Qual o propósito de um sonho?

Qual o propósito de um sonho?

– a alma e os “lugares de lado nenhum” –

Há um sonho que nos está a sonhar.

Kalahari Bushman

 

Qual é o propósito de um sonho? De um amigo imaginário? De uma estória bem contada e que nos remexe as entranhas ou lida numa tarde de chuva, por entre mantas e chás quentes?

Que partes de nós se alimentam e sanam, respiram vida e emoção ao recordar um mito antigo? Onde se situa o sonhar acordado nas nossas apressadas vidas?

Remetido para um canto da infância, ou para um lugar de escapismo, apenas prestável aos artistas (e nem todos têm essa benesse), o Imaginário tornou-se pouco útil aos olhos do racionalismo humano, num mundo onde o estímulo-resposta e o Objetivo-Produto-Meta são soberanos.

Desbravámos terreno pelos meandros da consciência e da psique, escavando no autoconhecimento, no desenvolvimento e na terapia. Adentramos nas melhores versões de nós mesmos, como indivíduos, pais e mães, professores e elementos de um casal. Escavámos as feridas e a criança, as sombras e o perdão.

Só que nos esquecemo de trazer a alma na bagagem, o mistério, as povoações secretas da imaginação, os “lugares de lado nenhum” onde as regras conhecidas não se aplicam. A tradição oral, a poesia e a arte, os sonhos e os rituais habitam esses lugares.

Mundus Imaginalis é o termo usado por Henri Corbin, um especialista da filosofia Sufi, para esse Reino. Um espaço-mundo que coexiste entre o mundo natural e o mundo do divino, não percetível pelos sentidos da forma como os habituámos a usar. Onde a dualidade matéria e espírito ou realidade e mito não se aplicam, pois na verdade não há um “lugar” para este reino que não a alma. Somente aí nos relacionamos com o mundo arquetípico, mitológico, mágico, sagrado e latente de vida. E é também desse lugar que a alma do mundo se relaciona connosco.

O que somos nós sem eles? Os lugares da alma, repletos de símbolo e magia, sincronicidade e mistério? De que servem as ferramentas, se perdemos a capacidade de nos assombrar com o mundo que nos rodeia?

De celebrar a passagem das estações e a mudança das luas, escutar e reverenciar a vida nas suas variadas formas? De sentir as marés e os ventos do deserto, os sussurros da brisa e a dança das arvores? Quem somos nós quando nos perdemos da magia?

Ainda que seres individuais, existimos na verdade também como seres coletivos e arquetípicos.  Somos seres em crescimento. Somos também pertença. A pessoas, a aldeias, a paisagens e a estórias. A sonhos e a poesias. E somos magia e eternidade. Estórias mil vezes contadas; por vezes narramo-las nós, outras vezes, somos nós a ser contados.

E quantas vezes somos “contados” num sonho antigo, nosso ou de outros, ou talvez do próprio mundo, numa estória narrada por uma voz intemporal, junto de uma lareira numa noite de Inverno? Quanto de nós se sana, quando nos permitimos viver dentro de uma boa estória?

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT

 

 

Filhos da Terra

Filhos da Terra

“Vocês devem ensinar às vossas crianças que o solo a seus pés é a cinza dos nossos avós. Para que respeitem a terra, digam aos vossos filhos que ela foi enriquecida com as vidas do nosso povo. Ensinem às vossas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão a cuspir em si mesmos.

Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra.

Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.”

Chefe Seattle, discurso de 1854

 

Nunca o despertar da consciência humana, o seu desenvolvimento e propósito no mundo foram tanto uma demanda como nos tempos que correm. O nosso lugar no mundo e a forma de usar os nossos dons e talentos são a estrada a percorrer, os trilhos a desvendar, a montanha para subir. A consciência transpessoal – para além da persona e do que “achamos que somos” – abriu clareiras de silêncio, contemplação, desidentificação e transcendência.

E, ainda assim, por vezes esquecemo-nos de que a unidade, o todo, o espaço transpessoal latente no universo não abarca apenas seres humanos.

Se é que alguma vez foi possível ignorar que somos uma teia de gente a morar num mesmo local, ainda que com vistas diferentes, e que a forma como escolhemos habitar o nosso pedaço de mundo toca leve ou fortemente nessa teia, carregando peso, tal já não é mais uma possibilidade.

Como “o sangue que une uma família”, a terra une tudo. Vivemos talvez sem pensar muito (ou nada) nisso, mas tudo o que nos alimenta, veste, calça, protege é dádiva deste nosso pedaço de Terra, que tantas vezes tomamos como garantido, como se existisse um recurso divino infinito de água bebível, campos de cultivo férteis, plantas e animais. Mas não há. E é só olhar em volta com olhos despertos durante o nosso tempo de vida e contar os anos de seca, em que, como na travessia terrena de Deméter em mágoa interna, nada cresce nem floresce, ou as espécies que se extinguem, deixando vazios incalculáveis em cadeias alimentares, ou os mares que galgam areias ou derretem glaciares antigos, morada de irmãos de quatro patas.

Há um engano profundo quando vivemos espiritualmente sem viver esta matéria, sem cuidar disto de que somos feitos. Carne, ossos, músculos, sangue, isso tudo que nos habita, o templo sagrado do corpo, que nos fala tanto de sobrevivência como de desfrute. Mas para viver de facto esta matéria há que cuidar do que nos nutre. Há que proteger o espaço onde abundam os cereais que nos oferecem os grãos; há que poupar a água que nos mata a sede e faz vibrar as células; há que limpar os solos do nosso rastro, fazer escolhas mais conscientes e equilibradas, dar colo a esta Mãe abundante, sagrada e fértil que nos acolhe e a cujo regaço voltaremos um dia. Porque também ela envelhece e ganha rugas aqui e acolá, se não temos cuidado. E porque não queremos limitar-nos a sobreviver, mas a viver em pleno. E a plenitude, como bem sabemos, dá trabalho. Porque implica nutrir o Todo.

Não há sagrado sem profano, e são ambos um e o mesmo, se formos a ver.

O segundo engano vem de um “Somos Todos Um” que julgamos que se remete apenas à Alma. É bem maior do que isso. Mesmo que uma árvore caia na floresta sem ninguém a ver, o seu silêncio, ou ruído, chegarão a cada um de nós. Este é o poder, belo e destruidor, da teia. A ausência da mais pequena abelha leva à ausência de culturas como frutos silvestres, abacates, laranjas, castanhas, etc, importantíssimas para a sobrevivência humana. O impacto do aquecimento global tem como consequências o degelo, o aumento do nível do mar (menos terra para habitarmos), ciclones, secas extremas, extinção de espécies. A teia está viva, o mais singelo toque espalha-se como uma pequena chama em vegetação seca.

O terceiro engano nasce do próprio umbigo. Não somos só nós e o nosso tempo. Devemos a quem vem depois, filhos, netos, bisnetos, aos trisnetos que não conheceremos o legado de uma Terra própria para prosperar. Devemos-lhes a educação para uma espiritualidade ecologicamente consciente e enraizada, a noção de que este espaço é finito, tem fronteiras e, mais que tudo, que é a nossa Casa. E é como tal que deve ser tratada.

Contemplar o todo e ser uno com o cosmos é – absolutamente – ajoelharmo-nos no húmus (não é daí que vem a humildade?) e servir a parte desse todo que nos permite estar vivos. Somos também planta, árvore, grão, animal, pedra. Somos água e oxigénio. Somos vida e servimos a vida.

Nem todos temos de ser ativistas no Pantanal. Cabe-nos, sim, o ónus de pequenos (grandes) gestos de um quotidiano mais ambientalmente sustentável. Menos plástico, menos eletricidade, menos água, mais reciclagem, mais procura de informação sobre o que se passa neste planeta.

Afinal, somos (só) vizinhos.

Está mais do que na altura de começar a dizer Olá ao que nos rodeia.

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE EDUCAÇÃO MINDFULNESS E FACILITADORAS DE CÍRCULOS DE MULHERES

 

A arte do Discernimento

A arte do Discernimento

A Arte do Discernimento

– a primeira tarefa de Psique –

“Dizendo isto, Afrodite tomou trigo, cevada, milho, sementes de papoila, grãos-de-bico, lentilhas e favas; tudo misturado e feito em um grande monte, disse a Psique:

«Pois, eu quero agora experimentar a tua diligência. Afasta todos os grãos destas sementes que estão juntas e separa-as em montes distintos. Tens de ter tudo pronto antes de ser noite.»

