O Cuidador Informal: entre a fadiga e a satisfação da compaixão

O Cuidador Informal: entre a fadiga e a satisfação da compaixão

O Cuidador Informal: entre a fadiga e a satisfação da compaixão

O Cuidador Informal
Entre a fadiga e a satisfação da compaixão

“Após um longo período de ausência a cuidar exclusivamente da sua mãe, Alice regressara. Entrou e sentou-se, embora denunciando na expressão e nos gestos a urgência em sair. Correr dali. Fugir de mim e dela. Fugir do momento presente que a obrigava a sentir. Permanecer presente com as suas emoções e com os seus pensamentos implicaria lidar com os seus demónios, escutar e reconhecê-los. E isso significaria acrescentar mais culpa e vergonha à culpa que já pesava sobre si de forma consciente e consentida. Por não ser suficiente, por não ser perfeita. Alice recusava-se a falar senão de trivialidades, e tampouco consentiu uma única lágrima quando os seus olhos assim o imploraram. Ela não podia chorar, fosse por nunca lhe ter sido permitido ou ensinado, fosse por ter desaprendido e esquecido. E afinal, «quem cuida não se pode vulnerabilizar», assim acreditava. Durante vários anos, Alice serviu este propósito com alegria: cuidar dos irmãos, cuidar do casamento, cuidar dos filhos, cuidar da casa, cuidar da carreira, cuidar dos laços familiares e das amizades. Mas ninguém a preparara para o dia em que o “ato de cuidar” se transformaria numa urgência ou exigência. Ninguém a preparara para a possibilidade do ato de cuidar perder os seus matizes cor de rosa e poder devolver-lhe uma imagem sombria de si mesma. Ninguém a preparara para a fadiga da compaixão. E quanto mais ela resistia e se debatia, mais a voz embargada, os sinais e os gestos incoerentes e caóticos deixavam vislumbrar o que o seu corpo não podia mais calar: o rio sinuoso que crescia e desaguava dentro dela, procurando todas as fissuras para irromper e ser visto.”

 

Resguardada no animato, “Alice” é mais um número sem rosto da listagem crescente de pessoas a quem coube viver o papel de Cuidador Informal e que, tal como tantos outros, sentiu a sua qualidade de vida ser diretamente afetada a partir do momento em que se dedicou a “estar ao serviço de”. Muitas vezes em detrimento de si mesma, esvaziando-se progressivamente até se despojar da sua identidade e poder pessoal. Independentemente da decisão consciente ou abrupta, livre ou imposta, ou mesmo imbuídos das melhores intenções e de genuína satisfação, raramente os cuidadores informais estão preparados para enfrentar as necessidades e dificuldades específicas que os esperam inerentes ao ato de cuidar, incluindo a avalanche de emoções e as armadilhas mentais que esta experiência pode acarretar.
E quando falamos de um familiar idoso, o cenário ganha novos e distintos contornos. Somos seres essencialmente sociais que desde cedo aprendemos a nos relacionar e a cuidar mutuamente, mas não fomos ensinados para enfrentar a deterioração e a perda das nossas figuras de referência ou para aceitar a inversão de papéis: um dia somos “filhos” e, no dia seguinte, somos “pais” dos nossos pais… ou dos nossos cônjuges…. Do mesmo modo, não fomos preparados para aceitar que estes laços, provavelmente sempre sentidos como pedras basilares capazes de nutrir a nossa vida, possam ser agora fontes de dor e sofrimento. Não obstante o amor, aqui e agora.
Na realidade, estes cuidadores estão geralmente sujeitos a inúmeras pressões e exigências – físicas, mentais, emocionais, económicas, sociais e profissionais –, que acabam por condicionar e ditar as regras deste jogo do “dar e receber”. Envoltos em tantas preocupações e demandas, eles acabam frequentemente absorvidos no modo “fazer” e esquecem o modo “ser”, entrando em modo “piloto automático” e desligados do presente. Progressivamente, vão-se desconectando consigo, com os outros e com o mundo. Não é de estranhar que muitas vezes não tomem consciência da espiral nociva em que se encontram ou que emitam sinais de negação do seu real estado: o burnout em que estão profundamente mergulhados.
Síndrome do cuidador: o burnout e a fadiga da compaixão
Podemos frequentemente constatar o surgimento da «síndrome do cuidador» e o adormecimento dos seus recursos e dons internos, únicos e singulares. Incluindo, a fadiga das qualidades compassivas que são fundamentais a essa relação de apoio e à própria satisfação da interação.
Facilmente a realidade do cuidador informal pode culminar numa perceção de esgotamento ou sobrecarga (burnout), com um severo impacto na qualidade de vida do próprio e na qualidade das suas relações com os outros e com o mundo. De repente, o idoso dependente passa a ser sentido como aquele que nos rouba tempo, energia e vida. Como que repentinamente, entramos em estado de tensão e alerta permanente, reatividade, excitação, problemas de sono, irritabilidade e explosões súbitas de raiva, dirigidas a tudo e todos. Inclusive, podem emergir sentimentos perturbadores antigos, incluindo mágoas e ressentimentos, decorrentes de conflitos e situações pendentes ou de um vínculo instável e frágil, associados ao familiar dependente. Todo o espetro de emoções é geralmente revestido de um forte sentimento de culpa, cujo monólogo interior, constante e tóxico, tende a exponenciar.
A presença de um vínculo firme e forte tende a tornar o cuidador permeável ao sofrimento e às angústias do outro interveniente da relação, deixando-se invadir e afetar por esses resíduos emocionais. De forma abrupta e incontrolável, passamos a ser assaltados por sonhos e pensamentos intrusivos relacionados com a sua vivência traumática e que nos fazem revisitar vezes sem conta aquela experiência dolorosa como se fosse nossa. De modo a evitar essa dor e sofrimento, desenvolvemos muitas vezes atitudes de distanciamento físico e afetivo (evitamento e embotamento) face a tudo e todos que possam evocar ou recordar-nos essa experiência.
O cansaço excessivo, ansiedade e stress, tristeza ou depressão, perda do tempo livre, solidão e isolamento progressivo, desinteresse pelas tarefas quotidianas, perda de sentido e vazio existencial são alguns dos sintomas perturbadores que surgem no decorrer deste processo e que sugerem uma forte afetação da nossa saúde.
Despertar para todos estes ciclos perniciosos que levam à fadiga da compaixão é o que possibilita ao cuidador resgatar o próprio bem-estar e construir relações mais satisfatórias, traduzindo-se em ganhos para ambos os intervenientes da relação. 
MAS COMO INTERROMPER ESTA ESPIRAL NOCIVA?  COMO RECUPERAR A NOSSA SAÚDE DESFRUTAR MAIS DO ATO DE CUIDAR?
Diversos estudos e programas continuam a colocar a tónica em atitudes mindful que podemos cultivar, sugerindo que as lentes com as quais apreendemos o mundo estão revestidas de filtros, gerados mais pela nossa realidade interna do que propriamente pelas circunstâncias externas. E neste processo, os nossos pensamentos e estados emocionais tornam-se cruciais, limitando e condicionando claramente o nosso olhar e a forma subsequente de nos relacionarmos com tudo o que nos rodeia, incluindo nós próprios. A «atitude» com que os abordamos constitui a chave sagrada para a derradeira sabedoria.
A qualidade e satisfação da relação de ajuda que se estabelece entre “prestador” e “recetor” de cuidados dependerão igualmente desta atitude. A partir de uma observação atenta e compassiva, com amabilidade, abertura e curiosidade aprendemos a desfrutar mais do jogo de dar e receber, podendo mesmo acontecer no decorrer desta relação os próprios se indagarem “quem está realmente a dar e quem está a receber”. A compaixão coloca em marcha componentes – bondade, empatia, tolerância, compreensão, respeito e ausência de julgamentos – que nos permitem sintonizar com o nosso mundo interior e com o mundo interior do outro. Alguns autores, como Kristin Neff ou Paul Gilbert, reforçam o poder desta qualidade básica e defendem que a compaixão e a autocompaixão entrelaçam-se e reforçam-se mutuamente. A atitude compassiva requer que nos tornemos os “melhores amigos”: nossos e dos outros, criando sentimentos de apoio dentro e fora de nós.
Em suma, novas ciências emergentes sugerem que ao situarmo-nos numa gama de sentimentos expansivos e benevolentes ativamos uma qualidade no campo magnético que geramos que se irá repercutir positivamente em quem nos rodeia e nos nossos relacionamentos. Isto ajuda a compreender melhor a importância de cultivarmos qualidades amáveis e compassivas, quer em relação a nós próprios quer em relação aos outros. Primeiro, como fontes protetoras de stress, ansiedade, desânimo e depressão; segundo, como fatores potenciadores de vínculos mais satisfatórios, incluindo as relações de apoio e acompanhamento.
Breves sugestões mindful para os cuidadores informais
 
– Entre cada tarefa, introduza uma pausa para realizar alguns exercícios simples de respiração consciente e para movimentar o corpo. Depois prossiga para a tarefa seguinte.
– Programe o alarme do seu relógio, três ou quatro vezes durante o dia, para fazer um STOP: páre, respire e leve a sua atenção ao corpo, mente e coração. Observe o que acontece e depois prossiga com a tarefa que estava a fazer.
– Realize um STOP quando se sentir tenso, alterado ou stressado.
– Reserve uma hora, diariamente, para se dedicar a uma atividade que o nutra: ler um livro, ver um filme, fazer uma caminhada, ouvir música…
– Escute o seu corpo, a sua mente e o coração. Se estes estiverem a pedir descanso, consinta. Sem julgamentos ou dureza para consigo.
– Cultive a curiosidade, a amabilidade, o não julgamento e o sentido de humor.
– Desenvolva um ritual de fim de dia, levando a sua atenção à respiração, ao corpo, à mente e ao seu coração. E agradeça por mais um dia!

 

 

Cátia Pinto
Tutora Mindfulness EDT
Psicóloga e Consultora Mindfulness

Artigo publicado na revista HEALTH ADVISOR
http://healthadvisor.pt/2017/08/17/cuidador-informal-fadiga-satisfacao-da-compaixao/

 

O Sentido da Vida

O Sentido da Vida

O Sentido da Vida

Conforme a capacidade de perceção do ser humano evolui, ela atravessa o mundo das aparências e adentra nas camadas mais profundas da “casca da cebola”. Chegamos a níveis onde habita a fonte do sentido que movimenta o caminho da vida.

Quando temos um motivo profundo para fazer as coisas o esforço diminui e, no seu lugar, surge uma corrente de “força”. Por acaso a vida em si mesma tem um sentido? Não sabemos se um gato pode fazer-se esta pergunta, nem sequer se dela necessita. Contudo, existem pessoas que, ao atravessar determinadas etapas da existência, fazem essa pergunta desde o mais profundo de si mesmas, talvez por sentir que é chegada a hora de amadurecer a sua alma.

Se o rumo da nossa navegação pela vida tem sentido, os ventos contra ou a favor não serão vividos como casuais, nem impedirão o continuar da travessia. É curioso que, quando o nosso ato de remar em frente está ancorado num significado profundo, surge sempre um farol no meio da tempestade. E sabemos bem o quanto, o facto de termos um motivo profundo para a travessia, nos permite levar grandes cargas.

Valorizemos a força que emerge quando nos tornamos conscientes do sentido que tem aquilo que nos ocorre no dia a dia. O sentido que a vida tem para cada um de nós não é somente uma fonte de força que nos chega do propósito, ele molda a nossa missão de vida e, com ela, a vocação que nos inspira.

“Quem tem um para quê, pode suportar qualquer como”

José Maria Doria
Fundador da Escola de Desenvolvimento Transpessoal
Fonte: “Las 40 Puertas, un camino hacia la inteligencia transpersonal y el Mindfulness” – See more at: http://escolatranspessoal.com/blog/o-sentido-da-vida#sthash.7vpvt0Rd.dpuf

O Poder do Mito

O Poder do Mito

O PODER DO MITO – Quando as Estorias nos Curam

O Poder do Mito
Quando as estórias nos curam

“Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem. Não importa o lugar, não importa a hora, não importa a estação do ano, o fato de uma estória estar sendo contada faz com que um céu estrelado e uma lua branca entrem sorrateiros pelo beiral e fiquem pairando acima da cabeça dos ouvintes. Às vezes, ao final de um conto, o aposento enche-se de amanhecer; outras vezes um fragmento de estrela fica para trás, ou ainda uma faixa de luz rasga o céu tempestuoso. E não importa o que tenha ficado para trás, é com essa dádiva que devemos trabalhar, é ela que devemos usar para criar alma.” Clarissa Pinkola EstésQuando se usam as palavras mágicas com que se iniciam os contos de fadas e as estórias mitológicas, algo acontece. “Era uma vez”, “Há muito, muito tempo”, “Num reino distante” … são frases que mudam a nossa forma de estar. As vozes baixam até desvanecer, os rostos adquirem a expressão da curiosidade e cada palavra proferida ressoa no meio do profundo silêncio de quem escuta. Esperamos estas reações das crianças, mas uma boa estória, proferida na entoação adequada, com a emoção de “quem a presenciou”, causa o mesmo efeito nos adultos. Facilmente se escutam suspiros de enlevo no final de uma boa estória. Seja ela terminada com “e viveram felizes para sempre”, ou “e ainda hoje os podemos ouvir, se escutarmos com atenção”.

O que nos leva a ficar “presos” numa estória? A pegar num bom romance para ler? A viver um filme com lágrimas nos olhos?

Vivemos as estórias não somente como se fossem nossas, mas PORQUE são nossas. É o que nos ressoa que nos comove, nos alimenta e nos cura. Podemos não conhecer o herói ou a heroína, mas certamente já vivemos essa estória, ou uma parte dela, em algum momento da vida. É essa faceta que nos toca e move e, através dela, conectamo-nos com os sentimentos dos heróis, as suas mudanças e as resoluções da sua demanda. E nos inspiramos para a nossa.

A arte de contar estórias era sagrada para os nossos ancestrais. A informação era passada oralmente, daí a importância de não poder ser esquecida. Por isso, o homem ou a mulher sábios – na figura de mestres – davam voz ao conto, ao mito, e o conhecimento era passado através de uma metáfora. A voz do mestre era sagrada e as suas palavras absorvidas num ritual, que unia pessoas, passado e presente. Desta forma, e através da identificação com a estória e inspiração profundas pelas palavras proferidas, eram transmitidos valores, tradições, vivências e segredos profundos para momentos importantes da vida.

Carl G. Jung, fundador da Psicologia Analítica, dedicou grande parte da sua vida ao estudo dos mitos. Através das suas viagens e estudos, apercebeu-se de que todos os povos do mundo contam os mesmos mitos. Com roupagem diferente, nomes distintos e um toque cultural próprio de cada lugar, o enredo e a mensagem é igual em todos os lugares. Estes estudos levaram Jung a desenvolver o conceito de Inconsciente Coletivo, a camada mais profunda da psique humana, formada por informação comum a toda a humanidade e que se manifestaria através de sonhos, imagens, símbolos e, neste caso concreto, tornando-se acessível sob a forma de mitos.
Outro conceito de Jung foi a noção de arquétipo, que poderíamos definir como “imagem primordial”. São imagens psíquicas comuns a todos nós e que se ativam em determinadas fases da nossa vida. A mãe, o herói, a guerreira, o pai, a anciã.

Todos possuímos estas imagens arquetípicas dentro de nós e, de acordo com os momentos da vida, sentimo-nos e funcionamos numa dessas formas. Podemos não ter noção clara de que estamos a viver o arquétipo, porém, quando ouvimos um mito, um conto em que ele esteja ativo, o simbolismo da estória fala-nos diretamente à alma. Somos a personagem, a metáfora dos seus conflitos é um espelho dos nossos conflitos e ganhamos, descobrimos dentro, resgatamos a mesma capacidade de sair da crise.

Todas as boas estórias têm a mesma receita. O conflito ancestral entre o bem e o mal, um desafio quase impossível e a descoberta de recursos que não sabíamos que tínhamos. Uma lição de moral sobre a força que nos sustém e nos faz avançar e a transmissão de valores universais. Uma pequena estória, com uma boa dose de inspiração, pode acordar em nós a “magia”, essa força que desperta heróis e nos inspira a tornarmo-nos a personagem central da nossa estória.

Necessitamos do conto, do mito, da lenda pessoal. Vivemos no hemisfério esquerdo do cérebro, com a racionalização da vida, a política e as contas mensais, o trânsito e a escola das crianças. O pragmatismo tomou conta do mundo e poucas vezes a arte, o silêncio e os apelos da alma são prioridade. Mas o hemisfério direito comunica e expressa-se doutra maneira. Através do não explicado, do mistério, do símbolo e do ritual. A estória é contada pelo hemisfério esquerdo, mas a metáfora do mito é entendida pelo hemisfério direito. Joseph Campbell, investigador do mitos e autor de “O Herói das Mil Faces” defende ativamente o valor e o poder dos mitos e das estórias como fonte de sabedoria e conexão com o que há de mais importante na vida. “Mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana. Eles ensinam que você pode voltar-se para dentro e começar a captar a mensagem dos símbolos. O mito ajuda-o a colocar a mente em contato com essa experiência de estar vivo. Esses bocados de informação, provenientes dos tempos antigos, que têm a ver com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, que construíram civilizações e enformaram religiões através dos séculos, têm a ver com os profundos problemas interiores, com os profundos mistérios, com os profundos limiares da travessia, e se não souber o que dizem os sinais ao longo do caminho, terá de produzi-los por sua conta.”

A tradição do contar estórias começa a revitalizar-se no campo da terapia, sobretudo, mas também na vida das pessoas para quem o símbolo, o conto e os rituais são uma forma de alimento para as suas vidas diárias. Não são somente os mitos antigos que são terapêuticos. Num mundo em evolução, repleto de novas tecnologias, descobertas e novas formas de vida, uma boa estória transforma-se num “novo mito”. Seja Harry Potter, Luke Skywalker (Guerra das Estrelas), a princesa Mérida (Brave) ou Elsa de Arendele (Frozen), revemos nas novas estórias os mesmos arquétipos de mitos antigos. E também estes se revestem de novas roupagens, nomes diferentes e pistas referentes à cultura de hoje em dia. As estórias falam connosco de formas insuspeitas. Através delas, percebemos os valores universais dentro de nós, a força, sensibilidade, as nossas características heroicas. A forma como tocados por um mito diz-nos quem somos, nesse instante da nossa vida, o que valorizamos e qual o “percurso arquetípico” que podemos fazer para chegar aos nossos sonhos.

Invista em conhecer a mitologia antiga, as estórias universais e, sobretudo, o folclore e as lendas do local onde cresceu, onde vive. Há muito a descobrir nas entrelinhas desses contos. Há muito de si, em cada personagem, nas suas forças e fraquezas, na sua capacidade de amar. Conte aos seus filhos as histórias de família, da sua infância. Ou outras estórias. Dê-lhes tempo para absorver as metáforas, ser o herói ou a heroína de um conto de fadas, identificar-se com os super-heróis.

As estórias fazem-nos bem. Elas nutrem-nos e curam-nos. Os seus exageros, atos mágicos e demandas são os nossos. Têm somente um nome diferente e caminhos mais “espetaculares”. Mas enfrentamos magos e feitiços e caminhos escuros todos os dias. Encontramos artefactos mágicos e bênçãos a cada etapa do caminho. Reconhecemos esses instantes, se estivermos atentos à nossa própria vida. Por isso, da próxima vez que se sentar a ler um bom romance, tenha em conta de que está a fazer mais do que aproveitar o lazer, ou gastar tempo. Recorde-se que está a alimentar a sua alma.

Pare, pense e reflita:

– Vive o dia-a-dia e o pragmatismo como se fossem as únicas coisas importantes? Ou arranja espaço na sua vida para o mito? Tem tempo para ler, contar ou ouvir estórias? Procure encontrar formas de nutrir a sua alma.
– Qual é a sua estória preferida? Com que personagem mais se identifica e o que é que tem a ver consigo? Que pistas lhe dá essa personagem e a sua demanda para a sua vida pessoal?
– Em momentos de crise, encontre a sua personagem mítica interna e descubra os seus recursos secretos. Se quiser, procure recordar as estórias que evocam essa mesmo personagem. Viva a experiência de estar viva.

Élia Gonçalves
Coordenadora Pedagógica EDT
Psicóloga e Terapeuta Transpessoal

Artigo publicado na revista HEALTH ADVISOR
http://healthadvisor.pt/2017/05/17/poder-do-mito-as-estorias-nos-curam/

Suster a Dor, Soltar o Sofrimento

Suster a Dor, Soltar o Sofrimento

Suster a Dor, Soltar o Sofrimento

A dor e o sofrimento fazem parte da vida, mas não são sinónimos: o sofrimento emocional pode ser eliminado, pese embora a dor seja inevitável. A dor é um mecanismo orgânico que põe o nosso sistema em estado de alerta. A dor emocional constitui-se num sentimento negativo que surge face a determinadas situações vivenciadas como negativas. Composta por uma só emoção, de duração relativamente curta e proporcional ao evento que a produziu, surge no momento em que nos sentimos feridos física e/ou emocionalmente. O sofrimento é a resposta cognitivo-emocional que temos face à dor, uma constelação de emoções e pensamentos que se entrelaçam de um modo intensivo, numa dança que se pode perpetuar indefinidamente, se assim deixarmos. Uma dor emocional poderá ser a tristeza profunda face à perda de um ente querido, mas o sofrimento instala-se quando essa mesma tristeza se converte numa depressão que poderá incluir sentimentos permanentes de raiva, insegurança, desespero, etc. e pensamentos reiterados, tais como: “É injusto!”, “Não merecia isto!”.

O sofrimento tem origem em estados emocionais negativos e equivocados, dependentes das interpretações que damos aos acontecimentos. Como se processa internamente, podemos ter controlo sobre, logo é opcional e pode, efetivamente, ser largado. Vivemos numa cultura e sociedade que negam e evitam a dor a todo o custo, o que está na raiz da dificuldade em saber manejar a mesma e aprender com ela. Por essa razão, quando vivemos uma situação dolorosa, sentimo-nos sozinhos e incompreendidos. O maior dilema não é o próprio sofrimento em si, mas o modo de lidar com ele.

Um caminho de resolução, através da expansão da Consciência.

Se conseguirmos suster a dor, permanecer com ela enquanto adultos que somos, sem rebolar no sofrimento, nem alienarmo-nos com o chamado “bypass espiritual” , chega um tempo em que ela começa a despertar-nos, dando-nos a possibilidade de questionar se é necessário o sofrimento na nossa vida e se não existirá uma outra forma de viver que seja mais plena: O que é a realidade? Quem sou? O que quero realmente da minha vida? Como criar uma vida mais positiva? Qual a minha missão? Paradoxalmente, é graças à dor que podemos amadurecer e expandir a nossa consciência.  

O apego ao sofrimento

O apego impede-nos de largar o velho e partir para o novo e é um obstáculo para qualquer mudança verdadeira, estando na origem do sofrimento. Quando encontramos justificações para ficar onde estamos e continuar da mesma forma, apesar das queixas reiteradas, estamos na presença do apego. Esta emoção confunde-se com quem somos e pode esconder algo mais profundo: o “apego ao sofrimento”, com o decorrente medo do novo, do desconhecido. Mudar é recuperar o poder pessoal e fazer escolhas das quais teremos que assumir total responsabilidade, o que significa eliminar o “conhecido e confortável” papel de vítima e implica sair da zona defensiva de conforto. Apenas o próprio, munido do desejo de mudança, e coadjuvado por um trabalho terapêutico profundo, pode sair deste ciclo infernal, rumo a uma liberdade de Ser.

Dois planos de consciência

De modo a estarmos “bem”, apesar das coisas poderem estar “mal”, sem cair na negação, necessitamos identificar dois planos de consciência: o eu que observa (o observador ou testemunha) e o eu que experimenta (o ego ou personagem, a “persona” ou máscara com a qual nos identificamos erradamente). Apenas o eu observador, o qual existe num espaço de harmonia interior, se pode dar conta daquilo que ocorre no cenário no qual se move o nosso ego: corpo, emoções e pensamentos. Testemunha isenta da desarmonia externa, “guia interno” que nos apoia e ajuda a tomar consciência do sofrimento emocional, quanto mais estamos nesse plano do observador (através da Atenção Plena e/ou da Meditação), mais harmonia interna sentimos.

Soltar o sofrimento passa por aprender a descobrir o “personagem” que interpreto automaticamente, quem acredito ser e não sou, aprender a descondicionar-me, a não colocar a causa da minha felicidade no exterior, a desidentificar-me daquilo que é passageiro, observando os movimentos da personalidade, integrando luzes e sombras, dando espaço ao Ser que sou para se expressar na vida diária e tomar consciência da impermanência do que há e do que é pois, na vida, tudo responde a “ciclos”: a segurança não existe e tudo muda constantemente. Nesta sequência podemos vivenciar momentos de cura emocional, nos quais a auto-consciência dá um salto, permitindo-nos ver o nosso ego com uma ternura infinita e compreendendo que, apesar de existirem ainda problemas por resolver, “está tudo bem”… a crise em si, passa a ser oportunidade de evolução… e o poder de actuar um fabuloso e merecido Presente!

Lúcia da Costa Soares
Terapeuta Transpessoal