mais global, acho que há aqui questões relativamente às amizades que, de facto, o mindfulness me permitiu tomar decisões de uma forma sem culpabilidade.
Ou seja, há formas de pensar que eu tenho que são facilmente reproduzíveis e há sentimentos de alguma culpabilidade por vezes por não poder estar disponível. E eu tomei consciência disso. E a partir do momento em que eu tomo consciência disso também entendo o ponto de comunicação. Por vezes, existem algumas relações de amizade que são orientadas, por exemplo, para esse ponto de culpabilidade e efetivamente acabam por reproduzir reações de uma pessoa que se move por culpabilidade. Ora, ao tomar consciência disto mesmo eu também tomo consciência que posso não seguir esse circuito para o qual a minha mente já estava tão treinada e que existem formas alternativas. E aprendi, de facto, a não me sentir culpado em muitas situações. Porquê? Porque existe sempre uma alternativa, ou seja, o mindfulness permitiu-me vislumbrar potencialidades e inúmeras alternativas perante as situações e a não me mover, por exemplo, por alguma culpabilidade. Também me permitiu perceber ou entender a intenção, a intenção com que me movo. E permitiu-me perceber que isso provavelmente será o mais importante de tudo, a intenção com que se faz algo. E não tudo o que vem a seguir, ou seja, a ação em si, o resultado em si. Também me permitiu, em muitas situações, suster o caminho do outro em busca da sua própria intenção. Eu acho que se pudesse destacar a nível do campo pessoal aquilo que o mindfulness mais me trouxe foi o vislumbrar das intenções que estão no início da atitude e depois no comportamento, na ação e resultado. É estar bem na raiz de uma série de eventos que, entretanto, acontecem e que são bem mais visíveis.

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O que realmente significa para ti ser mindful? O que consideras ser o equipamento indispensável para levar numa bagagem mindfulness?

Para mim, é estar neste estado de absoluta vigilância ou de observação. De facto, de tudo o que acontece em nós, sobretudo desta voz interna. É desta forma até que eu explico a muitos pacientes o que é estar mindful. É isto… E para mim é a forma mais simples que eu arranjo de explicar. E no fundo, no fundo, é aquilo em que eu mais acredito. É o estado de escuta plena ao que esta voz interna nos diz, sem querer dizer que se vai seguir esta voz. Apenas escutar de forma atenta a voz interna, ponto. E eu acho que é isso que para mim mais define o mindful, o estar mindful. Poderíamos arranjar outras formas de o dizer… Mas penso que, se eu conseguisse estar mindful – não consigo estar sempre assim – em todos os segundos dos meus dias em que estou acordado, e se todos os seres humanos conseguissem fazê-lo, teríamos uma comunicação… Provavelmente, não haveria tantos problemas no dia a dia. Conseguir-se-iam resolver muitas questões, muitos problemas deixariam de existir. Portanto, para mim, é isso… definir o “estar mindful” seria assim dessa forma.

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[Eu não resisto a colocar esta última questão e a lançar-te este desafio porque ainda tenho bem presente o teu trabalho final e as imagens com que nos foste brindando ao longo do mesmo.] Se eu pedisse para visualizares uma imagem ilustrativa do mindfulness e daquilo que ele representa para ti, que imagem seria essa?

[risos] Bem, essa tu já sabes devido ao meu trabalho… Eu nunca mais perdi a imagem do farol, ficará para sempre como a imagem mais ilustrativa por aquilo que me transmite. O farol está num ponto estratégico entre terra e mar. E quando é noite ele roda e a luz é projetada e alcança tudo da mesma forma, independentemente de estar orientada para o mar agitado ou para a terra calma. O que é certo é que o farol ilumina tudo de igual forma, independentemente de estarem ondas de 10 metros ou ondas de 2 metros, independentemente do mar estar muito agitado e da terra estar completamente serena. Digamos que é um receber por inteiro aquilo que o rodeia iluminando tudo de igual forma e, por isso mesmo, representa o mindfulness. É este estado de absoluta observação e abertura do que acontece, independentemente do que acontece e porquê acontece. Porque o farol não ilumina apenas o mar agitado enquanto faz a sua função, ou não desvia a sua luz porque o mar está mais agitado ou porque o mar está mais sereno. Portanto, representa este estado de total abertura para o que vier no feixe da luz e é um pouco por isso que eu acho que representa bem o que é o mindfulness. Este estado de observação plena.
No entanto, há uma outra imagem que entretanto também surge na minha mente e que se prende com uma imagem particular – um objeto de decoração – de uma estatueta de Buda que, de alguma forma – não sei porquê – comunica comigo de uma forma tão especial. Há qualquer coisa naquela estatueta que me transmite uma presença… Os olhos estão desenhados de uma forma que revelam presença ao momento concreto e que, de facto, para mim também representa muito bem o que é – ou o que será – o mindfulness. Ou seja, é aquele estado de absoluta não inquietude – não gosto de dizer serenidade -, em observação plena ao que acontece. E essa imagem transmite-me precisamente isso mesmo, ou seja, quando eu observo essa estatueta, efetivamente, naquele momento, eu consigo estar ali. Sem nada mais, em pura observação. A verdade é que fico completamente no momento, no agora. Todos os pensamentos que poderia trazer antes de ver aquela imagem, por momentos, desaparecem. E é uma imagem que me transmite sempre um profundo momento meditativo. Se calhar, para mim, se eu pudesse ilustrar seriam essas as duas imagens que eu escolheria.

 

 

 

CÁTIA PINTO
TUTORA DE “CONSULTORIA MINDFULNESS” – EDT