O Encontro com a Velha – a iniciadora de processos

O Encontro com a Velha – a iniciadora de processos

“E a menina estremeceu.

– Avozinha, eu venho pelo fogo. A minha casa está fria… O meu povo vai morrer… Eu preciso de fogo.

Baba Yaga retrucou:

– Oh sim, eu conheço-te bem e ao teu povo. Bem, sua criança inútil… deixaste o fogo apagar-se. Isso é uma coisa muito imprudente de se fazer. E, além disso, o que te faz pensar que eu deveria dar-te a chama?

Vasilisa consultou a sua boneca e respondeu rapidamente:

– Porque eu pedi.

E Baba Yaga ronronou:

– Estás com sorte, essa é a resposta certa.”

 

Baba Yaga é essa figura mítica tão conhecida do folclore eslavo onde habita o arquétipo da “velha”, não propriamente a avozinha doce e nutridora que nos cuida e protege, mas um espírito meio selvagem, solitário e desconcertante que nos convida a situações de desconstrução, transgressão, novos olhares perante a vida ou perdas de ingenuidade. Cada uma das circunstâncias onde somos colocados pela sua mão apelam a momentos de iniciação.

O arquétipo da velha é comum a toda a mitologia do mundo, assim como a sua aparência meio descuidada, e o rosto assustador, seja ele por ter só um olho, dentes afiados ou feições de cores azuladas.

Na Escócia encontramos neste arquétipo as “bruxas da tempestade” forças da natureza que personificam tantas vezes elementos destrutivos, por vezes ligados ao vento. A Cailleach irlandesa está relacionada com os fins de ciclo e das colheitas, o frio e a soberania, pois ela é, também, a iniciadora e modeladora da terra, desde o início dos tempos. Em tantas outras tradições, a velha recoleta ossos e é muitas vezes vista cercada de pilhas deles.

Talvez devido ao seu aspeto pouco polido, às questões desconcertantes ou aos convites que nada têm de suaves, a velha tem sido remetida para a “bruxa má” ou a “velha louca”. Em verdade, ela não apresenta rigorosamente nada que o mundo racional, ordenado e linear valorize. Não é produtiva, não luta por status e não ostenta a beleza da juventude, tão fortemente cultuada de forma obsessiva e vista como fonte de poder.

Não cai nos dramas da vida comum e, ao nosso olhar, parece tirar um gozo particular das nossas tragédias, incertezas e confusão. Ri-se quando choramos, aparece quando não é esperada e dá-nos tarefas impossíveis.

Mas a Velha, essa que nos soa a louca, é a grande Iniciadora de processos, a portadora das histórias, aquela cuja sabedoria profunda foi alimentada pela experiência e vê para além de uma só versão. Ela é a guardiã de portais, um espírito limiar, vive entre mundos e não se deixa guiar pelo comum. Ela sustenta o paradoxo, cuidando da vida quando a morte vem. Mantendo a roda a girar, quando a vida necessita de tempo para morrer e renascer. Ela preenche o vazio entre os velhos ciclos e os novos. E ensina-nos a abrir mão do que está a ir.

Na presença da velha, sente-se a noite dos tempos, os grandes sacrifícios, as perdas e a alma do mundo. Ela habita o penhasco, a neblina, a floresta densa, as ondas furiosas. Caminha nas pedras e nos sulcos de neve.

E nas suas tão estranhas perguntas desconstrói-nos dos modelos que nos destroem lentamente. Nas impossíveis tarefas permite-nos o espaço necessário para que novos trilhos se abram. Nas suas gargalhadas fortes, relativiza os dramas pessoais perante a grande história e tudo o que vive. 

Pois na verdade, ela aparece quando as chamas se apagam, quando as crianças se perdem na floresta, quando as donzelas estão prontas para se tornar mulheres. Nas grandes histórias é ela, a Velha, na sua presença complexa e pouco compreendida, que molda e orienta o rumo das personagens centrais. A sua grande compassividade é o lugar da Iniciação. Aprender a largar o que findou. Transgredir o “obvio”, o arrumado, previsível, para encontrar o lugar criativo de quem somos. E permitir que o trabalho e a astúcia se transformem nas vestes da maturidade para os ciclos que virão.

