O que há para o jantar? – os trilhos da alimentação consciente

O que há para o jantar? – os trilhos da alimentação consciente

 

“Enquanto a fome física é gradual e paciente, recetiva a vários alimentos e acaba quando o organismo está saciado, a emocional é súbita e urgente, exige um alimento específico e não acaba.”
Diana Balaias

“Um pedaço de pão comido em paz é melhor do que um banquete comido com ansiedade.” Esopo

 

São raros os casos cujas pessoas nunca escutaram frases como “tens mais olhos que barriga”, “peixe não puxa carroça”, “criança comilona, embrutece e fica mandriona”, “não se vive para comer, come-se para viver” ou “diz-me o que comes, dir-te-ei quem és”… A sabedoria popular está carregada de expressões e ditados que nos ajudam a vislumbrar a importância que a alimentação assume nas nossas vidas e as crenças subtis que sustentam a nossa relação com a comida.

Uma amiga confidenciava-me recentemente o quanto a incomodava ser interpelada em relação ao cardápio para o jantar ainda antes do dia despontar em pleno ou sequer ter tempo para auscultar as suas batidas cardíacas matutinas. E, enquanto o expressava, dava-se conta que ela própria anoitecia e amanhecia tantas vezes com a mesma música de fundo intrusiva: O que fazer amanhã/hoje para o jantar? Curiosamente, passava a respirar mais tranquilamente após solucionado o “enigma do dia”. Como se deste toque de mágica dependesse o bem estar e a felicidade familiar e individual.

A alimentação é para muitas pessoas o tema central das suas vidas, em torno da qual se mobilizam e relacionam, partilham estados de alma, e abrem a mesa para dar e receber afeto. As pessoas conectam-se através da comida; de tal forma que, em muitas casas, o amor parece ser medido em gramas na hora das refeições: “só mais um bocadinho…fiz com tanto carinho…”. Se nos parece que o ato de comer encerra o intuito apenas de saciar a nossa fome fisiológica e preencher o nosso estômago, desenganemo-nos. Comer significa também uma aventura sensorial e uma jornada afetiva, onde não só os cinco sentidos e o prazer se tocam como também a dor e o conforto se cruzam tantas vezes por caminhos insidiosos.

A nossa relação com os alimentos pode conduzir-nos a uma viagem alucinante, em busca quer da compulsão quer da privação, ou de ambas. Esta cozinha desgovernada envolve frequentemente entradas e saídas recorrentes de dietas alimentares, com os consequentes sentimentos de fracasso, culpa e arrependimento, e num círculo vicioso onde a nutrição se assume como um instrumento apenas de recompensa e punição dirigidas ao próprio.

Indagar “o quê”, “quando” e “como” comemos pode abrir portas insuspeitadas para descobertas e compreensões mais profundas sobre nós mesmos. Apenas observando os próprios padrões alimentares poderemos identificar os gatilhos que estão na origem de cada um dos nossos impulsos, quer seja para comer na ausência de fome quer seja para rejeitar comida quando o corpo necessita de alimento. Escutar e reconhecer os sinais internos de fome e saciedade são os primeiro passos para nos ajudar a fazer mais e melhores escolhas, sem nos deixarmos aprisionar pela fome emocional.

Quando nos aprofundamos na prática da alimentação consciente descobrimos que não necessitamos de imposições externas para solucionar a nossa luta interna com a comida, pois o nosso corpo conhece a resposta e apenas ele pode possibilitar uma mudança discreta mas sustentada ao longo do tempo. Não existem alimentos “permitidos” nem alimentos “proibidos”, apenas uma escolha informada e consciente, comprometida com um consumo flexível, equilibrado e saudável. Não se trata sobre o que comer, mas como comer.

Comer com atenção plena – mindful eating – pressupõe sair do piloto automático, como seja comer em frente à televisão, comer a responder a emails ou a consultar as redes sociais no telemóvel, comer enquanto se lê um livro, comer durante a fila no trânsito… e em qualquer situação cujas distrações ou estímulos excessivos possam desviar o foco da refeição que temos diante de nós.

A alimentação consciente supõe abrirmo-nos à experiência direta, relacionarmo-nos com os alimentos através dos sentidos, com abertura e curiosidade, soltando conhecimentos prévios, julgamentos e críticas. Brincar e explorar os sabores, as texturas, os aromas… os ingredientes e temperos… as fusões… Polvilhar a refeição com silêncio e pausas conscientes entre cada garfada, num puro deleite… Apimentar a cozinha com amor e um toque de criatividade, desde a preparação ao empratamento, até ao momento de servir e saborear o prato. E não esquecer de convidar a Presença para o banquete, a cada instante, e a Gratidão pela “argamassa e corrente humana” que gera e coopera e para fazer chegar cada alimento até à nossa mesa.

E tu, como queres jantar hoje? 

 

CÁTIA PINTO
TUTORA DE MASTER EM MINDFULNESS

A educação e os afetos

A educação e os afetos

“Desejava que não tivesse acontecido no meu tempo”, disse Frodo.

“Também eu,” respondeu Gandalf, “assim como todos os que vivem para ver estes tempos. Mas não lhes cabe decidir. Tudo o que temos para decidir é o que fazer com o tempo que nos é concedido.”

inThe Felowship of the Ring”, JRR Tolkien

 

Há uns dias, numa conversa de trabalho, uma colega que vive perto de uma creche comentou comigo que conseguia distinguir perfeitamente os pais que deixavam as crianças pela primeira vez, pela dificuldade, pelas lágrimas, pela dor. A mim que ainda não tive que passar por isso, já me falhou uma batida no coração.

Seja-se adulto ou criança, há muitas “primeiras vezes” que implicam mudanças duras e difíceis de manobrar. Para uma criança que atravessa o umbral de uma escola diferente, com educadores diferentes, espaços que não conhece, pode ser assustador o novo mundo que a espera. Ainda mais quando os sorrisos, colos e abraços com que habitualmente seria recebida são forçosamente substituídos por distâncias cautelosas, mascarilhas estranhas e álcool-gel. Valem-lhe os olhares, quentes e amorosos, estendendo pontes sem braços.

Acredito que muitos de nós gostariam de não estar a atravessar esta pandemia. Estamos numa época confusa, em ajuste constante, que se traduz em mudanças centrais na nossa forma de viver, trabalhar e educar. As escolas lutam para respeitar normas de saúde impostas para defesa de todos. Em salas pequenas onde cabiam 25+1 agora é preciso fazer uma ginástica criativa para que os mesmos caibam com a distância devida, sem partilhas e intervalos sancionados, em muitos casos. Bombas de energia contidas entre quatro paredes, ameaçando explodir.

A ansiedade começa a fazer parte normal dos nossos dias. Acendo a televisão para ver notícias de crianças que se querem fechar em casa, que recusam a saída dos pais, com o medo na voz. Converso com uma vizinha que me conta que o filho, um adolescente de 16 anos, lhe pedia, há uns meses, para recusar um convite de uma amiga para uma festa de aniversário, porque ele receava ir mas não tinha coragem de dizer que não (todos fomos adolescentes alguma vez!). Recordo-me de o ouvir aos gritos, ocasionalmente, na altura do confinamento, dizendo que não aguentava mais estar fechado em casa, exigindo sair. E tudo isto, e muito mais, me faz temer pelos futuros efeitos destas mudanças abruptas e forçadas às nossas crianças e jovens, que se debatem com um mundo tão diferente do habitual.

Também nós, adultos, educadores, profissionais ou pais, estamos remexidos com as circunstâncias. Não sabemos bem até onde podemos ir, o que é seguro ou inseguro. E às vezes o medo leva-nos a actos irreflectidos, como o de dizer a uma criança num tom agressivo “chega-te para lá, não venhas perto”. O medo é mau conselheiro, tem historial disso, sai-nos em reactividade se não tomamos atenção. Causa dano, a quem sente e a quem sofre. Até porque não dá para viver encapsulado, numa bolha. A vida continua, e a vida é lá fora.

E no meio de tudo isto que escuto e observo, há pequenos milagres que me chegam. Há quem traga consigo o olhar da criança dentro, e o transborde em mistério, curiosidade e beleza. Como a professora que pediu aos alunos para trazerem máscaras de pano diferentes umas das outras, e resolveu transformar a sala num baile de máscaras com direito a música, luzes e solenidade devida. A mente de principiante no seu melhor.

A distância pode ter de ser física, mas não tem de ser emocional. Não há dúvida que este ano lectivo nos obriga a olhar para dentro, para emoções difíceis de gerir, perante medos e questões que nos fazem sair, sem dúvida, da zona de conforto.

Mas o que não nos pode roubar, e mais ainda neste momento tão incerto, são os afectos. Preservar uma atitude de encontro, de ternura, de recepção amorosa, de empatia e compaixão, de auto-compaixão, numa comunidade educativa – professores, funcionários, pais, cuidadores – que tem de se moldar a um limitar das expectativas e exigências, pesadas numa mochila que já leva tantas restrições.

Ainda agora que acabo de vos escrever recordo com alegria a tutoria em que da janela da minha aluna se escutavam os gritos felizes e as risadas de crianças no recreio. De olhos fechados, em meditação silenciosa, parecia que me inundavam o escritório, como se estivessem a meu lado e o seu sorriso fosse palpável, mesmo aqui.

Que haja espaço, criatividade e coração para nos reinventarmos no meio de tudo, e podermos trazer um bocadinho de magia aos dias, às salas, aos ginásios, aos recreios, às actividades, aos recursos, a nós mesmos.

Porque, de facto, só podemos fazer o nosso melhor com o que nos é concedido. E isso basta.

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE MINDFULNESS EM EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES

E foram felizes para sempre

E foram felizes para sempre

“Não aceitamos que a felicidade seja um estado passageiro, e buscando-a compulsivamente criamos mais infelicidade e trauma na nossa mente.”

Mark Epstein

  

O som de um “Era uma vez…” traz consigo uma vontade irreprimível de nos sentarmos em círculo, olhos postos no narrador, e nos abrirmos à estória. Escancara-se a porta da fantasia, e a criança em nós volta a vestir-se de Rei ou Rainha, Dragão, Sereia, Monstro marinho ou pequeno Duende e, magicamente, reentra num reino encantado, onde o adulto pode encontrar, escondida simbolicamente, a chave para algum mistério na sua vida.

Os contos de fadas são contos da vida, disfarçados de mistério, sonho e brilho. Carregam consigo, entrelaçados nas letras, lemas de vida, trilhos de individuação, provações que nos remetem para episódios da vida quotidiana, personagens que nos fazem recordar alguém e, algumas vezes, soluções simbólicas para problemas reais, quando os ouvidos estão despertos e a alma sabe decifrá-las.

É talvez por isso, por este carácter que toca subtilmente o inconsciente colectivo, que quando chegamos à parte do “viveram felizes para sempre” com que a maior parte dos contos de fadas fecha a última página, prometendo um fim sem fim à vista, sem ondulações difíceis e ventos contrários, um oásis de pura beleza e paz, nos confundamos com isto da felicidade, tomando-a como um continuum da vida, intocado pelo quotidiano.

Não existe um “sempre” nem um “nunca” nisto de se ser feliz. A vida oferece-nos uma paleta emocional de degustação diversa, onde estão presentes sentimentos de puro êxtase, bliss, serenidade, e outros de dor dilacerante, ansiedade, medo, vergonha, entre sabores mais tranquilos, que se aninham com mais docilidade no coração.

Por mais que o desejemos, não há como viver por metades – acordar de manhã para o lado sorridente da vida e voltar a fechar os olhos ao meio dia, se este prometer tempestades. As emoções mais densas e duras fazem crescer – e crescer dói -, desafiam-nos a conhecer pedaços de nós mais profundos, a mergulhar fundo na caverna interna de quem somos e escavar recursos, desencafuar emoções, abraçar a humildade, amadurecer. Responsabilizarmo-nos por nós. E regressar ao mundo com mais capacidade de nos abraçarmos, em tudo.

Permanecer agarrados a uma ideia fantasiosa da felicidade constante é correr como Dom Quixote atrás de moinhos de vento, julgando-os gigantes, na sua ilusão. E é perder-se, talvez, os momentos realmente felizes, os “encantados”, tão empenhados que estamos no caminho da durabilidade. Se o mundo fosse todo cor-de-rosa deixaríamos de notar que existe cor, e até a emoção deixaria de ser perceptível.

“Para sempre” é cada momento em que o coração estremece e sorri. Cada abraço, cada dança, cada contemplação da vida a acontecer, cada singelo segundo em que a gratidão nos inunda o peito e sabemos quem somos.

“Para sempre” é cada momento inefável em que saímos à aventura, descobrimos mais um pedaço de nós e voltamos a Casa mais inteiros, coesos e despertos.

