A vocação que faz o coração bater mais forte

A vocação que faz o coração bater mais forte

Essencialmente, o nosso propósito de vida é aquilo que de mais importante um ser humano possui, fazendo parte do que somos e conferindo significado à vida de cada um. É crucial descobrir quem somos e o que nos torna únicos e diferentes. Falamos da paixão que pode transformar positivamente não só a nossa vida, mas também a dos que nos rodeiam. É importante encontrarmos a nossa missão na terra e, aos poucos, sabermos estar em paz com ela, fazendo sempre o possível para a cumprirmos da melhor forma.

É nesta área que Vanessa Oliveira atua. Com base na psicologia, centra-se em olhar para as pessoas, acompanhá-las em momentos de dor, crise e perda ou também de renovação, redescoberta, potencial e cultivo de uma relação mais profunda consigo mesmo/a, com a vida e com o mundo. “Os verdadeiros tesouros encontram-se nas profundezas e é por aí que caminho, pessoal e profissionalmente. Essa é a forma simples de falar de uma psicologia com Alma, que vai mais além do aspeto funcional e superficial.”

Conhecida como caçadora de sonhos, sempre perseguiu os seus objetivos com afinco e persistência, nunca deixando o entusiasmo de parte. “Não posso dizer que tenha um sonho… sempre tive muitos, de vários tamanhos e formas. Na infância tinha já uma Bucket List, ajustada à idade e aos meus olhos de criança, mas com sonhos projetados até à adultez.”, confessa.

Formada em Psicologia Aplicada, Psicoterapia e Consulta Psicológica, sempre aliou a ciência aos valor inestimável do lado “menos exato” da vida, tendo atuado em áreas como terapia transpessoal, constelações familiares, mindfullness e soul psychology. Considere que todas as áreas se conjugam na perfeição e que há espaço para os números e fórmulas na mesma medida em que há para a Fé e o Amor. “Existem de facto razões que a própria razão desconhece, ou seja, nem tudo pode ser abarcado pela função da racionalidade, da análise e da lógica.”

Para Vanessa, a reinvenção é parte crucial é indispensável do percurso de vida de alguém, e consigo própria não foi exceção, assumindo “Foi importante para mim viajar sozinha para sítios inóspitos, testar-me e aventurar-me em atividades radicais, inscrever-me em formações em idiomas que não dominava, dizer SIM a várias propostas antes de estar preparada e trabalhar e aprender depois, redirecionar a carreira da área da gestão para a área terapêutica, deixar a efetividade segura para começar projetos desde o zero, e arriscar, arriscar, arriscar, de muitas formas.”

Acredita que uma das fórmulas para a (re)descoberta é marcarmos um encontro connosco mesmos e predispormo-nos a descobrir/reconhecer quem somos debaixo das nossas capas e aquilo que realmente sonhamos e almejamos faz parte do caminho. Descobrir potenciais, recursos, vocações, paixões, crenças limitadoras, estratégias de proteção que já não servem ou traumas, são vias de uma mesma estrada. E como pano de fundo, trabalhar a relação, principalmente, connosco mesmos, pois é isso que vai possibilitar-nos sermos os nossos heróis ou carrascos quando chegarem os obstáculos, os imprevistos, as quedas, e os êxitos.

“Com o tempo tenho-me apercebido de que, salvo raras exceções em que a vocação é incontornável e gritante e “não podia ser outra coisa”, este caminho do propósito assemelha-se mais a um caleidoscópio, com muitas combinações e muitas possibilidades.”, afirma segura.

A Dream Tender acredita que o desenvolvimento pessoal é um caminho acessível a todos, que permite lapidar as arestas e reconhecer- mo-nos na nossa grandiosidade e na nossa pequenez, como seres humanos que somos, com potenciais para cumprir, recursos, forças insuspeitadas a puxar-nos e a suportar-nos, assim como sofrimentos e vulnerabilidades comuns. Todos queremos o mesmo: sermos vistos, reconhecidos e amados. Isto porque há algo que nasce connosco, apesar de haver também muito para trabalhar, enriquecer e aprimorar e barreiras para ultrapassar. Tudo isto se consegue com coragem, paixão e crença. “Não é um caminho fácil, mas é um caminho extraordinário. A outra opção, é viver sem se sentir realmente vivo.”

Em relação a uma Mulher rumo à Liderença, Vanessa Oliveira acredita que há sempre lugar para nos conhecermos melhor e nos darmos conta da dimensão infinita do que temos dentro. “Pode-se dizer que o caminho do desenvolvimento pessoal é um verdadeiro mar de rosas, porque tem essa beleza e perfume especiais e também uma série de espinhos onde nos ferimos com regularidade. (…) De forma construtiva, saber mais de quem somos, ajuda-nos a tomar boas decisões, a agarrar as rédeas da nossa vida e a retirar peso ao que vem do exterior e que muitas vezes sufoca aquilo que há em nós de mais precioso. No caso das mulheres, especificamente, permite-nos ocupar novos lugares na vida e no mundo, e ocupá-los honrando a nossa verdadeira natureza, sem tentarmos dar passos masculinizados para “vencer” nem cairmos na narrativa comum da desvalorização do tanto que aportamos, e da maneira como o fazemos. Esse desenvolvimento pessoal permite-nos também aprender a suster as constantes e irrefreáveis exigências externas (que depois se tornam internas) e os perfecionismos debilitantes e castradores. Uma mulher que aprende a amar-se, que sabe ser e aparecer vestindo a sua própria pele e temperamento, que não precisa de chegar a todo o lado para se sentir suficiente, e que se apercebe daquilo que para a sua Alma é “inegociável”, transforma todas as transições em momentos de dança, plenos de significado”, terminando com a citação de Agostinho, que apelida de “extraordinária”: “Tem a coragem de não te recusares ao Milagre de Ti próprio.”

Artigo publicado na Revista Liderança no Feminino

VANESSA OLIVEIRA
DIRECÇÃO EDT

 

 

As Primeiras Colheitas – regressar a nós

As Primeiras Colheitas – regressar a nós

Instruções para viver uma vida.

Presta atenção.

Espanta-te.

Conta sobre isso.

Mary Oliver

A quietude do tempo quente assemelha-se, em certa medida, à quietude dos meses de frio intenso, com o seu silêncio profundo que se entranha na pele. Se no inverno a natureza se rende ao movimento da descida e permanece nas suas profundezas, enquanto aguarda a vida que se mexe no invisível, convidando-nos a regressar ao corpo, aos lugares de quietude e à essência, o Verão convoca-nos a saborear os frutos do trabalho intenso em longos processos de contemplação.

Permanecer numa cadeira de baloiço, semicerrando os olhos com a carícia da brisa quente, e deixar que a explosão das cores, a dança constante das borboletas e a leveza bamboleante das abelhas permutem o nosso habitual espaço físico e mental de movimento. Ou deitar na praia, com a luminosidade do sol que nos adormece os sentidos e a frescura do mar salgado que limpa tudo o que não seja o agora.

Há uma certa sonância no Verão, uma espécie de melodia que desponta do próprio calor, do canto das cigarras e de uma paragem peculiar que surge do auge de um movimento. O calor intenso é, na verdade, a lembrança da diminuição dos dias e o breve retorno à descida.

Estas são as primeiras colheitas, os espaços da abundância, da cor e do sabor dos frutos. Elas fazem-se com o reconhecimento do árduo trabalho dos meses que a precederam, a gratidão pelo tanto que se colhe, e o respeito pelos tempos de descanso. Não se colhem cereais, ou frutos, no calor das três da tarde.

Para a grande maioria de nós, a colheita parece chegar diretamente do supermercado e as chamadas férias são limitadas a datas no calendário, sujeitas a ritmos escolares, tipos de trabalho e combinações prévias. A desconexão é grande e maior se torna quando não trazemos estes lugares dentro, seja através de vivências reais ou de experiências simbólicas internas. Pode não ser viável estar em contacto com os ritmos numa experiência viva de perceção, mas a vida acontece, as estações sucedem e são vividas por nós, consciente ou inconscientemente. Trazemos dentro o mito e este é a linguagem simbólica da própria Terra.

O labor exigente das estações anteriores leva à necessidade de parar. O calor pede-nos desaceleração e tempo para a colheita. Nada cresce quando remexemos incessantemente na terra, sem dar espaço e tempo aos arbustos para que se transformem em árvores, floresçam e deem fruto. Isto serve para a fruta que nos alimenta ou para os frutos do nosso trabalho pessoal, do empenho no emprego ou a busca de melhoria das relações com os outros.

Tudo aquilo em que se labora necessita de tempo e espaço para que a obra seja contemplada. É na paragem que percebemos as distâncias que foram percorridas, as mudanças que se operaram em nós ou o quanto uma relação cresceu. A colheita e a gratidão pelo que se colhe é parte do grande processo de transformação da Vida. Sem que aconteça, não esvaziamos e não permitimos que surjam novos lugares internos, novos processos de consciência e labor.

Esta fase – a colheita e a gratidão – é também uma das partes mais esquecidas numa sociedade muito pouco conectada com os ritmos da existência, sejam estes internos ou externos. Nestes lugares por onde caminhamos, torna-se status trabalhar até à exaustão e não celebrar colheitas e conquistas, ou dar espaço para pousio e contemplação.

Somos impelidos a funcionar de igual maneira em qualquer altura do ano, seja um tempo de recolhimento, de trabalho árduo ou de contemplação e abundância. Fazemo-lo também, em qualquer momento interno, seja de alegria extrema, de luto ou de vulnerabilidade física. E deixamo-nos queimar incessantemente, como se permanecêssemos ao sol das três da tarde, nos meses de calor. Nunca existiram tantos fenómenos de esgotamento, como nos dias que correm.

Se a quietude do Inverno nos pede espaços de recolhimento, sonos longos e silêncio, o Verão pede lugares de contemplação e balanço. Gratidão pelas colheitas, ainda que possam não ter correspondido a expetativas e ilusões que colocámos. E, sobretudo, espaço para que estas aconteçam, para que nos demos conta das mesmas. E saboreemos os frutos.

Talvez este lugar de expetativas goradas, que por vezes surge no momento de colheita, seja também o derradeiro lugar de crescimento, atualização de quem somos e fonte de aprendizagem sobre as formas como nos atraiçoamos a nós mesmos, nos sentimos atraiçoados ou simplesmente nos esquecemos de quem éramos. São, por isso, fonte da sabedoria e transformação. Há que honrar também estas colheitas, na medida que nos trazem de volta a quem somos. Que nos permitem escolher a vida. Isto também se chama amor.

Parar e contemplar é abençoar a safra, esvaziar verdadeiramente, criando espaços vazios que possam ser cheios com o apelo a novos passos no caminho, centelhas criativas de trabalho, de relações, de partilha, de quem somos.

Enquanto espaço de contemplação, nada nos enche tanto como a natureza. Ela tem a sua própria forma de nos preencher. Ela providencia alimento, beleza, lazer, frescura, alegria, comoção, inspiração. Desperta-nos os sentidos e recoloca-nos perante o tanto que nos é dado e o tanto que somos. Coloca-nos em contacto com o nosso Feminino Selvagem, indomesticado e recetivo.  E torna-nos contentores da sua sabedoria.

Regressamos a nós quando regressamos aos ritmos da Vida que acontece. Quando escutamos verdadeiramente o nosso lugar no mundo. E nos rendemos à sabedoria do chão que nos sustenta e acolhe.

Artigo publicado no nº 37 da Revista Vento e Água

ÉLIA GONÇALVES
DIRECÇÃO CRIATIVA E DE PROJECTOS

 

 

A Forja de Hefesto – o processo de soul-making

A Forja de Hefesto – o processo de soul-making

“Alguém que eu amava deu-me, uma vez, uma caixa cheia de escuridão. Demorei anos a entender que, também isto, foi um presente.”

Mary Oliver

 

Hefesto é talvez um dos deuses mais paradoxais do Olimpo arquetípico. Filho de Hera – em grande parte das versões nasce por partogénese – tem uma aparência que destoa da beleza habitual dos outros deuses. Vem com um defeito num dos pés e um rosto grotesco. Esta diferença tão chocante fá-lo ser rejeitado pela mãe e atirado do alto do Olimpo até às profundezas do Oceano, garantindo-lhe, para além dos defeitos de nascença, uma série de outras cicatrizes.

Acaba por ser encontrado por Tétis, após nove dias e nove noites, que o cria na ilha de Lemnos, uma ilha vulcânica repleta de cavernas, numa das quais ele cresce. É aqui, por entre a rocha e o fogo, numa ilha que canta às vísceras da Terra, que Hefesto desenvolve o seu talento e constrói a sua forja.

Já adulto, consegue um lugar entre os deuses do Olimpo e casa com Afrodite, em algumas versões por exigência sua, noutras, por exigência de Hera numa tentativa de insultar a deusa da beleza. A bela Afrodite não o contestou e há quem diga, até, que ela o escolheu. Pois que um artista não cria sem a musa, nem a musa sobrevive sem a arte que ela inspira. Existem, no entanto, outras versões nas quais Hefesto seria consorte de Charis (a Graça), também ela um lugar de inspiração intensa.

Torna-se, desta forma, o ferreiro do Olimpo e os mais importantes artefactos dos deuses surgem pelas suas mãos, tais como o carro de Apolo, os arcos e flechas usados por Apolo e Artémis ou o cetro de Zeus, entre muitas outras armas e joias de valor e beleza inestimáveis. Não sendo um deus que tenha popularidade ou apreço por parte dos outros deuses, ele ganha respeito através do seu trabalho, mostrando que não é a perfeição que produz arte, ou beleza.

Hefesto é o deus imperfeito, o que carrega as feridas, o excluído. E, no entanto, é também o criador, o artesão, o senhor da forja, do trabalho e da criatividade, o mestre do fogo e dos metais. Ele tem acesso ao magma da própria terra e com ela opera o trabalho alquímico no fogo que vem das entranhas e das profundezas. O seu lugar é escondido, silencioso, tal como a caverna da forja, um lugar vulcânico, fechado e secreto. Envolve trabalho, esforço, paciência e maleabilidade.

A imperfeição de Hefesto, as suas feridas e cicatrizes tornam-se o chão onde algo novo se constrói. A perfeição não cria, não molda, não cresce. Só o imperfeito, o que carece e tem espaços vazios pode almejar à busca, à transformação, ao florescimento.

O deus da forja ensina-nos, então, a utilizar as feridas como húmus para o que em nós quer ser criado. Ele sai do paradigma ocidental da dualidade, da cura ou da erradicação do que não é belo, para o trabalho de alma.

Este é um processo de interiorização, no qual tudo é matéria bruta a pedir para ser lapidada. É esse o lugar do artesão. Perceber o mundo, as estórias pessoais e o que nos coube viver como uma fonte inesgotável de criação. Pode não ser valorizado porque não é glamoroso. É necessário o submundo, o tempo, a solidão e a presença, a compaixão e o trabalho árduo para forjar a partir do fogo da alma, pegar nas estórias, feridas e memórias e permitirmo-nos trabalhar numa forma. Não há um lugar de superação no processo da forja. Ela pede-nos somente, mas implacavelmente, a expressão mais real e presente de quem somos. Necessita das mãos, do labor, o lugar que em nós serve de ponte entre a alma e o mundo. E o ato de lavar, dobrar, cozinhar, pintar, escrever, tecer, esculpir e transformar o que é dor em matéria – imagem é o puro potencial da forja de Hefesto.

É também essa a essência do chamado trabalho da sombra. O desconhecido em nós, aquilo que rejeitamos e excluímos – por não aceitarmos o imperfeito, ou por puro desconhecimento – é, como Hefesto, atirado da luminosidade do Olimpo e dos Deuses (ou arquétipos) em nós para as profundezas do inconsciente, onde não é visto, mas entra em contacto com o fogo selvagem da própria alma, o lugar psíquico de nos forjarmos a nós mesmos. A sombra é, por isso, a matéria-prima, o potencial que pede para ser moldado, reconhecido e manuseado. É nas profundezas que reside o caldeirão alquímico onde podemos transmutar emoções em criações. Forjamo-nos pela capacidade de ser tocados pela vida, de pegar nas nossas circunstâncias e manuseá-las no âmago da existência. Transformar a dor em dom, trazendo vida e beleza ao que, aparentemente, parecia grotesco e defeituoso. Somos sempre o material mais extraordinário a partir do qual nos construímos. Nas palavras de James Hillman, este é o grande processo de soulmaking (fazendo alma).

ÉLIA GONÇALVES
DIRECÇÃO CRIATIVA E DE PROJECTOS

 

 

Inteireza no feminino – o lugar dos ossos

Inteireza no feminino – o lugar dos ossos

“Ela é uma floresta selvagem e emaranhada, com templos e tesouros escondidos no interior.”

John Mark Green

 

Muitas vezes, quando começo a falar do feminino, surgem-me as palavras colo e abraço. Sinto que a mulher tem este lugar intrínseco, enraizado na biologia, na alma, que é o de encontrar espaço dentro de si para embalar, nutrir, escutar, cuidar, um gesto que lhe é natural e, na maior parte das vezes, inquestionável, até (ou principalmente) por ela mesma.

Mas na poesia bonita que carregam estas palavras esquecemo-nos dos pedaços rasgados, remediados com fita-cola, que os diários das nossas vidas vão coleccionando, os momentos de profundo cansaço, ou de esquecimento de nós mesmas, que este lugar intrínseco por vezes comporta.

Diz-se na cultura popular que para cuidar de uma criança é preciso uma aldeia, só que as aldeias ficaram algures entre a serra, o campo ou a maresia, longe demais dos nossos beirais.

Para cuidar de uma mulher é preciso ela mesma, mas tantas vezes andamos perdidas, medindo passos e contando horas que não nos sobram – ou não nos permitimos – bocados para enterrar os dedos na terra e cheirá-la, fechar os olhos e escutar os murmúrios do corpo, contar as nossas estórias a alguém que as (só) escute, dançar ao ritmo do que pede a alma.

A vida real, a de todos os dias, vai deixando sulcos neste caminho para a inteireza da autoescuta e da autonutrição. Vai-nos sussurrando que não há tempo para tudo, que há muito para arrumar antes, que a mulher é independente (ai, essa palavra com que eu tanto enchia o peito pelos vintes e trintas!…), que é capaz de tudo sozinha.

Mas há sempre escolhas e preços a pagar. Os ossos que deixamos pelo caminho, em lugares onde secalhar não nos apercebemos. Ou onde sentimos que os outros trilhos estavam intransitáveis. São os afectos, as emoções, a vulnerabilidade partilhada, a coragem de pedirmos ajuda, o colo onde podemos encostar a cabeça e deixar a barragem desfazer-se. Ossos subtis, menos visíveis, em lugares sensíveis, que causam dor. Onde se perde vida, conexão, amor.

Nem sempre os passos nos levam por onde o sonho comanda (a vida). Nem sempre o sonho nos leva onde pensávamos ir dar. Mas acredito que há um momento, às vezes fugaz e ao qual não prestamos atenção, outras um sinal bem audível no peito, em que nos apercebemos que há mais para viver e sentir do que este vaivém de tarefas encadeadas e amparo ao outro. Há um momento, ou vários, em que esta floresta que levamos dentro, selvagem e emaranhada, se abre para que encontremos os nossos templos onde orar. Num convite à travessia interna, à nossa estória pessoal, às encruzilhadas onde perdemos as nossas ossadas, para que neste revisitar possamos despedir-nos do que já não nos cabe na vida e voltar a encher-nos com o que ainda faz sentido.

Para mim, é comum encontrar-me com estes lugares sagrados dentro do círculo (de mulheres); escutar estórias de vida de outras mulheres é mergulhar na minha própria alma, em quem sou, no que me constrói e alicerça. É sentir a teia de que falo tantas vezes estremecer, sendo tocada, estreitar-se e alongar-se, olhar sem medo a floresta de outrem enquanto percorro também a minha, nutrir a minha alma. Sentir-me enriquecer.

Não há muitos espaços, no quotidiano, onde encontrar uma escuta silenciosa, um ressoar dos tambores internos, um colo, um olhar inteiro que nos permita, apenas, espelhar as nossas palavras e o nosso sentir.

Estamos muito cheias de coisas e muito vazias de nada. Do nada de que o feminino se alimenta, o não-fazer, o vácuo, o prazer por si só, sem querer chegar a lado nenhum nem descobrir nada. Dançar na sala só porque a música é boa. Perdermo-nos num livro de contos e encontrarmos também os nossos. Ficar no sofá só porque.

Porque sim, sem mais.

E nesse sem mais, encontrar o muito mais de que somos feitas.

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES

 

 

Ousar Ser Grande – Gabrielle Roth

Ousar Ser Grande – Gabrielle Roth

Gabrielle Roth – A Xamã de New York
 
Hoje trazemos a história da mulher que ganhou o título de Xamã de Nova Iorque. Nascida em S. Francisco, EUA, foi bailarina e criou o movimento “5 Rhythms – the wave dance”, uma metodologia que traz a dimensão da Alma para o movimento da dança.
 
Desde muito jovem que Gabrielle sentia dentro de si uma fome tormentosa em relação aos ritmos do espírito. Isto fez com que procurasse uma ligação a Deus, e desta forma pediu aos seus pais, aos 6 anos, para ingressar numa escola católica. Foi aí que viu pela primeira vez uma bailarina e aos 7 anos iniciou-se no ballet.
 
O pecado, ou a noção de pecado, os impulsos do corpo como algo errado, a urgência do espírito para um lado mais “selvagem” colidiam com a rigidez do hábito negro das educadoras.
 
Na sua adolescência habitava dentro dela uma dualidade entre o impulso selvagem de viver que o corpo lhe pedia e as contrições a que a mente apelava. O corpo pedia liberdade e mente trazia a culpa por vivê-la. Assim foi vivendo a sua vida, neste balanço, somando experiências que colidiam profundamente com os hábitos católicos. A dança era o seu mundo, mas sentia que nela não se expressava a sua Alma.
 
Depois de terminar a faculdade uma lesão no joelho, já recorrente, impediu que o sonho da dança fizesse parte da sua vida – “senti-me perdida, como se tivesse sido apagada do meu próprio sonho”. Uma amiga, dedicada ao desenvolvimento pessoal, em Esalen, California, convidou-a para ingressar num curso seu, de massagem. Aí Gabrielle cruzou-se com Fritz Perls (psicoterapeuta que desenvolveu a abordagem Gestalt), “o génio que me resgatou”. Começou a dar aulas de dança, como forma de exercitar o corpo, nos grupos de terapia de Fritz e, para sua surpresa, à medida que as aulas iam decorrendo foi percebendo que duas horas de movimento eram tão fortes como 2 anos de divã – “o corpo não consegue mentir! Coloca-o em movimento e a verdade virá à tona”.
 
“Numa noite quente de lua cheia, um ritmo irresistível atingiu-me até ao amago. Não pude evitar o seu chamado. Pela primeira vez em meses comecei a movimentar-me. Esqueci-me do meu joelho. Esqueci-me de tudo, exceto do ritmo. Sob o seu encanto entreguei-me sem me apegar a nada, a absolutamente nada. Perdida no espírito da dança, encontrei um atalho, um atalho dançante, que me levou ao lugar mais profundo e mais vivo em que jamais estivera. Deus estava a falar-me sem dizer uma palavra”.
 
A partir daqui Gabrielle explorou em si esta dança de êxtase, que fez com que ela descobrisse que a “Alma não estava perdida, mas sim enterrada no fundo dos seus ossos, empurrada para baixo por seculos de tradições destinadas a controlar os nossos anseios naturais em direção ao êxtase” e tornou-se determinada a encontrar o fluxo de energia de cada pessoa.
 
Assim foram nascendo os movimentos que originavam a prática 5 ritmos, mais do que uma forma de trabalhar o corpo – uma forma de trabalhar a Alma.
 
#ousarsergrande #inspiração #corpo #dança

 #ousarsergrande #rubrica #dream #sonhos #coragem #edt #ser 

OUSAR SER GRANDE – GABRIELLE ROTH

 

 

O lugar da Compaixão – o resgate de Inanna do submundo

O lugar da Compaixão – o resgate de Inanna do submundo

“(…) O kurgarra e o galatur escutaram as palavras de Enki

Foram até ao submundo

passaram pelas portas como moscas, através das frestas dos portões

Entraram na sala do trono onde estava a rainha do submundo

Não havia linho sob o seu corpo

Os seus seios permaneciam à mostra

O seu cabelo encaracolava-se na cabeça como palha

 

Ela estava a chorar: Oh, o meu interior

Eles choraram: Oh, o teu interior

Ela chorou: Oh, o meu exterior

Eles choraram: Oh o teu exterior

Ela gritou: Oh, a minha barriga

Eles gritaram: Oh, a tua barriga

Ela gritou: Oh, as minhas costas

Eles gritaram: Oh as tuas costas

Ela gemeu: Oh o meu coração

Eles gemeram: Oh o teu coração

Ela chorou: Oh o meu fígado

Eles choraram: Oh o teu fígado

 

Ereshkigal parou.

Olhou para eles

– Quem são vocês, chorando, gritando, gemendo comigo?

Se são deuses, abençoo-vos

Se são mortais, dar-vos-ei um presente

Dar-vos-ei água como presente, o rio está cheio

 

O jurgarra e o galatur responderam:

– Não desejamos isso

 

Ela disse: Dar-vos-ei trigo como presente, os campos estão para a colheita

O jurgarra e o galatur responderam:

– Não desejamos isso

Ereashkigal disse:

– Falem então. O que desejam?

Eles responderam:

– Desejamos apenas o corpo pendurado num gancho na parede

 

Ereskhigal falou:

– O corpo pertence a Inanna

Eles responderam:

– Quer pertença à nossa rainha,

Quer pertença ao nosso rei,

É aquilo que desejamos

O corpo foi-lhes oferecido

 

O kurgarra salpicou o corpo com o alimento da vida.

O galatur salpicou o corpo com a água da vida.

Inanna ergueu-se.

 

– A Descida de Inanna –

 

O mito de Inanna, escrito em poema e com inúmeros capítulos, tem na Descida e, especialmente, no resgate do seu corpo, morto por Ereshkigal, uma das passagens mais belas de toda a trama.

Ao saber da morte de Gugalana, marido de Ereshkigal, a rainha do submundo, Inanna, deusa dos céus e da terra decide descer os sete portões do mundo de baixo para ir ao encontro da sua irmã. Em cada portão é despida de um dos ornamentos reais e entra no submundo como a mais comum dos mortais, nua e curvada. Ereshkigal, repleta de dor e raiva, olha-a com os seus “olhos de morte”, grita-lhe e bate-lhe, matando-a e perfurando-a com um gancho que pendura numa parede.

Com a ajuda de Enki, deus da sabedoria, da água, da fecundidade e da criação, que a partir da terra e da sujidade das suas unhas cria estes dois seres assexuados e pequenos, galatur e kurgarra descem ao submundo e, fazendo eco dos soluços de Ereshkigal, conseguem conter o fluxo de dor e raiva da Deusa e, dessa forma, resgatar Inanna.

Só a partir daí a deusa dos céus e da terra é salpicada com o alimento e com a água da vida, podendo erguer-se novamente.

Sempre que leio sobre kurgarra e galatur, recordo-me das carpideiras, chorando lamentos e gritos de dor que ecoam com as dores de todos os que choram a perda de um ente querido. Que lugar é este, de onde vêm estes pequenos seres, cuja função é sentar-se com a Deusa do submundo e espelhar empaticamente as suas dores e lamentos? E qual o grande tesouro que encerra este ato, que permite à Deusa sair do seu próprio pranto e olhar em volta? Como é que o sentar-se e permanecer junto da dor, nossa ou do outro, permite saídas que, por vezes, o esforço para nos tirarmos desse mesmo lugar não trazem?

Compaixão vem do latim compassione ou compassio.onis, e significa sentimento comum, ou a capacidade de sentir com o outro. Sintonizar e ressoar com que o outro diz, com o que sente, com o lugar interno onde está. Ainda que isto pareça relativamente simples, entrar num estado compassivo requer disponibilidade e esforço real. A compaixão exige presença, um processo de abertura e recetividade em que a curiosidade verdadeira e a vontade de escutar a história do outro nos coloca num contexto relacional de reciprocidade da condição humana.

Mais difícil ainda é encontrar um espaço dentro de nós em que, sem querer mudar o outro e as suas circunstâncias (algo perfeitamente humano, pois queremos genuinamente apartar o sofrimento alheio), nos disponibilizamos a permanecer no aqui e no agora, com aquilo que há. Suster o momento com tudo o que ele acarreta permite que, nesse espaço, o outro possa sentir-se visto e reconhecido sem que seja necessário mudar nada. Haverá algo que possamos querer mais do que ser vistos, reconhecidos e aceites pelo que somos, onde estamos e pela forma como sentimos em determinado momento?

A compaixão profunda requer, naturalmente, a presença do mistério. A confiança no Mistério. Não podemos ser compassivos sem “sentir com”. E isso implica expormo-nos, também, ao que há no momento, aceitando receber e ressoar com dores que, por vezes, são tão nossas que nos impelimos a fugir delas. Defendemo-nos da dor, dos nossos traumas pessoais, tentando retirar o outro do lugar onde está e, dessa forma, afastando-nos cada vez mais dele e de nós mesmos. Talvez por isso, galatur e kurgarra sejam seres feitos de terra, que tudo acolhe e onde os lugares de submundo e escuridão, mais do que dor e medo, acarretam útero, colo e vida.

Quão sagrado é o ato de nos abrirmos à vulnerabilidade do outro, com tamanha plenitude que nos permitimos ser tocados por ele? De ficar. Permanecer e acolher, em escuta verdadeira, silêncios doces e lágrimas partilhadas os lugares de verdade de cada um de nós? Este é o lugar onde os milagres acontecem, uma vez que a compaixão invoca um estado psicofisiológico que permite que aquele que está mergulhado na dor se sinta visto e, por isso, se abra a novas possibilidades de ver o mundo.

Assim nos diz Ereshkigal, cujo eco compassivo de galatur e kurgarra, amainou a sua dor a ponto de ela querer presenteá-los. Sob o ato de testemunhar em verdade, escutar e ecoar com a dor, foram abertos caminhos para que esta, no tempo certo e ao sentir-se escutada, possa olhar em volta e ganhar outros contornos, encontrando semente, onde antes era somente escuridão.

 

“Amar é tocar com amor as coisas que anteriormente tocámos com medo.”

Stephen Levine

 

 

Publicado no nº32 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
DIRECÇÃO CRIATIVA E DE PROJETOS EDT