Afastada do sol e da leveza do calor, a Velha é o Inverno que chega e nos obriga a criar ninho. A tempestade que destrói, mas que reforça o rio. A chuva que molha e que nutre. A crueza da vida, no seu infindo abraço.  A memória do que foi esquecido e carregamos em saudade.

Artigo publicado na Revista Vento e Água nº 39

ÉLIA GONÇALVES
DIRECÇÃO CRIATIVA E DE PROJECTOS

 

 

Encontrar Vida no Caos – o mito nas pequenas coisas

Encontrar Vida no Caos – o mito nas pequenas coisas

O momento de perceber a realidade concreta como uma realidade interna, como uma imagem da alma, é um momento intemporal, quando o mundano encontra o divino. Este é o processo de soulmaking.

Marion Woodman

 

Ainda me recordo de quando Setembro era o meu mês favorito. A minha consciência cíclica era visceral e não cognitiva. O ansiado verão estava nos últimos dias e a praia, onde eu habitava durante as férias, via-se vazia e em silêncio. Ainda se mergulhava nas manhãs em que o calor o permitia, mas já pouco importava se vinha o frio. Era tempo de caminhar na areia, de contemplar, de estar com os poucos que também ficavam para os últimos dias. De alguma forma, almejava-se já pelo regresso a mangas compridas e dias de casa e lareira. A escola, lugar detestado há tão poucas luas, era um espaço de saudade. Reencontrar amigos, o cheiro dos livros novos e o material escolar.

Estava longe da burocracia, da ansiedade pesada do regresso, das compras e das tarefas para que a vida continuasse. O meu processo era mítico. Uma imagem de alma que se entranhou na pele, a ponto de eu verbalizar, durante anos e anos a fio, que Setembro era o meu mês favorito. Continuei a fazê-lo mesmo depois de estar longe do cheiro das marés vivas, das trovadas secas e das primeiras chuvas. Mesmo quando a paragem, as caminhadas e uma suave reentrada no mundo foi substituída pela correria, pela burocracia e pelos inícios laborais violentos.

Muito mais tarde percebi que este Setembro antigo e intemporal, lento e carregado de pequenas imagens, fossem elas cheiros, cores ou abraços, era para mim um mito vivo, um lugar de alma, o sagrado das pequenas coisas a carregar de energia a minha vida.

Para o processo de soulmaking – o extraordinário ato de vivenciar o mito nas ações mais simples da vida – a pressa, a rigidez mental e a sobreposição de tarefas tornam-se um problema.

O outono dá lugar a um deixar cair de folhas, às chuvas que trazem de volta vida a tudo o que cresce debaixo do solo e pede um reajuste nos tempos, na energia a despender e até na luminosidade dos dias. A vida cíclica pede-nos o trabalho necessário para a preparação do inverno. Mudança no vestuário, o abrir armários aos casacos e mantinhas de sofá, o voltar às sopas quentes ou às lãs que tricotamos.

A estas tarefas ainda um pouco poéticas e floreadas, acena-nos a bomba da realidade. O regresso ao trabalho, a reentrada das crianças na escola, os materiais a comprar, os projetos para iniciar, os horários, as expetativas, o novo e o velho a quererem ser vistos e ganhar espaço. Um cansaço que se entranha em nós como se o descanso das férias não tivesse surgido. Uma corrida que parece inimiga do corpo e da estação, que se pede mais lenta talvez, e mais focada.

Paradoxalmente, a estação requer trabalho. Ainda a colheita e o guardar, o arrumar e preparar. Um labor externo intenso, tantas vezes sem espaço para o interior. Um labirinto sinuoso por entre trilhos e viragens, sem saber onde chegar e sem poder ficar parado. Trabalhamos reinícios sentindo a presença dos fins de ciclo.

Será este cansativo paradoxo que nos prepara para o Inverno? A energia necessária para suster a densidade das descidas, as noites escuras e o recolhimento? Pois há partes de nós que só crescem no escuro, e precisamos, inegavelmente, de lhes dar espaço e amor. Trabalhar e parar, laborar e abrandar. Caminhar sem rede nos fios emaranhados da vida mundana.

Uma coisa é certa. Há mais cansaço quando o mito se vai, quando o significado se retira e a vida se constrói somente de tarefas. O que mantém a alma viva, quando a intensidade dos dias nos faz perder de vista a nós mesmos e a vida a acontecer?

Há que agarrar o mito, ainda que no caos. Agarrar no peito as imagens da alma que nos alimentam os dias de Outono. Quais os mitos vivos que nos embalam, que transformam dias longos em momentos intemporais?

O cheiro das castanhas assadas que começam a chegar? O chá quente nas mãos ao som das gotas de chuva na janela? O cheiro da terra molhada que invade cada pequeno centímetro de sensibilidade porosa dos nossos sentidos? Um certo poema que nos recorda a eternidade efémera da vida? O que nos constrói a alma quando tudo o resto parece perder-se por entre as horas do dia?

O mito “move-nos”, ativa emoções e metáforas intemporais. Sussurra-nos estórias em silêncio, sem construção necessária e com movimento interno. Não nos retira do lugar, mas dá-nos chão, pertença e sentido. Uma mitologia viva não nos pede que construamos catedrais, mas que olhemos para as pedras do caminho e possamos encontrar nelas as catedrais de todos os tempos, as canções que já não são escutadas, e que contam a história de todos os outonos do mundo e de tantos como nós que se preparam para o Inverno. Recria-nos nos pequenos atos mundanos da nossa extraordinária vida. Criatividade e alma são – desde e para sempre –  as teias que nos ancoram.

E para alimentar a alma teríamos que encontrar maneiras de nutrir a imaginação, começando com fertilizantes, sim, da pilha de compostagem, e depois revirando a terra com a lâmina de um arado na época certa para dar luz e ar, e regá-lo cuidadosamente com água-viva até que no final possa sustentar um jardim para nos alimentar novamente.

Stephenson Bond

Artigo publicado na Revista Vento e Água nº 38

ÉLIA GONÇALVES
DIRECÇÃO CRIATIVA E DE PROJECTOS

 

 

Transportar o Mistério – a quarta tarefa de Psique

Transportar o Mistério – a quarta tarefa de Psique

Afrodite disse:

“Pareces uma feiticeira, de tão bem que conseguiste cumprir as minhas tarefas. Mas tenho uma coisa mais para fazeres. Desce ao palácio do submundo e pede a Perséfone uma caixa do seu unguento de beleza, pois necessito dele para me apresentar perante os deuses.”

(…) Psique sentiu que era o fim e dirigiu-se a uma torre muito alta para se atirar lá para baixo. Porém, a torre falou desta maneira:

“Deves ir até ao Monte Tenaro, onde encontrarás a porta para o Hades. Não levarás as mãos vazias, mas uma fatia de pão de cevada em cada mão, duas moedas na boca e força para a tarefa. Não darás ajuda a ninguém até chegar. Cuidado com a hospitalidade que aceitas do submundo, pois a este ficarás obrigada.”

(…) Cumprida a tarefa com tamanho esforço, Psique vê a luz do dia e pensa: “Trago o unguento de beleza para Afrodite. Quão néscia seria se não retirasse um pouco, a fim de agradar ao meu formoso Eros?”

Quando assim pensou, abriu a caixa, dentro da qual nada havia, salvo um sono infernal e profundo, o qual destapado, cobriu Psique de uma névoa e todos os seus membros tomou e possuiu. Ela caiu como uma coisa morta.

A quarta e derradeira tarefa de Psique é a mais difícil e, talvez, uma das mais importantes no caminho. Descer ao submundo para obter um caixa com o unguento de beleza de Perséfone. Após três tarefas praticamente impossíveis, em que as ajudas não humanas prestam um serviço imensurável, Psique enfrenta uma demanda na qual, apesar de aconselhada pela torre alta de onde se pensou suicidar, depende exclusivamente dos seus recursos e coragem. Esta parte do mito é repleta de simbolismo e pequenas semi-tarefas a realizar: pagar o preço pela viagem, aprender a dizer não, não intervir na tecelagem do destino e não ficar vinculada à hospitalidade do submundo. A mim encanta-me a caixa de beleza de Perséfone.

As três tarefas anteriores colocam-nos perante situações fundamentais para o amadurecimento. Com a separação das sementes, Psique aprende a arte do discernimento, fundamental para caminhar na vida em consciência e lucidez. A lã dourada dos tosões, apanhada quando os animais dormem, dá à heroína pistas para uma via mais criativa e suave, na qual a energia masculina a utilizar não a consuma e esgote. A terceira tarefa, encher uma taça de água de uma das mais altas fontes do rio Estige, é conseguida com a ajuda de uma águia, cujo olhar observa com maior amplitude as circunstâncias. Psique aprende aqui o segredo de beber a vida em pequenos tragos e na quantidade necessária, mesmo quando esta nos parece avassaladora.

Descer ao submundo para ir buscar uma caixa com um unguento de beleza surge como uma tarefa de caracter não ordinário. Afrodite propusera-lhe somente três tarefas, sendo esta quarta algo excecional que emerge na medida em que as três anteriores foram completadas. Descer às profundezas na busca de beleza, seguindo um trajeto focado e sem distrações e correndo o risco de nos perdermos da própria demanda.

Enquanto as tarefas anteriores são passos essenciais para a maturação na vida adulta, iniciações na arte de viver melhor e usufruirmos de relacionamentos com maior consciência, as descidas voluntárias ao submundo não acontecem a todos, ao contrário da descida involuntária (causada pelas circunstâncias da vida).  A descida de Psique caracteriza-se por saber o que necessita de levar e o que pode encontrar no caminho, pistas que não nos são fornecidas quando somos raptados numa descida involuntária.

Esta viagem ao submundo, para além dos desafios e aprendizagens que vão sendo propostos nos pedidos de ajuda (a que não pode aceder), ou das pequenas tentações que recusa, como o convite das três tecedeiras para que espreite os fios do destino ou a hospedagem de Perséfone para se instalar e comer o que quiser, a tarefa parece nada trazer de aprendizagem para a própria Psique. Transportar um unguento de beleza utilizado por Perséfone e levá-lo a Afrodite.

Psique não resiste a espreitar e, em vez de um creme de beleza, encontra um sono de morte que a faz desfalecer.

A história original fala de caixa com um unguento de beleza, mas também de uma “caixa que contém um segredo místico”. O místico, o símbolo, o mistério, são, por si mesmos, elementos de poder. Quando tentamos explicar o símbolo, ele perde a força. Trazer significados fechados a imagens arquetípicas, pertencentes ao mundo imaginal, é retirar-lhes o âmago, o inefável, esse padrão energético, universal, que vibra desde a própria imagem e nos ativa.

Através da sua demanda como fonte de comunicação entre arquétipos (Afrodite e Perséfone), Psique, na sua vulnerável humanidade, acaba por se identificar com estes. Usar o conteúdo da caixa para si mesma e trazer a dimensão do arquétipo à vida mortal.

A identificação com um deus é uma característica humana. E é também devastador e destrutivo para a construção da identidade, consciência e poder pessoal. Naturalmente que somos ativados pelos arquétipos, mediante as circunstâncias da vida. A Mãe surge na maternidade, da mesma forma que a Amante é ativada num momento de paixão. Ativar, ou ser ativado por um arquétipo não é o mesmo que identificarmo-nos com um. Quando ficamos presos na armadilha de permanecer infinitamente no arquétipo ativado, perdemos a capacidade de continuar a crescer, uma vez que a dimensão humana mergulha novamente na inconsciência.

O lugar do Mistério pertence ao Mistério. Talvez por isso ele seja tão irresistível e assustador. Transportá-lo é a demanda humana, para aqueles que lá chegam perto. Não é uma tarefa pequena. Transportar o mistério é ter acesso a ele, sem que nos demos conta. Psique transporta o segredo da beleza de Perséfone, uma vez que desceu ao submundo e regressou. Não precisa de o explicar (nem consegue), ou de o usar para si mesma. É aquela que o carrega, e isso é um Mistério em si.

Terá falhado Psique? Em verdade não, pois ao abrir a caixa de Perséfone e mergulhar num sono profundo, viajou verdadeiramente para a “terra da morte”, o submundo, numa descida involuntária iniciática. É salva por Eros, o Amor, que como elemento masculino (interno ou externo), amadurece também ao longo das tarefas e tem a força suficiente para despertar a Psique (a Alma) para um novo nível de consciência de quem é. E ela torna-se novamente, desta vez pela sua própria experiência, aquela que transporta em si este lugar de Sagrado.

ÉLIA GONÇALVES
DIRECÇÃO CRIATIVA E DE PROJECTOS

 

 

A vocação que faz o coração bater mais forte

A vocação que faz o coração bater mais forte

Essencialmente, o nosso propósito de vida é aquilo que de mais importante um ser humano possui, fazendo parte do que somos e conferindo significado à vida de cada um. É crucial descobrir quem somos e o que nos torna únicos e diferentes. Falamos da paixão que pode transformar positivamente não só a nossa vida, mas também a dos que nos rodeiam. É importante encontrarmos a nossa missão na terra e, aos poucos, sabermos estar em paz com ela, fazendo sempre o possível para a cumprirmos da melhor forma.

É nesta área que Vanessa Oliveira atua. Com base na psicologia, centra-se em olhar para as pessoas, acompanhá-las em momentos de dor, crise e perda ou também de renovação, redescoberta, potencial e cultivo de uma relação mais profunda consigo mesmo/a, com a vida e com o mundo. “Os verdadeiros tesouros encontram-se nas profundezas e é por aí que caminho, pessoal e profissionalmente. Essa é a forma simples de falar de uma psicologia com Alma, que vai mais além do aspeto funcional e superficial.”

Conhecida como caçadora de sonhos, sempre perseguiu os seus objetivos com afinco e persistência, nunca deixando o entusiasmo de parte. “Não posso dizer que tenha um sonho… sempre tive muitos, de vários tamanhos e formas. Na infância tinha já uma Bucket List, ajustada à idade e aos meus olhos de criança, mas com sonhos projetados até à adultez.”, confessa.

Formada em Psicologia Aplicada, Psicoterapia e Consulta Psicológica, sempre aliou a ciência aos valor inestimável do lado “menos exato” da vida, tendo atuado em áreas como terapia transpessoal, constelações familiares, mindfullness e soul psychology. Considere que todas as áreas se conjugam na perfeição e que há espaço para os números e fórmulas na mesma medida em que há para a Fé e o Amor. “Existem de facto razões que a própria razão desconhece, ou seja, nem tudo pode ser abarcado pela função da racionalidade, da análise e da lógica.”

Para Vanessa, a reinvenção é parte crucial é indispensável do percurso de vida de alguém, e consigo própria não foi exceção, assumindo “Foi importante para mim viajar sozinha para sítios inóspitos, testar-me e aventurar-me em atividades radicais, inscrever-me em formações em idiomas que não dominava, dizer SIM a várias propostas antes de estar preparada e trabalhar e aprender depois, redirecionar a carreira da área da gestão para a área terapêutica, deixar a efetividade segura para começar projetos desde o zero, e arriscar, arriscar, arriscar, de muitas formas.”

Acredita que uma das fórmulas para a (re)descoberta é marcarmos um encontro connosco mesmos e predispormo-nos a descobrir/reconhecer quem somos debaixo das nossas capas e aquilo que realmente sonhamos e almejamos faz parte do caminho. Descobrir potenciais, recursos, vocações, paixões, crenças limitadoras, estratégias de proteção que já não servem ou traumas, são vias de uma mesma estrada. E como pano de fundo, trabalhar a relação, principalmente, connosco mesmos, pois é isso que vai possibilitar-nos sermos os nossos heróis ou carrascos quando chegarem os obstáculos, os imprevistos, as quedas, e os êxitos.

“Com o tempo tenho-me apercebido de que, salvo raras exceções em que a vocação é incontornável e gritante e “não podia ser outra coisa”, este caminho do propósito assemelha-se mais a um caleidoscópio, com muitas combinações e muitas possibilidades.”, afirma segura.

A Dream Tender acredita que o desenvolvimento pessoal é um caminho acessível a todos, que permite lapidar as arestas e reconhecer- mo-nos na nossa grandiosidade e na nossa pequenez, como seres humanos que somos, com potenciais para cumprir, recursos, forças insuspeitadas a puxar-nos e a suportar-nos, assim como sofrimentos e vulnerabilidades comuns. Todos queremos o mesmo: sermos vistos, reconhecidos e amados. Isto porque há algo que nasce connosco, apesar de haver também muito para trabalhar, enriquecer e aprimorar e barreiras para ultrapassar. Tudo isto se consegue com coragem, paixão e crença. “Não é um caminho fácil, mas é um caminho extraordinário. A outra opção, é viver sem se sentir realmente vivo.”

Em relação a uma Mulher rumo à Liderença, Vanessa Oliveira acredita que há sempre lugar para nos conhecermos melhor e nos darmos conta da dimensão infinita do que temos dentro. “Pode-se dizer que o caminho do desenvolvimento pessoal é um verdadeiro mar de rosas, porque tem essa beleza e perfume especiais e também uma série de espinhos onde nos ferimos com regularidade. (…) De forma construtiva, saber mais de quem somos, ajuda-nos a tomar boas decisões, a agarrar as rédeas da nossa vida e a retirar peso ao que vem do exterior e que muitas vezes sufoca aquilo que há em nós de mais precioso. No caso das mulheres, especificamente, permite-nos ocupar novos lugares na vida e no mundo, e ocupá-los honrando a nossa verdadeira natureza, sem tentarmos dar passos masculinizados para “vencer” nem cairmos na narrativa comum da desvalorização do tanto que aportamos, e da maneira como o fazemos. Esse desenvolvimento pessoal permite-nos também aprender a suster as constantes e irrefreáveis exigências externas (que depois se tornam internas) e os perfecionismos debilitantes e castradores. Uma mulher que aprende a amar-se, que sabe ser e aparecer vestindo a sua própria pele e temperamento, que não precisa de chegar a todo o lado para se sentir suficiente, e que se apercebe daquilo que para a sua Alma é “inegociável”, transforma todas as transições em momentos de dança, plenos de significado”, terminando com a citação de Agostinho, que apelida de “extraordinária”: “Tem a coragem de não te recusares ao Milagre de Ti próprio.”

Artigo publicado na Revista Liderança no Feminino

VANESSA OLIVEIRA
DIRECÇÃO EDT

 

 

As Primeiras Colheitas – regressar a nós

As Primeiras Colheitas – regressar a nós

Instruções para viver uma vida.

Presta atenção.

Espanta-te.

Conta sobre isso.

Mary Oliver

A quietude do tempo quente assemelha-se, em certa medida, à quietude dos meses de frio intenso, com o seu silêncio profundo que se entranha na pele. Se no inverno a natureza se rende ao movimento da descida e permanece nas suas profundezas, enquanto aguarda a vida que se mexe no invisível, convidando-nos a regressar ao corpo, aos lugares de quietude e à essência, o Verão convoca-nos a saborear os frutos do trabalho intenso em longos processos de contemplação.

Permanecer numa cadeira de baloiço, semicerrando os olhos com a carícia da brisa quente, e deixar que a explosão das cores, a dança constante das borboletas e a leveza bamboleante das abelhas permutem o nosso habitual espaço físico e mental de movimento. Ou deitar na praia, com a luminosidade do sol que nos adormece os sentidos e a frescura do mar salgado que limpa tudo o que não seja o agora.

Há uma certa sonância no Verão, uma espécie de melodia que desponta do próprio calor, do canto das cigarras e de uma paragem peculiar que surge do auge de um movimento. O calor intenso é, na verdade, a lembrança da diminuição dos dias e o breve retorno à descida.

Estas são as primeiras colheitas, os espaços da abundância, da cor e do sabor dos frutos. Elas fazem-se com o reconhecimento do árduo trabalho dos meses que a precederam, a gratidão pelo tanto que se colhe, e o respeito pelos tempos de descanso. Não se colhem cereais, ou frutos, no calor das três da tarde.

Para a grande maioria de nós, a colheita parece chegar diretamente do supermercado e as chamadas férias são limitadas a datas no calendário, sujeitas a ritmos escolares, tipos de trabalho e combinações prévias. A desconexão é grande e maior se torna quando não trazemos estes lugares dentro, seja através de vivências reais ou de experiências simbólicas internas. Pode não ser viável estar em contacto com os ritmos numa experiência viva de perceção, mas a vida acontece, as estações sucedem e são vividas por nós, consciente ou inconscientemente. Trazemos dentro o mito e este é a linguagem simbólica da própria Terra.

O labor exigente das estações anteriores leva à necessidade de parar. O calor pede-nos desaceleração e tempo para a colheita. Nada cresce quando remexemos incessantemente na terra, sem dar espaço e tempo aos arbustos para que se transformem em árvores, floresçam e deem fruto. Isto serve para a fruta que nos alimenta ou para os frutos do nosso trabalho pessoal, do empenho no emprego ou a busca de melhoria das relações com os outros.

Tudo aquilo em que se labora necessita de tempo e espaço para que a obra seja contemplada. É na paragem que percebemos as distâncias que foram percorridas, as mudanças que se operaram em nós ou o quanto uma relação cresceu. A colheita e a gratidão pelo que se colhe é parte do grande processo de transformação da Vida. Sem que aconteça, não esvaziamos e não permitimos que surjam novos lugares internos, novos processos de consciência e labor.

Esta fase – a colheita e a gratidão – é também uma das partes mais esquecidas numa sociedade muito pouco conectada com os ritmos da existência, sejam estes internos ou externos. Nestes lugares por onde caminhamos, torna-se status trabalhar até à exaustão e não celebrar colheitas e conquistas, ou dar espaço para pousio e contemplação.

Somos impelidos a funcionar de igual maneira em qualquer altura do ano, seja um tempo de recolhimento, de trabalho árduo ou de contemplação e abundância. Fazemo-lo também, em qualquer momento interno, seja de alegria extrema, de luto ou de vulnerabilidade física. E deixamo-nos queimar incessantemente, como se permanecêssemos ao sol das três da tarde, nos meses de calor. Nunca existiram tantos fenómenos de esgotamento, como nos dias que correm.

Se a quietude do Inverno nos pede espaços de recolhimento, sonos longos e silêncio, o Verão pede lugares de contemplação e balanço. Gratidão pelas colheitas, ainda que possam não ter correspondido a expetativas e ilusões que colocámos. E, sobretudo, espaço para que estas aconteçam, para que nos demos conta das mesmas. E saboreemos os frutos.

Talvez este lugar de expetativas goradas, que por vezes surge no momento de colheita, seja também o derradeiro lugar de crescimento, atualização de quem somos e fonte de aprendizagem sobre as formas como nos atraiçoamos a nós mesmos, nos sentimos atraiçoados ou simplesmente nos esquecemos de quem éramos. São, por isso, fonte da sabedoria e transformação. Há que honrar também estas colheitas, na medida que nos trazem de volta a quem somos. Que nos permitem escolher a vida. Isto também se chama amor.

Parar e contemplar é abençoar a safra, esvaziar verdadeiramente, criando espaços vazios que possam ser cheios com o apelo a novos passos no caminho, centelhas criativas de trabalho, de relações, de partilha, de quem somos.

Enquanto espaço de contemplação, nada nos enche tanto como a natureza. Ela tem a sua própria forma de nos preencher. Ela providencia alimento, beleza, lazer, frescura, alegria, comoção, inspiração. Desperta-nos os sentidos e recoloca-nos perante o tanto que nos é dado e o tanto que somos. Coloca-nos em contacto com o nosso Feminino Selvagem, indomesticado e recetivo.  E torna-nos contentores da sua sabedoria.

Regressamos a nós quando regressamos aos ritmos da Vida que acontece. Quando escutamos verdadeiramente o nosso lugar no mundo. E nos rendemos à sabedoria do chão que nos sustenta e acolhe.

Artigo publicado no nº 37 da Revista Vento e Água

ÉLIA GONÇALVES
DIRECÇÃO CRIATIVA E DE PROJECTOS