 

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE MINDFULNESS EM EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES

Pertencer

Pertencer

Arquetipicamente, qualquer jornada se inicia com uma saída da zona de conforto, do conhecido, do chamado “mundo comum.”

 

Se, por vezes, escolhemos esta viagem, ou ansiamos por ela, na maioria das vezes ela apanha-nos de surpresa, empurra-nos, leva-nos a resistir e a perguntar-nos “porquê?”. Porquê eu, porquê agora, porquê…? 

Sem nos apercebermos, pagamos viagem num carrossel que nos transporta para lugares onde não sonharíamos ir e a descobrir recursos que não imaginávamos ter.

Inevitavelmente, mergulhamos em pedaços de nós que escondemos na sombra e, através deles, encontramos tesouros e novas fórmulas de viver a vida. 

Ainda que não seja a fase mais intensa, apaixonante ou floreada, das grandes jornadas da vida, a última é, sem dúvida, uma das mais impactantes. O regresso a casa. O retorno ao mundo que deixámos, quando já não somos a pessoa que partiu. 

Não pertença, desenraizamento, desconforto, solidão são algumas das sensações que nos assolam. Percorremos tão longo caminho para descobrir quem somos, e pagamos o preço de deixar de pertencer aos lugares que conhecíamos. 

Resta-nos a escolha de nos afastar, ou de ficar para reconstruir. De nos sentirmos melhores do que os comuns, ou de caminhar por entre os lugares, partilhando quem somos e o que descobrimos. Recriando-nos e fazendo a diferença de formas criativas, enriquecedoras e acolhedoras. 

Os momentos atuais do mundo apelam-nos a uma das maiores jornadas de sempre. E, se o mundo comum por onde caminhávamos não era o ideal, sem dúvida que as viagens de carrossel por onde somos testados nos abrem caminhos, recursos e novas formas de estar e pertencer. 

Talvez sejam agora os momentos das boas decisões. De nos enraizarmos finalmente no corpo e na terra e escolher diferente. Respeitar a vida. Consumir de forma consciente. Precisar de menos. Partilhar mais. Amar melhor. 

Que grandes escolhas necessitam de ser feitas? Que boas mudanças nos trazem de volta a nós mesmos? Que passos nos aproximam da terra-mãe que nos acolhe?

Estas são as grandes perguntas. 

As jornadas de individuação são fundamentais para cada um. E a etapa seguinte é, sempre, o regresso a casa. Os heróis arquetípicos caminham sempre em “sacro-ofício”. Em prole de todos.

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT
Individuar-me

Individuar-me

“Toda a gente tem medo de alguma coisa. Se conheceres os teus medos, ficarás um passo mais longe de permitir que eles te dominem…. No campo de batalha, um rosto intrépido ajuda-te a conservar a força. Se vestires o semblante de coragem, a coragem em si torna-se mais fácil de alcançar.”

Juliet Marilier, in “A chama de Sevenwaters”


 

Há uns tempos encetei uma autora que não conhecia, mas cujo livro já andava a marinar, A Filha da Floresta, da autora Juliet Marilier. São romances. Mas são romances que bem podem ser livros de conexão connosco mesmos. Como sempre, este desde onde estamos a viver, neste caso a ler, faz toda a diferença. Podemos ler como um simples romance, como podemos ler com os olhos da alma. E sem dúvida há esse convite nestes livros.

Com estas leituras muito tem vindo de valores pessoais, de simplicidade, de compaixão, a amor ao próximo, de coragem, de recordar “aquilo que importa”, de medos e de individuação!

Falo-vos de forma muito breve de individuação:

Termo “cunhado” por Carl Jung, a individuação consiste num processo através do qual o ser humano evolui de um estado infantil de identificação para um estado de maior diferenciação, o que implica uma ampliação da consciência. Através desse processo, o indivíduo identifica-se menos com as condutas e valores encorajados pelo meio no qual se encontra e mais com as orientações emanadas do Si-mesmo, a totalidade (entenda-se totalidade como o conjunto das instâncias psíquicas sugeridas por Carl Jung, tais como persona, sombra, self, etc.) de sua personalidade individual.

Mas, seguir o nosso caminho, a nossa autenticidade, requer coragem e pés bem assentes na terra, um ego maduro (estruturado), uma personalidade que saiba discernir o que quer ficar para trás e para onde devemos seguir; o que nos condiciona e o que nos liberta…

O processo de sermos quem somos, ou de nos tornarmos isso, implica que aceitemos o todo, tudo aquilo que somos, a nossa totalidade, ou seja, o bom e o mau em nós. Implica que aceitemos que não há culpados nas nossas histórias, há personagens, com ações, que geram consequências. O que eu faço com isso é outra história! Implica sair do estado infantil, de identificação com a família, com os pais, a comunidade a que pertencemos e através da ampliação de consciência de quem somos. Passando assim a um estado de maior diferenciação de nós mesmos. O processo de individuação é fundamental para qualquer um de nós viver aquilo que nasceu para viver, para encontrar em nós a nossa mais profunda verdade e viver nela.

Viver a autenticidade implica despirmo-nos das máscaras que usamos para nos defendermos do mundo; e isto não significa que eu tenha que ser irreverente, que me marginalize, que viva em busca de culpados… essa pode ser uma fase, mas se eu me mantenho aí, eu só evoluo da criança ferida para a adolescente ferida, não chego à pessoa madura.

De regresso ao ponto de partida, os livros de Juliet Marilier, tem sido um grande mergulho, através da ficção, que tem recordado a importância de sermos na totalidade em vez de ficarmos à espera daquilo que nos podemos tornar!

O processo de individuação é constante. Eu diria que é a vida a acontecer e eu a fazer algo de bom com ela!

 

PATRÍCIA BENTO
TUTORA DE TERAPIA, RESPIRAÇÃO HOLOSCÓPICA E CÍRCULOS DE MULHERES
Bem Vindo Setembro

Bem Vindo Setembro

“Ah, September! You are the doorway to the season that awakens my soul…”

Peggy Toney Horton


 

Anuncia-se Setembro, marca de recomeços, de ciclos que se completam e outros que se voltam a abrir, pedindo-nos que aos poucos nos preparemos para regressar mais a casa, às quatro (ou mais) paredes que nos confortam, suportam e protegem. Recolher um pouco do buliço da vida e retornar ao ninho.

À medida que o tempo arrefece lá fora e os dias de luz se encurtam, com a lua a espalhar prata mais cedo, é também a casa-corpo, casa-pele que nos pede que a revisitemos e, com carinho, nos preparemos para uma nova época do ano mais exigente e ativa.

A forma como nos habitamos – e habitamos os nossos espaços vitais – é o que nos torna sagrados, esse olhar com intenção de nutrir e cuidar, arejar as janelas dos sótãos, limpar as teias de aranha às preguiças e procrastinações e fazer caso do que a alma nos sussurra, talvez há dias, talvez há meses.

Simbolicamente, a cozinha é o coração da casa, lugar onde misturamos cores, sabores, texturas, onde nutrimos a família, onde os cheiros se confundem e a Alquimia antiga se transforma em moderna quando as poções dão lugar a bebidas quentes, cheias de especiarias e conforto.

É o lugar onde se curam maleitas, experimentam receitas e se espreita o futuro. Com um fogão dos antigos, borbulhante de magia, de saberes ancestrais, que se passam de geração em geração.

Na nossa casa interna, o coração é o sítio do fogo, da chama que, ora em lume brando ora em fogo aceso, nos transforma, nos alquimia a alma. E esta, que não é pequena, tem gavetas por aqui e acolá que abundam de gente e de sonhos, metas e projetos, muitos por cumprir.

Agora que se abre novo ciclo, com uma oportunidade de escutar estes sussurros e lhes dar, talvez, um molde real no mundo, teremos para nós a mesma atenção e amor que costumamos distribuir? Que partes de nós demandam voz, expressão, espaço na agenda, encontros alegres connosco mesmos? E como poderemos dar força a esse fogo-fátuo que merece cuidado e nutrição?

Sem “devias” que nos aprisionam e arrastam, recordemo-nos de que tal como em volta do caldeirão se encontram o sagrado e o profano, sem se estranharem, também dentro de nós e neste corpo que tanto nos serve há pedidos por atender, criações por parir de um qualquer bloco de apontamentos, dietas equilibradas e plenas de vida para nos encher de energia e foco, ritmos dançantes ou mais tranquilos para abraçar com as ancas e o coração por igual.

Setembro pede-nos mais ação, talvez, mas é nossa escolha – e não dever – trazê-la desde o ponto certo. “Desde onde” o corpo pede, a alma chama, e o coração alumia.  

 

 

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE MINDFULNESS EM EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES