Sagrado e Profano – um Amor maior

Sagrado e Profano – um Amor maior

Nas casas antigas, a lareira era o coração da casa. O fogo era mantido aceso, em lume forte ou apenas em borralho, mas sempre vivo, pronto para aquecer o que fosse necessário. Fornecia calor e luz, permitia cozinhar os alimentos, ferver a água e proteger do frio. O fogo do lar era um símbolo do fogo que a Vida pede, para se ir cumprindo, esse fogo invisível, o fogo interno, que nos inflama e excita, que ilumina e aquece. 


Na maior parte das culturas, ao longo dos séculos, e por todo o globo, o fogo era divino. No lar, ele era consagrado a uma divindade e mantê-lo aceso era uma tarefa sagrada. Marcava também os eventos comuns, as reuniões dos clãs, as noites de festa depois das batalhas. Desde o primeiro dia em que o ser humano o descobriu, o fogo não mais deixou de fazer parte de cada ato da vida, do mais sagrado ao mais profano, e ainda hoje é assim, mesmo que se manifeste de formas mais subtis. 

O fogo une o sagrado e o profano, estados aparentemente contraditórios. Embora saiba que, só quando ambos se interligam numa dança harmoniosa vivo a plenitude, os passos desta dança não deixam de ser um desafio a cada momento de vida. De cada vez que balanço mais para um dos lados, surge o desequilíbrio, e quando compenso para o outro, nem sempre é fácil recentrar a energia. Se toda a vida é uma dança de opostos, este é um dos principais pares a mostrar-se na pista. 

Profano é aquilo que não pertence à religião, segundo o Dicionário Universal da Língua Portuguesa, é o que “não (é) iniciado em certos conhecimentos; estranho a certos assuntos”. Vive-se o profano naquilo que é comum e ordinário, naquilo que provoca os sentidos, que nos convida a experimentar a superfície, a leveza, a temporalidade, os prazeres, os instintos… E, contudo, em cada uma destas vivências, também reside a chama do que é sagrado, daquilo que nos convida à profundidade, à essência, ao que nunca perece porque é imortal. Mais do que um conjunto de atividades que podemos rotular de profanas ou de sagradas (já que qualquer atividade pode ser vivida de uma ou outra forma), trata-se mais de pontos de observação, espaços internos desde onde nos convidamos a experimentar o sagrado ou o profano. 

Na antiguidade, o cisma entre sagrado e profano talvez não fosse tão evidente como mais tarde, durante a cristianização, onde se criou uma divisão clara entre ambos: profano era o que pertencia ao corpo, à carne, à matéria. Sagrado, era o que estava no reino do céu, do Pai Divino, destituído de substância, todo ele espírito e luz. Infelizmente, somos mais influenciados por esta visão – ainda hoje, numa sociedade laica – do que gostaríamos, e associamos frequentemente aquilo que dá prazer ao corpo como sendo profano, logo inferior. Almejamos o espírito, a luz, o afastamento da terra, de tudo aquilo que nos recorda da nossa finitude, e voltamos a trazer para o nosso quotidiano as exigências e autoritarismos rígidos que caracterizavam as instituições religiosas mais antiquadas, vestindo-os com outras roupagens, sem nos darmos conta de que perpetuamos o paradigma. 

Buscamos a vivência do sagrado porque ela permite que fechemos o imenso fosso de separação que acreditamos serem as nossas vidas. Estamos separados, isolados, sós, entregues a nós mesmos, num mundo hostil e perigoso, e buscamos algo que anule essa sensação em cada busca de prazer e em cada fuga ao que é doloroso. Também a espiritualidade traz prazer, e de cada vez que sentimos o fogo da devoção no nosso interior, de cada vez que as nossas crenças nos trazem significado àquilo que parece insuportável, ou que encontramos paz interior nuns momentos de meditação, sabemos que estamos menos separados. 

Buscamos a vivência do sagrado também porque a um certo nível sabemos – não por uma questão de acreditar, mas porque todo o nosso ser o sente – que algo em nós é mais vasto do que tudo o que acreditamos ser. Porque sentimos que há um Mistério maior na vida que tantas vezes damos por certa, um Mistério que já nos sussurrou ao ouvido, tocou ao de leve a nossa face e ignificou uma chispa de Vida nos nossos corações. Pode ter sido numa profunda experiência mística, um momento de oração, um concerto, a contemplação da natureza, de uma obra de arte ou uma experiência onde alcançámos as alturas da transcendência. No entanto, se nos permitirmos recordar com honestidade, talvez tenha sido no mesmo momento em que estávamos no nosso estado mais vulnerável, quando sofremos uma perda irreparável, ou então, quando fazíamos amor, quando observámos a capacidade de solidariedade e entrega do ser humano, ou ainda quando assistíamos ao nascimento de um novo ser vivo. Como todos os grandes poetas, os grandes místicos e os inocentes tão bem sabem, a vida apela à Vida, e toda a vida é, inerentemente, sagrada. 

Sinto que a harmonia de sagrado com profano vem pela vivência de cada momento a partir de um lugar interno de reverência e sacralidade, esse profundo em nós que sabe esta verdade. E, tendo dito isto, admito que será impossível vivê-lo constantemente. Contudo, não será impossível cultivá-lo, enquanto processo (e não como fim), nas nossas vidas. Como, pergunto-me frequentemente, posso cultivar esta conexão com a sacralidade da vida? De que forma posso viver intimamente, a minha vida comigo mesma? 

Começo pelo corpo, a nossa casa, para lá de qualquer outra. Não o cultuo, porém, relembro-me frequentemente de que o amo e o respeito, e de como me sinto quando lhe dou aquilo que ele necessita. Páro cada vez mais para o escutar, e levá-lo em conta. Dou-lhe movimento, dou-lhe alimentos sãos, dou-lhe espaço e contacto com a Natureza, à qual ele pertence. Dou-lhe tempo e descanso. Mas, também sou alma, e também sou espírito. Por isso, tento escutar as outras partes de mim em igual medida, e olhá-las com o mesmo olhar de reverência e de sagrado, dedicando-lhes também o espaço e o tempo para se expressarem. 

A minha alma pede-me os prazeres simples do convívio com quem amo, tantas vezes à volta da mesa, saboreando uma refeição preparada por mãos amorosas e dedicadas. Pede-me que me dê ao que me apaixona. Desfruto, fazendo peças que me nutrem, tecendo com fios de lã ou pintando com ceras, dando asas à criatividade. Leio, leio muito! E páro, em silêncio, contemplando: uma formiga, o mar, o meu próprio silêncio interno… Contemplando a vida. Cultivo a gratidão, cada vez mais. Permito-me encher de gratidão, até que os meus olhos transbordem, ciente das bênçãos imensas com que fui agraciada. Ou choro, fazendo o luto por aquilo que morreu, dentro ou fora, e não poderá regressar sob a mesma forma, nunca mais. Relembro-me, uma e outra vez, quando acendo a vela, quando passo a mão pelos cabelos dos meus filhos, quando olho nos olhos do meu amor, que a Vida é um Mistério, tão grande e tão profundo, tão maior do que qualquer um de nós e do qual também eu sou parte. Um Mistério que em tempos, como dizem as estórias antigas, fez Céu e Terra apaixonarem-se e unirem-se, criando todas as formas de vida que hoje conhecemos. O grande Amor, o amor entre espírito e matéria, entre divino e humano, o mesmo amor que levou Rumi a escrever a sua poesia apaixonada, plena de fogo sagrado, ao Amado. O mesmo amor que nos trouxe aqui, agora, e que nos mantém vivos, espírito vivendo a aventura de ser humano, alma caminhando em espiral, cíclica, intemporal e eterna.

Artigo publicado na Revista Vento e Água, número 21

PATRÍCIA ROSA-MENDES
TUTORA DE TERAPIA TRANSPESSOAL, MEDITAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES – EDT
A Alma das Coisas

A Alma das Coisas

“Todo o livro tem uma alma. A alma da pessoa que a escreveu e daqueles que a leram, viveram e sonharam com ela. Toda a vez que um livro muda de mãos, toda a vez que alguém passa os olhos pelas páginas, o seu espírito cresce e se fortalece.”

Carlos Ruiz Zafón


Se uma das nossas íntimas intenções é permitir um retorno da alma e o recuperar de um estilo de vida sagrado, não podemos confundir “des-literalizar” com “desmaterializar”. Esta habitual confusão faz-nos olhar para a matéria como algo secundário, como se fosse apenas uma alavanca para a transformação ou, simplesmente, uma prisão onde a Alma foi enclausurada. 

A nossa tendência a separar, a polarizar e a escolher entre uma coisa “ou” outra, ao invés de integrar e de abarcar a tensão própria de ter e ser – uma coisa “e” outra – coloca-nos muitas vezes a caminhar pela vida com a sensação de estarmos em pedaços e de não ser possível atender a todas as partes. 

Esta comum divisão entre “espirito” e “matéria”, parte do pressuposto que ambas se anulam e que não são dimensões da realidade que coexistem e se alimentam mutuamente. Com essa divisão-oposição, ser-se espiritual pode levar à conceção da “matéria” como algo mais humilde ou indigno, de menor valor, de pouca elevação e facilmente substituível. Reduzem-se as coisas à sua utilidade, esquece-se a sua beleza inerente e o seu valor metafórico e deixa-se de cuidar, deixa-se que se danifiquem, negligenciam-se, sem que nos demos conta de que isso é também uma forma de nos negligenciarmos a nós mesmos…

Quando vivemos muitos anos com algumas coisas, por exemplo, é natural que nos vejamos apegados a elas. Isso não acontece porque elas são inertes e cumprem com eficácia a sua função, mas sim porque elas têm um valor simbólico distinto, porque se relacionam connosco e nos fazem relacionar com o outro, com o ambiente e com o mundo, porque nos vinculam às pessoas que amamos, porque “falam” e nos contam histórias, porque nos podem até religar aos nossos antepassados e dar vida às memórias através de um objeto que foi passado de mão-em-mão, de vida em vida, de geração em geração.

De acordo com algumas tradições, sempre que criamos uma obra de arte adequada, estamos a criar um “recipiente” apropriado para capturar um determinado espírito e ele não tem outra escolha senão habitá-lo. Se olhássemos para as coisas com imaginação – se não fossemos literais – e se as entendêssemos como uma “presença real” desse espírito (nas palavras de George Steiner), a nossa casa e nós mesmos seriamos afetadas por ele e a nossa vida perderia um carácter mais insípido. Seria como abrir uma porta para o Encantamento, esse mundo que fala à Alma, que nos concede uma experiência com mais magia e que nos leva a conhecer os mistérios profundos do coração. 

“Todas as verdadeiras obras de arte são um ato de oração”

(Barbara Hepworth)

Poderíamos, com essa nova visão, projetar e criar uma casa, uma escola, um escritório, um parque de diversões onde a intenção fosse – para além dos óbvios critérios de funcionalidade – a de “capturar” o espírito que as pessoas necessitam nesse lugar. Como seria um hospital se na elaboração do seu projeto e na sua construção se tentasse evocar e abrigar um espírito de saúde e de cura? E se uma prisão fosse construída para evocar um espírito de reabilitação?

Seria interessante fazer uma pausa e dedicar à nossa casa um olhar atento, fresco, como se fosse a primeira vez que estivéssemos a vê-la, e tentássemos perceber quais os espíritos que habitam nela. Que nos imaginássemos como “hóspedes místicos”, capazes de sentir, ler e escutar as mensagens subtis, e que, através das características dos objetos, do seu estado – cuidado ou negligenciado – dos materiais, do ambiente, deixássemos aflorar a sua Alma e escutássemos que histórias contam através de nós. Qual o espírito geral da casa e de cada divisão? Um espírito de harmonia, um espírito rústico, ousado, aventureiro, inspirado, caótico, …? Quais os que estão ausentes e podem aportar algo? Qual seria o objeto-recipiente certo para os atrair, um bom “isco”, se considerássemos a sua forma, as cores, as texturas, os aromas…?

Para escolher esses objetos, as suas características são importantes, mas existe algo que não pode ser ignorado – a nossa reação estética imediata. Não é por colocarmos uma estátua de Buda num espaço que ele ganha automaticamente um ambiente de serenidade. Precisamos de sentir nela a presença desse espírito, ou, se quisermos, precisamos de nos sentir serenos na sua presença para saber que ela o abrigou.

Se olharmos para algo e essa primeira reação for de incómodo ou repulsa, de espanto ou entusiasmo, se nos provocar um arrepio ou “pele de galinha”, nos estremecer ou nos “tirar o fôlego”, estamos já em íntima relação com a Alma das coisas e a Alma do Mundo.

Precisamos que a beleza não esteja desterrada e confinada a lugares específicos, como museus ou exposições de arte, e que impregne a nossa vida diária, que nos desperte os sentidos, não só por uma questão de prazer, mas também de saúde e de cura.

“A beleza é uma maneira que os Deuses têm de comover os nossos sentidos, de alcançar o nosso coração e de nos aproximar da vida.”

James Hillman 

Podemos viver uma vida mais enfadonha, onde a utilidade é o critério-rei, as coisas são descartáveis e não se expressam nem nos influenciam. Podemos escolher o encantamento, comover-nos com as várias dimensões da experiência e considerar que todas as coisas têm Alma e importância psicológica, oferecendo-lhes cuidado e criando-as. Podemos conciliar ambos os sentidos – funcional e estético – e soprar alma para o mundo, deixando que a magia, a imaginação e a profundidade ocupem o seu lugar e nos riqueza e sentido.

Se soubermos apreciar honestamente o Mistério, teremos a bênção de assistir à revelação do “poema no coração das coisas” (Wallace Stevens). 

“A poesia não quer adeptos, quer amantes.”

Federico Lorca

Artigo publicado na Revista Vento e Água, número 21

VANESSA OLIVEIRA
DIRECÇÃO EDT

Quanto é Suficiente? – a segunda tarefa de Psique

Quanto é Suficiente? – a segunda tarefa de Psique

 “Assim que amanheceu, mandou Afrodite chamar Psique e disse-lhe:

– Vês aquela floresta, por onde passa o rio, que tem aquelas grandes árvores ao redor? E vês aquelas ovelhas resplandecentes e de cor de ouro que andam a pastar sem que ninguém as guarde? Pois, vai lá e traz-me esta cesta cheia da sua preciosa lã.

Psique, vendo a força e violência dos carneiros, foi para lá, não para fazer o que Afrodite lhe mandara, mas sim para dar fim aos seus males, lançando-se para dentro do rio. Quando chegou ao rio, uma cana verde, que é mãe da música suave, meneada por um doce ar por inspiração divina, falou desta maneira:

– Psique, tu que sofreste tantas tribulações, não queiras sujar as minhas santas águas com a tua morte, nem tampouco tentes chegar a estas espantosas ovelhas, porque com o calor do Sol costumam ser muito raivosas; com os chifres agudos e as frentes de pedra, e até com os dentes venenosos, matam muitos homens. Depois que passar o ardor do meio-dia, as ovelhas repousarão na frescura do rio. Quando vires que começam a dormir, sacudirás os ramos e folhas daqueles arbustos perto delas e ali encontrarás as jubas de lã de ouro que se agarram quando as ovelhas passam.

Ela, quando isto ouviu, não foi negligente em cumpri-lo. Fazendo e guardando tudo o como a cana dissera, furtou a lã de ouro dos arbustos; trouxe-o e jogou-o no regaço de Afrodite. “


Esta é a segunda tarefa de Psique, na sua demanda por recuperar o amante, Eros, descrita no Asno de Ouro, de Apuleio. Entre várias tarefas – quase sempre aparentemente impossíveis para um “comum mortal” – Psique vai encontrando ajudas “sobrenaturais” que a ensinam a cumprir o necessário de formas mais leves do que aquelas que ela abarca para si.

Há uma profunda sabedoria nesta tarefa (como em todas, neste mito). Ela mostra que, de algo aparentemente perigoso e violento pode descobrir-se uma solução simples e pacífica, mas sobretudo revela-nos uma extraordinária pergunta, segundo o psicólogo Junguiano Robert A. Johnson: que quantidade de energia masculina é suficiente?

Esta é uma questão tão pertinente de sabedoria que poderia ser colocada antes de qualquer decisão ou ação, sobretudo para o universo feminino, num mundo onde o Mito do Perfeccionismo se tornou, equivocadamente, um dos “talentos” das Supermulheres sem capa em que nos tentamos tornar.

O mundo ocidental injeta-nos mensagens sobre produtividade, ação, concretização e uma agenda repleta de mil e uma tarefas como sinónimo de poder, sucesso e competência. Adotamo-la com um sorriso orgulhoso e caminhamos pela vida cumprindo todas as “obrigações”, muitas das quais autoimpostas, para provar a nós mesmas que somos suficientes, que “conseguimos dar conta do recado”, que valemos aquilo que fazemos.

A resposta do mundo é a que esperávamos: que maravilha, fazemos tanto, conseguimos tudo, que competência extraordinária. E, sem perceber a faca de dois gumes de cada elogio, cumprimos ainda mais para ser vistas e reconhecidas, acreditando que temos de chegar a todos os lados. Continuamos, assim, a demanda de “arrancar a lã dourada dos tosões raivosos, à luz do sol ardente”, e mutilando-nos silenciosamente até à essência.

Entre o trabalho, as tarefas domésticas, os filhos, o ginásio, a vida social, as compras e tanto que nos vamos impondo como “mínimos olímpicos”, apropriamo-nos da crença de que “necessitamos de ter tudo organizado” para poder descansar, sem entender que, para esse oásis chegar, temos de destruir o mito do perfecionismo estéril no qual aprendemos o que era ser-se suficiente.

Vivemos tempos que nos colocam perante um lugar diferente daquele que conhecíamos. Uma paragem forçada, a estadia a tempo inteiro no espaço que chamamos de lar e com as pessoas que povoam o nosso núcleo mais íntimo. E, da maneira mais dura, apercebemo-nos de que não é tanto o mundo lá fora que nos posiciona numa correria de obrigações e tarefas inegociáveis. Somos nós, com os nossos horários, as limpezas, as refeições a tempo e horas, o tempo para as crianças e o apoio à escola. Com uma crença violenta de ter de chegar a todo o lado e na qual, por mais que o forcemos, nunca chega.

De repente, a casa, o lugar seguro onde o acolhimento, o descanso e o desfrute nos resguardam do mundo, corre o risco de se transformar no campo de batalha de todos os dias, na qual a eficiência e a produtividade nos escravizam e nos refletem maior ou menor valor enquanto pessoas.

O universo arquetípico no qual o cuidar, o embelezar e o nutrir nos empoderam e se tornam pilares emocionais de sustentação de um lar perdem-se para tarefas estéreis de competência e obrigação.

Na tentativa de chegar a todo o lado, esquecemo-nos de que nada temos para dar, se não nos dermos nada. Que quantidade de energia masculina é suficiente? Necessitamos assim tanto de completar todas as tarefas daquela forma? Necessitará uma casa de estar a brilhar, quando alguns espaços de leitura, silêncio, criatividade e dança podem encher-nos de brilho a nós mesmas? Onde está o equilíbrio necessário para que o lugar onde habitamos se transforme num verdadeiro lar? Onde a vida e o movimento têm espaço e expressão?

Esta tarefa de Psique – um mito que esmiúça tão bem as tarefas arquetípicas do amadurecimento do feminino – pede-nos que nos aquietemos. Que não nos precipitemos no “calor do sol ardente”. Que nos perguntemos se necessitamos de despender mesmo toda aquela energia para completar tarefas autoimpostas ou se podemos escolher outro caminho. Um trilho mais criativo, mais suave, feito à nossa medida e no qual a expressão verdadeira de quem somos tem mais força do que os talentos produtivos de uma supermulher que, à custa de mutilação violenta, se vai esquecendo de quem é e do que tem verdadeiramente para dar.

Que quantidade de energia masculina é a suficiente para que a Alma (Psique) possa, através de um trabalho mais criativo e menos violento, entregar a lã dourada no regaço da Deusa Alquímica que também somos (Afrodite)? 

Artigo publicado na Revista Vento e Água, número 21

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT
O Amor em tempos de Covid

O Amor em tempos de Covid

“O privilégio de uma vida inteira é ser-se quem se é.” 

Joseph Campbell


 

Se não houvesse batimento cardíaco, os altos e baixos que observamos no ecrã, estaríamos mesmo vivos?

Desta roda gigante de que são feitos os nossos dias guardamos com saudade a coleção dos momentos de alegria, prazer e puro êxtase, do desfrute mais intenso e inteiro de que temos memória, e evitamos a lembrança de outros tempos que deixaram dores, saudades irremediáveis ou feridas ainda por cobrir de água oxigenada e uma “curita”.

A vida é cíclica, mas por vezes esquecemo-nos disso, perdidos que estamos na intensidade de um qualquer momento (belo ou doloroso), vivendo-o como se fosse único, invencível, um Adamastor emocional.

A verdade é que a espiral dá muitas voltas, e elas vão-nos aproximando ou afastando, brincando, entrelinhas, ao que chamamos de Destino mais ou menos cocriado pelas nossas mãos, vontades, desejos e um brincar de Deus lá de cima, que por vezes nos parece teatro de marionetes.

Nos momentos em que o carrossel gigante nos coloca de pernas para o ar, em periclitante equilíbrio, tal como Innana, na sua famosa descida ao mundo do Não-Tempo, vamos despindo camadas mais ou menos acessórias que nos enfeitam e definem, caminhando em direção ao centro, à essência, quente e palpitante, húmida, vulnerável e com cheiro a terra. Às vezes tacteando, adivinhando o trilho.

No olho da tempestade, é difícil encontrar pontos de apoio e de razão. E quando parece que tudo é cansaço, ou dor, dúvida ou medo, saudade, que o corpo se arrasta e a vida está sempre um passo à frente e não conseguimos lá chegar então não há caminho senão abraçar também esse tempo de vazio, esse nada que é tanto também e que nos pede um olhar compassivo para nós, e para aqueles pequenos movimentos que nos soam minúsculos e ridículos mas são gigantes em esforço e vontade.

Nem sempre há luz, alegria, leveza, criatividade, conexão.

Mas há sempre, isso sim, uma mãe interna gigante e amorosa capaz de nos embalar no seio e sussurrar que está tudo bem, que mais não é preciso, por hora.

Às vezes, no nevoeiro misterioso que nos rodeia, não é intuitivo encontrar essa voz que aguarda quieta e doce por entre outras que rugem, rígidas, exigentes, “maravilhosamente” comparadoras de milímetros e conquistas.

A autocompaixão que o momento pede não é – de todo! – fraqueza, fragilidade ou desresponsabilização, é simplesmente (fosse simples assim!) aceitar os limites que o corpo traça por nós e mimar-nos o mais que pudermos, dos pés à cabeça.

É responsabilidade e compromisso, aquele que mantemos connosco mesmos – amar, proteger e honrar -, o mais íntimo, belo e difícil.

Até porque a roda gira uma vez mais, os gonzos rangendo, e depressa estaremos de novo no mundo, o peito cheio de fogo e os olhos chispando energia e desejo.

Mas isso é amanhã ou depois.

Por hoje, há sempre tempo para mais um abraço, daqueles de urso, ao que Há.

 

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA MINDFULNESS EM CONTEXTO EDUCATIVO E FACILITADORA CIRCULOS MULHERES – EDT
Entre | Linhas | Entrevista com Vanessa Oliveira

Entre | Linhas | Entrevista com Vanessa Oliveira

“As pequenas coisas? Os pequenos momentos? Eles não são pequenos.

Jon Kabat-Zinn

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Usando apenas 10 palavras, descreve-te a ti mesma…

Aventureira, profunda, intensa, entregue, perseverante, silenciosa, sonhadora, intuitiva, generosa, com sentido de humor.

Qual era o teu sonho em criança? De que forma o cumpriste?

Em criança tinha uma imaginação muito fértil e as vontades e sonhos eram muitos. Lembro-me da lista infindável: desde querer ser cowboy, ranger, motard – ao estilo “Harley Davidson”, fazer atividades radicais, lidar com animais selvagens ou até andar pendurada nos camiões do lixo; De forma mais persistente, ser detetive, alquimista, repórter fotográfica, escritora e terapeuta.

O que estava na base das coisas acabou por cumprir-se com outras “vestimentas”. Esse lado mais livre, radical, aventureiro, “selvagem”, cumpro-o essencialmente nas viagens que realizo; A paixão pela fotografia e pela escrita continua viva e são as minhas formas favoritas de captar a beleza inerente a tudo, a alma das pessoas e o espírito dos lugares; E o impulso “detetivesco” – amante inflamado do Mistério, da investigação e do processo de descoberta – é, a par com a alquimia, presença assídua na sala de terapia.

O que te inspira?

A beleza que reconheço nas pessoas, nas coisas, nas circunstâncias, no mundo visível e invisível. Inspira-me a profundidade que conseguimos alcançar e a promessa de que nunca a conheceremos na sua totalidade. Inspiram-me os pequenos “milagres” do dia-a-dia, aqueles que tantas vezes passam despercebidos. Inspira-me a capacidade das pessoas para criar, os seus diversos dons, tudo o que fazem quando lhe põem coração. Inspira-me a fraternidade, a entre-ajuda e o espírito de “não deixar ninguém para trás”. Inspira-me a humanidade, o sagrado, a magia e tudo aquilo que me possa ir revelando um pouco mais sobre o que a Vida É.

Em que é que confias?

Confio na Vida e no Mistério. E com isto não quero dizer que confio que eles me irão proporcionar tudo o que eu quero, ou que são aquilo que eu necessito que eles sejam. Não os quero pintar com outras cores… confio neles, precisamente, porque não são adulteráveis, porque não respondem a caprichos, são fiáveis na sua essência, e são infinitamente maiores do que toda a imaginação que cabe em nós.

Porquê a EDT?

Porque quando surgiu na minha vida e me foi apresentada a proposta para a trazer para Portugal, eu tinha um SIM ardente dentro do peito e os olhos iluminados por essa possibilidade. Tinha encontrado um lugar integrador, onde podíamos descobrir e expressar tudo, sem olhares redutores. Um lugar onde a perspetiva e experiência pessoal tinham tanto ou mais valor do que as mil e uma teorias existentes. Onde se olhava para dentro para obter respostas e não se debitavam fórmulas de como viver melhor. Um lugar que não estava feito para a superficialidade e que nos convidava, uma e outra vez, a atravessar terrenos “pantanosos” e também a subir e a experimentar o topo da montanha. Um lugar onde Ser quem nós éramos, bastava.

Tinha vivido tanto, tinha enriquecido tanto que, apesar das inseguranças e dos desafios que antevia, não consegui vislumbrar outro caminho que não esse – o de ser um meio para levar esta experiência a mais pessoas. Porquê a EDT? Por tudo isto. Pelo sonho, pela inspiração, pelo significado e pelo sentido. Este projeto agora pertence a muitos e é uma benção ver como é nutrido com o coração, a arte, o engenho e o suor de pessoas excepcionais. 

Se só pudesses deixar uma frase como legado, com as tuas próprias palavras, o que dirias aos outros?

Descobre aquilo que verdadeiramente importa e entrega-te inteiro/a, de corpo e alma. Não adies, não desperdices, não te distraias.

O silêncio trás-me…

Sanação. É essencial para a restauração do meu equilíbrio, para um “processamento” profundo da própria vida e para uma redução do ruído superficial, que pouco me acrescenta e muito me distrai.

Traz-me também um enorme sentido de intimidade, intimidade real comigo mesma, com as várias partes de mim – que aí encontram tempo e espaço para se revelarem.

O silêncio liga-me a algo maior do que eu, abre-me a mais possibilidades, ensina-me a olhar com mais qualidade amorosa e mais discernimento, mostra-me o que tem valor, e acolhe-me sempre, sempre, sem me exigir nada de diferente do que aquilo que sou e tenho. O silêncio traz-me Alma e é uma chave para a vivência do verdadeiro amor próprio.

Hoje, fazer algo com coragem seria…

Pelo que vou conhecendo da vida, os atos de coragem são, na maioria das vezes, bastante simples e sem aplausos. Pode ser apenas levantar-se e “fazer o que precisa de ser feito”; ou dizer coisas importantes a pessoas importantes – o quanto as amamos, um “obrigada”, um “desculpa”, aquilo que sentimos de forma real e mais além dos idealismos, aquilo que sonhamos, que nos amedronta, ou em que lugar estamos; Ás vezes coragem é “virar a mesa” e outras vezes é pô-la e convidar alguém para jantar; Às vezes é agarrar e outras vezes é soltar; É ouvir e seguir a Voz da Alma, mesmo quando isso significa virar do avesso os planos que temos para a vida. Hoje, poderia fazer qualquer uma destas coisas, porque todos os dias são dias (perfeitamente) inacabados e há tanto em nós para entregar ao mundo.  

Que personagem de um filme ou livro gostarias mais de conhecer? Porquê?

Gostava de poder conhecer os guerreiros Na’vi do filme Avatar. Porque me encantou o mundo de Pandora, o nível de ligação que tinham com a Natureza, com tudo o que os rodeava. Comovente a existência da Árvore das Almas e o nível de consciência coletiva que foi aí tão bem retratado. 

Como defines o sucesso e como irás saber que o atingiste?

O sucesso, para mim, é a arte de estar bem na vida e com a vida. É saber que se está a aproveitar cada momento, desfrutando das coisas simples e grandiosas do mundo – desde assistir ao nascer e pôr do Sol, a sentir o sal na pele depois de um mergulho no mar, ao vento morno numa noite de verão, o som de risos e conversas entre pessoas afins, uma mesa de petiscos que convide a “ficar”, o crepitar da lenha na lareira, o cheiro do pão acabado de sair do forno, a eternidade contida nos momentos de intimidade;
É realizar e persistir nas coisas que nos encantam a alma e nutrem o espírito; é criar laços honestos, lugares seguros, onde possamos encontrar-nos sem filtros e perceber a bênção que é estarmos vivos; é espantar-se com a forma como os caminhos se cruzam.
Sei que atingi o sucesso se me levantar de manhã com entusiasmo, se me expressar e dedicar ao que me apaixona, se for útil para alguém, se sentir prazer… no fundo, se chegar ao final do dia com a sensação de que “valeu a pena”.

Qual a característica familiar que herdaste e que mais te apoia na Vida?

Apesar de serem várias e de as características terem sempre duas faces, como as moedas, creio que escolho a resiliência – é algo que faz parte do legado familiar e tem sido, definitivamente, uma fonte de apoio diante dos “picos e vales” da vida.

O que é que sempre te faz vir as lágrimas aos olhos?

Bater com o dedo mindinho do pé numa qualquer esquina de móvel 🙂  …
Fico com os olhos marejados sempre que vejo exemplos de bondade e exemplos de coragem; sempre que as pessoas se unem em torno de um propósito comum e conseguem realizar coisas extraordinárias; sempre que alguém se comove ou se vulnerabiliza e permite que se aceda à beleza e à grandeza da Alma; sempre que as pessoas tentam mostrar a quem amam, que as amam, seja por palavras ou atos, e com a verdade escrita no olhar; sempre que me deparo com os olhos pequeninos e brilhantes das pessoas mais velhas, cheios de estórias, cheios de tempo; e sempre que me rio, com uma inegável e inesgotável vontade.

 

 

 

ENTREVISTA A VANESSA OLIVEIRA
DIREÇÃO EDT
Entre | Linhas | Entrevista com Vanessa Oliveira

Entre | Linhas | Entrevista com Élia Gonçalves

“Irmã amendoeira, fala-me de Deus. E a amendoeira cobriu-se de flores.”

Kazantzakis


Usando apenas 10 palavras, descreve-te a ti mesma.

Humana, criativa, sonhadora, apaixonada, leal, sincera, impulsiva, corajosa, buscadora, pragmática.

O que te comove?

A sinceridade e a simplicidade. Um abraço de corpo inteiro. Olhares cruzados e que atravessam estórias. Atos de amor arrojados. Um beijo profundamente apaixonado. O riso das minhas filhas. O nascer de um novo dia. O cheiro da ria formosa ao pôr-do-sol. Ver pessoas a comoverem-se. Ser-se quem se é.

Qual a tua estória preferida?

Sinto que ando em mudança de “mitologias”. De qualquer forma, a estória que sempre me ressoou foi a Pele de Foca, e esse retorno ao lugar onde em tempos abandonámos a verdadeira pele. Acho que a minha eterna busca é essa. Recuperar a minha pele ou, pelo menos, cada vez mais pedaços dela.

O que é a intimidade para ti?

O melhor do mundo. Adentrar fundo, partilhar cumplicidades, estar em lugares onde quem somos basta. Dedos e estórias entrelaçadas, ainda que por instantes. Honrar caminhos partilhados.  A intimidade é encontrar lugares seguros, aqueles que guardamos na pele e carregamos connosco a vida inteira. O que me sustenta e me faz melhor pessoa. Aquilo que mais busco na vida e nas pessoas.

Porquê a EDT?

Porque foi a casa onde tanto do que sou ganhou lugar. Onde viajei por entre os meus infernos pessoais sabendo que não me deixavam cair. Onde tantas vezes sinto que não sou suficiente e o olhar que me refletem é “Quem tu és basta.”

Porque as pessoas importam aqui, e os defeitos são “feitio”. Porque todos os que percorrem esta casa se comprometem com o seu próprio caminho e sabem dizer “lamento”, quando as coisas não correm bem. Porque se partilham risos e lágrimas e serviço com entrega e honestidade. Porque aqui posso ser eu.

De que é que não nos podemos esquecer na vida?

De estar Presentes. De não deixar coisas por dizer. De amar mais, mas sobretudo melhor. De expressar quem somos e deixarmo-nos tocar pela vida. De não nos distrairmos…

Se eu fosse um poema a última frase seria…

“Encontras-me sempre ali, onde podemos ver o pôr-da-Lua no mar.”

Cumprir-me é…

Sentir-me inteira. Ser honesta comigo mesma. Honrar caminho. Viver todos os instantes. Desfrutar daquilo que me é dado e saber ser grata. Arriscar. Olhar para trás com um sorriso.

É preciso transformar o Mundo. Por onde começas?

Por amar mais. Aceitar mais. Respirar melhor e fazer escolhas mais conscientes. Começo por mim….

Qual a tua memória de infância mais feliz?

As noites de Verão na praia de Faro. Os meus pais levavam uma manta para a praia e deitávamo-nos os três a procurar estrelas cadentes. Escutava a conversa deles, bem segura no meio das duas pessoas mais importantes do mundo, e sentia-me parte daquele universo tão grande que parecia engolir-me. Sentia esse Mistério que nos rodeia e a sacralidade de uma noite estrelada, tão avassalador quanto assustador. Mas tinha-os ali, aquelas duas pessoas que me guardavam. E não havia nada mais importante no mundo.

Descreve cinco coisas que te façam sorrir.

As minhas lindas filhas. Uma boa estória, escrita ou contada. Uma noite de boa conversa com amigos e um bom vinho tinto. Um belíssimo desafio de trabalho. A humanidade, a bondade, a vulnerabilidade.

As palavras pelas quais eu gostaria de viver são…

Acho que as disse todas anteriormente… simplicidade, mistério, sinceridade, intimidade, entrega, desfrute, gratidão.

 

ENTREVISTA A ÉLIA GONÇALVES
SUBDIREÇÃO EDT