Dito isto, saiu ao encontro dos deuses. Psique, embargada com a grandeza daquele mandamento, ficou como morta, sem elevar a mão para começar tão grande obra. Então, uma pequena formiga do campo, vendo-se defronte de tão grande trabalho e dificuldade para a mulher do grande deus do amor, amaldiçoou a crueldade de Afrodite e correu rapidamente pelos campos, rogando a todas as batalhas e multidões de formigas:

«Oh, subtis filhas e criadas da terra, mãe de todas as coisas, haja misericórdia, pena, socorram a uma moça mortal formosa, mulher do deus do Amor, que está em perigo!»

Então, como ondas de água, vinham infinitas formigas caindo umas sobre as outras, e com muita diligência, grão a grão, apartaram todo o monte. Depois de afastados e divididos todos os géneros de grãos, rapidamente se foram dali.”

 

A primeira tarefa de Psique, também chamada simplesmente de A Tarefa de Psique, na sua demanda encontrar Eros, evoca-nos uma outra imagem, esta de um conto de fadas, nos quais a madrasta de Cinderela atira malgas de lentilhas para as cinzas, dando-lhe um tempo específico para terminar a tarefa. Tal como neste mito, a ajuda não humana (com Cinderela são pombas e rolas, com Psique são formigas) é crucial para o cumprimento da tarefa. Não será, certamente, uma coincidência que em pelo menos duas estórias de superação feminina (nas versões antigas de Cinderela, esta tem um papel bem mais ativo do que nas versões posteriores) surja a tarefa da separação das sementes. Interessante também observar que Afrodite – no lugar de sogra – e a Madrasta Má têm um papel fundamental na atribuição das tarefas à heroína.

Afrodite, a grande Deusa do Amor, é uma figura primitiva. Ela nasce do mar, da mistura de sémen de Úrano com a espuma das ondas. Ela é oceânica, abissal, inconsciente e alquímica, a Grande Mãe, o princípio feminino em toda a sua grandiosidade arquetípica. Psique, por sua vez, na primeira parte do mito é mortal, mas concebida por gotas de orvalho caídas sobre a terra.

Todas as mulheres têm acesso interno ao arquétipo de Afrodite, essa feminilidade indomável e majestosa. Ainda assim, e como acontece com todos os arquétipos, não podemos deixar-nos possuir ou identificar com um, pois corremos o risco de ser esmagadas por ele.

Psique, na sua pureza e doçura, não tem ainda a maturidade para entender e integrar Afrodite, sem ser dominada por ela. Ela é comparada à Deusa inúmeras vezes e, por isso mesmo, torna-se inatingível aos olhos humanos. Os homens admiram-na, desejam-na, mas não querem casar-se com ela. Acaba por ser escolhida por um Deus – Eros – filho da própria Afrodite. Inevitavelmente, e apesar de grandioso, o lugar da paixão paradisíaca e cega – na qual o casal se relaciona enquanto arquétipo e não se consegue realmente ver – dará lugar ao cair das ilusões e os amantes separam-se.

Aqui iniciam as tarefas de Psique. Para recuperar Eros, ela busca Afrodite. Desafiando-a para além do possível, a Deusa do Amor impõe-lhe tarefas colossais e cheias de subtilezas. Através delas, a jovem sairá da sua concha de “gota de orvalho” e aprenderá a integrar e suavizar a sua feminilidade abissal, através do desenvolvimento da sua própria estrutura psíquica.

Afirma-se a primeira tarefa: a separação das sementes. À primeira vista, parece uma tarefa fácil para uma mulher. Ordenar, escolher, separar, arrumar. Fazemo-lo todos os dias. Entre listas, tarefas e horários, afundamo-nos na ordem e na separação. Perdemo-nos dentro da tarefa e arriscamo-nos a sentir que preferíamos passar sem ela.

Porém, encontramo-nos perante um desafio de Afrodite. Afrodite, pela sua natureza arquetípica, funciona da mesma forma que as “madrastas más” dos contos de fadas. Ela é o feminino impessoal, a natureza crua da vida que impulsiona a donzela para sair de um lugar de inconsciência ingénua e ser iniciada no Feminino Maduro, na Inteireza e na ampliação da sua consciência. Desta forma, o processo de separação é muito mais do que a exigência de uma tarefa mundana.

É fácil negligenciar o processo de escolha como algo trabalhoso e superficial. Porém, a separação das sementes pede um lugar de separação criativa, de espaço íntimo, emocional e instintivo. As formigas, pela própria natureza, trazem uma qualidade terrena, do mundo dos instintos. Há que saber focar internamente e selecionar, avaliar, peneirar lugares, pessoas, emoções e decisões.

Este é um processo interno, sobretudo, e exige que olhemos para as nossas qualidades com realismo e espírito crítico. Que nos entreguemos à tarefa de resgatar aquilo que importa, chegar aos valores pelos quais caminhamos e confiar nos instintos. O processo de decisão feminino não se baseia, de todo, numa lista de prós e contras. Ele faz parte do processo de aprendizagem, lucidez e discernimento, do qual a intuição é parte integrante. Não se fundamenta em horários e tarefas, mas em saber o que soltar e quando soltar e quando agarrar o que nos serve, o que queremos.

Através da simplicidade discreta e instintiva que nos é dado pelo simbolismo das formigas, resgatamos a capacidade de mergulhar dentro da tarefa, recebendo-a como um lugar de discernimento profundo de quem somos e do que queremos para nós.

Neste processo de seleção criativa, mas tão terrena, começamos a integrar o Feminino Profundo de forma enraizada e não avassaladora, com o qual podemos efetivamente interagir. Ao mesmo tempo, permitimo-nos iniciar num Feminino em conexão e proteção da sua natureza interna, religando-se ao mundo dos instintos e guiando-se pela sua própria voz interior.

Eros e Psique. Afrodite e Psique. Ou não falássemos nós do Amor e da Alma.

 

 Publicado na revista “Vento e Água” nº 24

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT

 

A busca do Criador em mim

A busca do Criador em mim

“Na simplicidade protegida dos primeiros dias após o nascimento de um bebé, o círculo mágico volta a fechar-se, temos novamente a sensação miraculosa de duas pessoas que existem somente uma para a outra, do céu tranquilo refletido no rosto da mãe que amamenta o seu rebento. Porém, é apenas um breve interlúdio (…)”

Anne Morrow Lindbergh, “Dádivas do Mar”

Educar vem do latim educare = instruir, criar, conduzir para fora

Todos temos uma aldeia dentro. Uma aldeia com longas raízes, adentradas naquilo que somos, compostas de avós, bisavós, tios, pais, todos aqueles que nos foram tocando, ao longo da vida, com as suas formas particulares de estar, viver, crer e, por inerência, educar.

Etimologicamente, educar significa (também) criar. Colocar os dedos na matéria-prima de alguém e ajudá-lo a tomar forma, adubar, crescer.

A verdade é que os Criadores que todos somos nasceram das sementes das crianças que um dia fomos e que também elas foram “conduzidas para fora”, germinadas, com a ajuda do toque de alguém. O daqueles que nos cuidaram, melhor ou pior, com toda a sua magnífica humanidade, repleta de sonhos – uns abertos ao mundo, outros estilhaçados -, crenças, medos, vivências felizes e dolorosas.

Ainda que hoje em dia esta aldeia se sinta mais dentro (interiormente) – infelizmente, escasseiam as avós e as suas tardes de bolos e estórias, as tias velhinhas que nos ensinavam artes de costura, as vizinhas de cabelos brancos que nos entupiam de bolachas com manteiga e cacau -, quando abraçamos a belíssima tarefa de educare alguém estas vozes cruzam-se inevitavelmente connosco e, por vezes, podem fazer com que nos percamos do educador que realmente queremos ser, ou da tal intuição que nasce com cada um de nós. Talvez encontremos a rigidez de alguém, a permissividade de outrem, a imaturidade de outro, ou os mini-bullies da nossa infância que nos fizeram sentir (ainda mais) pequenos.

Como seres relacionais que somos todos buscamos afeto, e na relação privilegiada que temos com aqueles cujas vidas, de alguma forma, guiamos, é profundamente fácil enredarmo-nos nas nossas carências emocionais, nos vazios que nos habitam, evocar aqueles momentos passados em que nos sentimos feridos, não escutados, desrespeitados, invisíveis.

Educar implica responsabilidade, e responsabilidade implica clareza, limpidez de olhar, capacidade de auto-mergulho, de escavar no nosso mundo interno. Uma expedição arqueológica em busca dos valores que são realmente os nossos e que queremos legar, da qualidade da nossa presença (aquela que não é transmissível senão no estar), da serenidade possível por entre os desafios com que nos vamos deparando. E que sim, serão muitos, pois assim se constroem indivíduos, se colocam limites, se transmite segurança. Mesmo quando estamos a tremer por dentro.

Não conheço trabalho mais belo, nem tarefa mais dura. Seja-se pai, avó, tio, cuidador, educador, professor, serão muitos os momentos de êxtase puro, de maravilhamento, quando nos damos conta de que todo o esforço, dedicação, cuidado, amor que colocámos de repente desabrocha, num instante mágico…. e serão outros tantos aqueles em que nos sentiremos perdidos, sem rumo, sem forças, abalroados por inseguranças, frustração, desespero.

Como já escrevi algures mais do que uma vez, não há receitas prontas nisto de educar. Não há q.b. de isto, mais uma pitada daquilo que sempre ou nunca resulte. Mas há, isso sim, dentro de cada um de nós a capacidade de se descobrir. De evocar o seu próprio círculo mágico consigo próprio, alumiar esta relação consigo como só nós podemos fazer, dar-se a mão.

E, quem sabe, encontrar as ferramentas, as tais q.b., em cada momento.

Até porque o seguinte ainda vem depois.

 

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE MINDFULNESS EM EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES

Soltar as amarras

Soltar as amarras

 

“O conceito de “eu” ou de “ego”, tem sempre algo a perder e a ganhar, alimenta-se das recordações do passado e das antecipações do futuro, mas não pode sobreviver na simplicidade do momento presente, na consciência plena do agora, que significa a liberdade e o apaziguamento final do conflito, da projeção mental, da distorção, da identificação e da divisão.

Soltar a fixação no ego e deixar de nos identificarmos com ele, permitir-nos-á adquirir uma grande liberdade interior. Uma liberdade que tornará possível que nos aproximemos de todos os seres e que abordemos qualquer situação com naturalidade, benevolência, coragem e serenidade.
Ao não ter nada que ganhar nem nada que perder, somos livres de dar e receber tudo.
.”

Matthieu Ricard

 

Desde que nascemos que somos povoados por histórias cheias de passado, presente e futuro, que forjam o nosso olhar sobre a vida e o mundo. Aos poucos, vamos desenlaçando esse emaranhado de mensagens, mais ou menos subtis, e aprendendo a interpretar, rotular e compartimentar as experiências. Começamos cedo a cartografar e a circunscrever os vastos territórios, dentro e fora de nós. A discernir as forças do bem e as forças do mal, a separar os heróis dos vilões, o certo do errado.

A verdade é que nos tornamos tão hábeis neste processo que, frequentemente, nos convertemos em especialistas na arte da exclusão e da fabulação. Eliminamos excessos, preenchemos vazios, retocamos algumas rugas de expressão e, sem delongas, suturamos a velha pele para nos apresentarmos com um rosto diferente ao mundo, acreditando-nos ainda autênticos e inteiros: eu sou o herói e tu o vilão; eu sou a estrela e tu o figurante; eu sou o sábio e tu o ignorante; eu sou o salvador e tu o indefeso, eu sou a vítima e tu o agressor….

Investimos tanta energia em modelar e manter este personagem que ignoramos, na maioria das vezes, que ele só sobrevive nesta dança de papéis “consentida”, ao compasso da cena e contracena desempenhadas pelos próprios atores. E enquanto isso, nos bastidores treinamos e aperfeiçoamo-nos a criar barricadas para proteger esta identidade forjada pela nossa mente pequena, um ego que gira em torno de si mesmo e que carece de sustentação.

Algumas pessoas enredam-se tanto neste protecionismo e na ilusão de separação que acabam a traçar uma linha intransponível entre o eu e o outro, sob a premissa de que “aquilo que nos diferencia é aquilo que nos separa e exclui”. Criam cortinas de ferro entre geografias, etnias e cores de pele, estratos e ideologias, géneros e identidades. E, com isso, mutilam a própria condição humana, erradicando o valor fundamental da sua existência: o direito a Ser.

Perante a diferença, acresce o seu sentimento de ameaça. O medo do desconhecido acorda a sua vulnerabilidade e expõe a construção frágil da sua persona. Para esta, o outro representa alguém com o poder de tocar, remexer e desarrumar os nossos medos, as nossas crenças, os nossos valores, as nossas sombras e feridas. E fugir ou atacar, é a única saída possível.

Uma das grandes aventuras que podemos empreender é rumar a esse espaço amplo de encontros, afetos e cuidados. Sairmos da nossa zona de conforto para conhecer em maior profundidade os outros e o mundo sem os filtros mentais que distorcem a verdadeira natureza de quem está perante nós, tentando encontrar muito mais a nossa humanidade partilhada do que a rejeição, o ataque ou o temor.

Quando soltamos as amarras do nosso ego, abrimos caminho para pistas mais profundas sobre “quem eu sou”, descobrindo novas facetas de nós mesmos, aspetos de melhoria e desafios a superar. Olhar para os conflitos ou tensões interpessoais na nossa vida pode ser uma excelente oportunidade para investigar preconceitos, rótulos e aversões a que estejamos presos, resistências que tenhamos à mudança, dificuldades para descobrir no outro a sua própria história ou para exercitar o nosso espírito compassivo.

Num mundo marcado cada vez mais pela pluralidade e diversidade, fazendo-se escutar a várias vozes, este pode ser o momento chave para nos aproximarmos com suspensão de julgamentos e mente de principiante daqueles com os quais mantemos uma desafinação constante, deixando que se aninhem em nós interrogações essenciais: Que desculpas limitadoras dou a mim mesmo para não me conectar com esta pessoa? Deteto em mim algum padrão limitador de fuga ou ataque? O que temos ambos em comum? Quem quero ser neste momento com esta pessoa? E que comece a aventura consciente…

 

CÁTIA PINTO
TUTORA DE MASTER EM MINDFULNESS

A Quem Serve o Graal?

A Quem Serve o Graal?

“Não é a resposta que ilumina, mas a questão.”
Eugene Ionesco

Há dias perguntei a um homem: “O que é a casa para o masculino, no teu ponto de vista?” Respondeu-me que a casa era o seu Castelo. O lugar para onde voltava, depunha as armas e se permitia descansar. Um lugar seguro, onde cuidava da estrutura, as paredes, as janelas, a eletricidade e as canalizações. Que resposta profundamente arquetípica!

O castelo de um rei pode e deve estar representado numa casa, mas sobretudo é um lugar. Um lugar de segurança e beleza, um descanso para as armas e armaduras, com estruturas fortes que vão necessitando de atenção, de tempos a tempos. Um lugar interno, onde a alma habite e o guerreiro arquetípico se possa nutrir. Um lugar tantas vezes esquecido e apagado pelas batalhas travadas, pelo atropelamento de tarefas e objetivos que podem ter-se tornado estéreis e esgotantes. Que metáfora mais próxima dessa imagem que não o Rei Pescador e o seu Castelo do Graal?

A lenda do Rei Pescador é, para Robert A. Jonhson, psicólogo junguiano, a própria busca do Self, e um dos temas míticos do masculino arquetípico. Ela fala-nos de um Rei – último guardião do Graal – que foi ferido e que, apesar de não morrer do ferimento, tem a vida limitada e repleta de dor e sofrimento. Como em todas as estórias arquetípicas, existem várias versões para esta ferida. A mais comum é o ferimento numa virilha, impedindo-o de andar e tornando-o estéril. Outra versão conta-nos que ele se queimou ao pegar num pedaço de salmão assado que estava muito quente. Por instinto levou os dedos à boca sentindo o sabor do salmão, algo que nunca mais se esqueceu. A simbologia do salmão está ligada a vários mitos celtas, como sendo o provedor da sabedoria. Neste caso, o Rei Pescador prova o seu sabor sem que possa jamais servir-se dele.

Quem de nós não traz um Rei Pescador ferido, num castelo extraordinário, repleto de cavaleiros e damas resplandecentes, guardando tesouros a que nunca tem acesso?

A ferida da separação chega-nos da “realidade”, das circunstâncias da vida e afasta-nos vezes e vezes sem conta da essência, do sonho, da capacidade de nos maravilharmos com o que nos surge no caminho. E, no entanto, esta é uma etapa fundamental para o processo de individuação. Joseph Campbell fala-nos das três etapas do monomito: iniciação – separação – retorno. Ainda que a iniciação nos traga a força para o caminho, o enamoramento, o fogo, necessitamos separar para conhecer. Sair do útero e entrar na dualidade para retornar em consciência.

Talvez a iniciação – o chamado à aventura – seja esse lugar onde se prova o sabor do salmão, ao qual a ferida nos impede de aceder, mas que fica para sempre na memória. Esse algo maior que nós, tão acessível nas fases primárias da vida – quando sentimos que temos a força para mudar o mundo. Porém, aqui, a consciência é somente fogo e potencial e facilmente se perde no mundo, abandonando a memória do inefável nos baús mais recônditos da memória, não somente porque a vida se impõe, mas porque recordar o fogo abre a ferida de formas insuspeitas.

Entramos na fase de separação e vamos possuindo bens e sucessos, querendo mais, rodeando-nos de luxos que nunca nos trazem o “sabor fresco do salmão”. Interessante o facto de o sofrimento do Rei somente aliviar quando ele está a pescar. Uma tarefa de profunda presença, simplicidade, que acontece na natureza. O contacto com as águas profundas do inconsciente, a Mãe Terra com o seu feminino ancestral e a presença no aqui e no agora. Também aqui se encontram as pistas perfeitas para “aliviar as feridas”.

Contra todas as expetativas, a ferida do Rei Pescador somente pode ser curada pela chegada de um inocente, Parsifal, e pela mais simples das questões: A quem serve o Graal?

O jovem cavaleiro – ainda que saiba qual é – não formula a pergunta na primeira vez que visita o castelo. Não tem consciência, nem maturidade suficiente, para entender que a pergunta contém o que é necessário para sanar a ferida. Como o Rei Pescador, necessita de muitos anos e muita caminhada no seio da separação arquetípica, na qual se envolve em tarefas, batalhas e circunstâncias. E, como a memória do sabor do salmão, guarda consigo a amargura de ter tocado o Castelo do Graal sem ter curado o Rei. Apenas muitos anos mais tarde consegue regressar para formular a pergunta. O Rei Pescador levanta-se, plenamente sanado e o seu Reino regressa à vida.

Todos possuímos um Rei Pescador e um Parsifal internos. Um Rei com uma ferida primordial de separação, buscando a perfeição numa carreira, numa relação, numa vida de luxo, e sentindo que nunca chega, pois somos nós que não nos chegamos. E um Parsifal que, perdendo a ingenuidade, caminha pela vida e pela experiência ganhando consciência de si. O cavaleiro que necessita retornar à inocência para formular a questão. Pois ao encontrar a pergunta certa, já não necessitamos da resposta.

A quem serve o Graal?

Na mais simples das perguntas, encontramos o Retorno. A quem servem as nossas conquistas, conhecimentos e talentos, senão à Vida? A quem servimos nós, senão ao centro, à essência, à Alma, esse grande contentor de sabedoria interna? A mesma fórmula é encontrada na Jornada do Herói, quando regressa a casa transformado. Pois a espada mágica, o elixir da vida, o tesouro, já não simbolizam a conquista e o sucesso, mas somente o Serviço. Nada é válido se não for partilhado com a comunidade. O herói é o contentor do Sacro-Ofício de serviço aos Outros.

É urgente curar a ferida do Rei Pescador. É urgente servir a vida e os seus ciclos. Ganhar consciência de quem somos e aceitar a sabedoria da simplicidade. Voltar a unir a espiritualidade às tarefas simples da vida. É urgente a rendição ao Mistério.
O Castelo do Graal é difícil ser visto, apesar de necessitarmos apenas de “caminhar pela estrada, virar à esquerda e cruzar a ponte levadiça”. Mas ele está mesmo ali, dentro de cada um, visível aos olhos da inocência, da humildade e de um coração puro. À espera da mais simples das perguntas.

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT