Um baú cheio de Valores

Um baú cheio de Valores

“Somos os “ancestrais” de uma era que há-de vir, os geradores inadvertidos dos mitos que os suportarão, os modelos míticos que inspirarão as suas vidas.”

Joseph Campbell

Uma vez criei uma prática para um workshop de Educação que levava à reflexão profunda dos valores que gostaríamos de deixar como legados às gerações que estamos a educar; através da arte e acompanhada pelas notas certas, as que evocam a emoção, fechámos assim, de uma forma belíssima, um dia cheio de dúvidas e inseguranças partilhadas, onde o foco foi encontrar a estória certa para o educador que somos.

Esta prática tem-me surgido no pensamento muitas vezes, sempre que penso que a vida é um sopro e que se por acaso fechasse os olhos amanhã gostaria de pensar que gastei – e não “perdi” – tempo com as coisas importantes, os adubos generosos que ajudem a fortificar uma relação saudável do meu filho com ele mesmo e com o Mundo que o rodeia: os outros e o maior, a Terra, casa onde mora.

Como tão bem – só ele, mesmo! – escreve Campbell, somos os plantadores dos mitos de um amanhã distante, cuja madrugada não chegaremos a ver; antes de nós caminharam por este mundo aqueles que nos legaram, de uma forma ou de outra, a sua estória, que fez morada nas nossas almas, células, sangue, pensamento, e que é a massa, também, de que somos feitos. Por isso tantas e tantas vezes procuramos em baús bafientos, ou nas palavras dos anciãos da nossa família, ou em documentos comidos pelo pó os trilhos dos que vieram antes, para descobrir aquilo que contam de nós. Ou, simplesmente, olhamos para os pais e avós, revendo os seus valores, crenças e a forma como se movem no mundo, e o espelho dá-nos a nossa imagem de volta.

Que valores queremos legar? O que queremos, de facto, deixar como impressão emocional aos nossos filhos e educandos, que mapa de navegar queremos traçar com eles? E, mais importante que tudo, quanto tempo investimos em mapear?

Deixamos aquilo que somos, e mais nada. Deixamos a forma como nos tratamos, com doçura e compaixão ou com rigidez e exigência. Mostramos, se o fizermos nós, a capacidade de lutar pelo que se acredita, a fé, a coragem, o valor da liberdade individual, da auto-estima, da verdade interna, do saber usar a voz no tom certo a cada momento. Onde ainda há espaço para a vulnerabilidade e o saber quando já não há caminho nas escolhas feitas, e é preciso ajustar o rumo.

Ao olhar de quem nos fita, tentando aprender, mostramos a relação com o outro, ríspida, agressiva, ansiosa, ou empática, calorosa, compreensiva. E muito mais. Connosco vão descobrindo o seu lugar no mundo, a sua pertença à Terra, a importância do cuidar consciente e atento, da vida que se sente nas árvores tal como nas águas dos rios e em todos os seres vivos.

Para sermos inteiros temos de alinhar o nosso sentir com pensamento e acção; a verdade está no desenho do corpo, transparente e lúcida. É por isso que o gesto se adianta às palavras, e de nada vale ensinar o que de verdade não somos.

É por isso que tudo começa, de facto, no nosso umbigo: na descoberta de quem somos. Do que nos move a alma e faz sorrir, norteia os passos e traz sentido ao caminho. Do saber os tais valores com que queremos pintar memórias e fazer crescer seres humanos. Que, toda a gente sabe, é o maior trabalho de todos!

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES

 

 

O regresso às águas – Pele de foca e o instinto selvagem

O regresso às águas – Pele de foca e o instinto selvagem

“Todas as criaturas do planeta voltam para casa. É uma ironia que nós tenhamos construído santuários para a íbis, o pelicano, a garça-real, o bolo, o grou, o cervo, o alce e o urso, mas não para nós mesmos, nos lugares em que vivemos no dia-a-dia. “

Clarissa Pinkola Estés

Cresci numa praia e, talvez por isso, tenha alguma intimidade com as águas selvagens. Entendo o encher e esvaziar das correntes, as marés vivas, a calmaria e a tempestade. Conheço os sinais dos ventos e das neblinas e estremeço com a densidão do mar nas noites escuras. Sei que ser íntimo das águas não significa não as temer. Sei que quem está ligado às águas do oceano não consegue ficar muito tempo sem se nutrir delas. Sei que me dirigi vezes e vezes sem conta a essas mesmas águas para me reencontrar.

Cresci também junto de um poço e, se conheço a frescura da água saída do ventre da Terra, também escuto o bater atemorizado do meu coração ao espreitar para a límpida escuridão que um lugar aparentemente sem fundo.

Pele de Foca fala-me de uma mulher que não podia mais permanecer sem regressar às águas. Como me ressoa este conto. Como me conta a mim mesma desde que me recordo gente. A primeira estória pela qual me apaixonei foi A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen. A mesma estória, no fundo, reconhecida pelo tamanho que eu tinha. Encontrei-a mais tarde, nesta versão contada em quase todo o mundo, sobre uma mulher que precisa de recuperar a pele e regressar às águas para sobreviver.

A nossa mitologia pessoal habita-nos, entranha-se nos lugares mais escondidos da alma e tatua-se em nós. Não a escolhemos. Respiramo-la. E se, por vezes, a encontramos nas estórias que se entrelaçam nas nossas circunstâncias, é preciso estar muito atento às variadas versões e às encruzilhadas, pois são os momentos de Mistério nos quais podemos adentrar, ou reescrever o mito.

Acredito que todos aqueles que escutam pele de foca reconhecem o “roubo da pele” que inevitavelmente acontece ao longo de uma existência humana, tantas e tantas vezes e de variadíssimas formas. E, naturalmente, também nos ressoa o resgatar da pele, da essência, daquilo que é único em nós e que tem de ser reencontrado e vestido.

Mas há um outro olhar nesta demanda de “recuperar a pele”, que me canta aos ossos, numa melodia profunda. A mulher foca não pode regressar a casa sem a pele. Não pode mergulhar nas águas e respirar debaixo delas, nadar até à sua família e à sua estória. Sem a pele, ela é “só” humana, ainda que não inteira, pois nesta humanidade há uma separação da natureza, do ritmo da lua sob o qual as peles se tiram para dançarmos, das águas onde mergulhar para regressar a casa.

Há um lugar que precisamos recuperar. Encontramo-lo no conto Allerleirauh, também chamada Mil Peles, ou Todas as Peles. No conto, uma princesa veste-se de peles de animais selvagens e nessa capa permanece até descobrir quem é. Nesse processo, passa muito tempo escondida, entre tarefas mundanas e simples, pouco glamorosas, nas quais a astúcia própria de quem se vai remembrando, vai tecendo os símbolos e os lugares que lhe pertencem. Sem recuperar a sua natureza instintiva, felina, o processo de individuação não está completo.

Recuperar a pele é voltar a ser bicho. Recordar a natureza animal. Encontrar um lugar no qual o cheiro, o instinto, a visão, estejam alertas. A pele é o nosso maior sistema de defesa e, paradoxalmente, é através dela que tocamos o mundo e o que nos rodeia. Recuperar a pele é recuperar a fisicalidade sagrada, onde o mistério e o divino habitam. Sem a separação do corpo, da matéria orgânica, do planeta.

Regressamos às águas quando recuperamos o bicho que somos, o instinto, a fisicalidade e a ligação a tudo o que late no planeta. Quando nos tornamos pertença aos lugares e quando começamos a remembrar estória.

As águas são as senhoras da memória, o berço do nascimento da vida, as veias e o sangue do planeta. Amamo-las porque nos recordam útero e carícia, pois permeiam a nossa pele em limpeza e conversas ancestrais. Tememo-las porque, como o inconsciente, não conhecemos as suas profundidades, os lugares das cavernas submersas, as sereias, as serpentes marinhas e os lugares de Mistério que somos.

Porém, algo se torna inegável. Por onde as águas correm a vida desponta. O alimento vem. Quem viaja, aproveita para descansar e matar a sua sede. Por vezes fica um pouco mais e nesse lugar, algo acontece.

A mitologia pessoal, o símbolo, são linguagens da alma. Mas a alma é o lugar que pertence. Ela não necessita transcender, pois a sua espiritualidade é o lugar onde está. E, por isso, viver o símbolo pode ser tão importante.

Talvez a nossa fisicalidade sagrada necessite de ritmos próprios. Talvez necessite de aguçar os instintos, treinando os sentidos como o animal que somos. Talvez possa encontrar um lugar onde as águas corram e se sente, respirando, e siga com o olhar um fluxo e uma canção mais antigos que a própria vida. Talvez se possa ir remembrando, enquanto se recorda quem é e recupera estória de uma forma não racional ou cognitiva. Pois a pele que nos pertence reconhece o fluxo da água e as canções antigas.

Recuperar a pele e regressar às águas. Encontrar os lugares antigos da alma nos lugares onde os nossos pés pisam. Reconhecê-los e acarinhá-los. Haverá canção mais bela e mais antiga?

Publicado no nº25 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT

 

 

O bosque interno

O bosque interno

“Sai para o bosque, sai. Se não saíres para o bosque nada nunca te vai acontecer e a tua vida não vai começar.”

Clarissa Pinkola Estés

Ancestralmente, a Irmandade existia a cada passo. A força do círculo traçava-se desde o colo da mãe ao cuidar das mulheres da aldeia, à passagem de saberes das anciãs curandeiras, ao próprio estar ao serviço da Terra e dos seus ciclos de fertilidade e colheita. A mulher era ela própria testemunha e parte integrante desta grande roda da Vida, no seu corpo desenhavam-se os ciclos e na sua Alma guardava o sagrado dever de devolver à Mãe a abundância de que dispunha.

Quando penso nela, nesta ancestral de há tanto tempo atrás, gosto de a ver quieta, olhando o mar que se estende em frente, com o avental cheio de ervas e plantas e no olhar uma calma que vem de se saber quem se é e onde se pertence. Da conexão.

Hoje em dia este encontro é muitas vezes recordado nas linhas que entrelaçam um círculo de Mulheres. O caminho da floresta, com o seu cheiro húmido de terra, o canto da ave, as plantas e os seus dons faz-se (também) dentro, de encontro a um bosque interno onde habita essa Mulher-instinto, sábia e simples, de quem tantas vezes nos afastámos nos nossos afazeres de vida. Mas há um momento, sempre, que nos desperta e traz de volta. Que, como uma sede súbita que invade a garganta, nos exige que tracemos os passos de volta ao húmus, ao âmago, aos pés descalços pisando os ramos, às estórias e risos ao luar. Ao lar.  

O movimento de encontro à Mãe é um de redescoberta de quem somos e do nosso lugar no Mundo, um lugar mais consciente e inteiro. Um lugar onde encontramos esta mulher quieta, com o olhar de saber quem se é. Que respeita o seu tempo, o seu espaço, que tem ouvidos para escutar todas as suas vozes, da mais selvagem à mais tranquila. Uma mulher que dança com a mesma alegria com que faz amor, que que cozinha com o mesmo respeito com que cuida do seu mundo e do mundo para além da janela. Que sabe que tudo é sagrado e pertence ao ciclo da vida, desde o nascer do Sol gigante à mais pequena gota de orvalho. Que rega com minúcia este bosque interno, para não correr o risco de se perder de novo nos passos que a levam lá.

A jornada do Feminino acolhe e abraça. A (im)perfeição da vida, os sobressaltos, as lágrimas de outra irmã. No colo há espaço para embalar, no coração para escutar e partilhar. Até porque de estórias se fazem as vidas, e se encontra sempre, mesmo que na diferença, o som da nota comum que nos faz sentir que aquela também é, de alguma forma, a nossa estória.

A tal que começa quando saímos para o bosque.

 

Retiro Online de Círculos de Mulheres – A Mulher Arquetípica – 6 e 7 de Fevereiro de 2021

 http://escolatranspessoal.com/project/a-mulher-arquetipica/ 

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES

 

 

Qual o propósito de um sonho?

Qual o propósito de um sonho?

– a alma e os “lugares de lado nenhum” –

Há um sonho que nos está a sonhar.

Kalahari Bushman

 

Qual é o propósito de um sonho? De um amigo imaginário? De uma estória bem contada e que nos remexe as entranhas ou lida numa tarde de chuva, por entre mantas e chás quentes?

Que partes de nós se alimentam e sanam, respiram vida e emoção ao recordar um mito antigo? Onde se situa o sonhar acordado nas nossas apressadas vidas?

Remetido para um canto da infância, ou para um lugar de escapismo, apenas prestável aos artistas (e nem todos têm essa benesse), o Imaginário tornou-se pouco útil aos olhos do racionalismo humano, num mundo onde o estímulo-resposta e o Objetivo-Produto-Meta são soberanos.

Desbravámos terreno pelos meandros da consciência e da psique, escavando no autoconhecimento, no desenvolvimento e na terapia. Adentramos nas melhores versões de nós mesmos, como indivíduos, pais e mães, professores e elementos de um casal. Escavámos as feridas e a criança, as sombras e o perdão.

Só que nos esquecemo de trazer a alma na bagagem, o mistério, as povoações secretas da imaginação, os “lugares de lado nenhum” onde as regras conhecidas não se aplicam. A tradição oral, a poesia e a arte, os sonhos e os rituais habitam esses lugares.

Mundus Imaginalis é o termo usado por Henri Corbin, um especialista da filosofia Sufi, para esse Reino. Um espaço-mundo que coexiste entre o mundo natural e o mundo do divino, não percetível pelos sentidos da forma como os habituámos a usar. Onde a dualidade matéria e espírito ou realidade e mito não se aplicam, pois na verdade não há um “lugar” para este reino que não a alma. Somente aí nos relacionamos com o mundo arquetípico, mitológico, mágico, sagrado e latente de vida. E é também desse lugar que a alma do mundo se relaciona connosco.

O que somos nós sem eles? Os lugares da alma, repletos de símbolo e magia, sincronicidade e mistério? De que servem as ferramentas, se perdemos a capacidade de nos assombrar com o mundo que nos rodeia?

De celebrar a passagem das estações e a mudança das luas, escutar e reverenciar a vida nas suas variadas formas? De sentir as marés e os ventos do deserto, os sussurros da brisa e a dança das arvores? Quem somos nós quando nos perdemos da magia?

Ainda que seres individuais, existimos na verdade também como seres coletivos e arquetípicos.  Somos seres em crescimento. Somos também pertença. A pessoas, a aldeias, a paisagens e a estórias. A sonhos e a poesias. E somos magia e eternidade. Estórias mil vezes contadas; por vezes narramo-las nós, outras vezes, somos nós a ser contados.

E quantas vezes somos “contados” num sonho antigo, nosso ou de outros, ou talvez do próprio mundo, numa estória narrada por uma voz intemporal, junto de uma lareira numa noite de Inverno? Quanto de nós se sana, quando nos permitimos viver dentro de uma boa estória?

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT

 

 

Filhos da Terra

Filhos da Terra

“Vocês devem ensinar às vossas crianças que o solo a seus pés é a cinza dos nossos avós. Para que respeitem a terra, digam aos vossos filhos que ela foi enriquecida com as vidas do nosso povo. Ensinem às vossas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão a cuspir em si mesmos.

Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra.

Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.”

Chefe Seattle, discurso de 1854

 

Nunca o despertar da consciência humana, o seu desenvolvimento e propósito no mundo foram tanto uma demanda como nos tempos que correm. O nosso lugar no mundo e a forma de usar os nossos dons e talentos são a estrada a percorrer, os trilhos a desvendar, a montanha para subir. A consciência transpessoal – para além da persona e do que “achamos que somos” – abriu clareiras de silêncio, contemplação, desidentificação e transcendência.

E, ainda assim, por vezes esquecemo-nos de que a unidade, o todo, o espaço transpessoal latente no universo não abarca apenas seres humanos.

Se é que alguma vez foi possível ignorar que somos uma teia de gente a morar num mesmo local, ainda que com vistas diferentes, e que a forma como escolhemos habitar o nosso pedaço de mundo toca leve ou fortemente nessa teia, carregando peso, tal já não é mais uma possibilidade.

Como “o sangue que une uma família”, a terra une tudo. Vivemos talvez sem pensar muito (ou nada) nisso, mas tudo o que nos alimenta, veste, calça, protege é dádiva deste nosso pedaço de Terra, que tantas vezes tomamos como garantido, como se existisse um recurso divino infinito de água bebível, campos de cultivo férteis, plantas e animais. Mas não há. E é só olhar em volta com olhos despertos durante o nosso tempo de vida e contar os anos de seca, em que, como na travessia terrena de Deméter em mágoa interna, nada cresce nem floresce, ou as espécies que se extinguem, deixando vazios incalculáveis em cadeias alimentares, ou os mares que galgam areias ou derretem glaciares antigos, morada de irmãos de quatro patas.

Há um engano profundo quando vivemos espiritualmente sem viver esta matéria, sem cuidar disto de que somos feitos. Carne, ossos, músculos, sangue, isso tudo que nos habita, o templo sagrado do corpo, que nos fala tanto de sobrevivência como de desfrute. Mas para viver de facto esta matéria há que cuidar do que nos nutre. Há que proteger o espaço onde abundam os cereais que nos oferecem os grãos; há que poupar a água que nos mata a sede e faz vibrar as células; há que limpar os solos do nosso rastro, fazer escolhas mais conscientes e equilibradas, dar colo a esta Mãe abundante, sagrada e fértil que nos acolhe e a cujo regaço voltaremos um dia. Porque também ela envelhece e ganha rugas aqui e acolá, se não temos cuidado. E porque não queremos limitar-nos a sobreviver, mas a viver em pleno. E a plenitude, como bem sabemos, dá trabalho. Porque implica nutrir o Todo.

Não há sagrado sem profano, e são ambos um e o mesmo, se formos a ver.

O segundo engano vem de um “Somos Todos Um” que julgamos que se remete apenas à Alma. É bem maior do que isso. Mesmo que uma árvore caia na floresta sem ninguém a ver, o seu silêncio, ou ruído, chegarão a cada um de nós. Este é o poder, belo e destruidor, da teia. A ausência da mais pequena abelha leva à ausência de culturas como frutos silvestres, abacates, laranjas, castanhas, etc, importantíssimas para a sobrevivência humana. O impacto do aquecimento global tem como consequências o degelo, o aumento do nível do mar (menos terra para habitarmos), ciclones, secas extremas, extinção de espécies. A teia está viva, o mais singelo toque espalha-se como uma pequena chama em vegetação seca.

O terceiro engano nasce do próprio umbigo. Não somos só nós e o nosso tempo. Devemos a quem vem depois, filhos, netos, bisnetos, aos trisnetos que não conheceremos o legado de uma Terra própria para prosperar. Devemos-lhes a educação para uma espiritualidade ecologicamente consciente e enraizada, a noção de que este espaço é finito, tem fronteiras e, mais que tudo, que é a nossa Casa. E é como tal que deve ser tratada.

Contemplar o todo e ser uno com o cosmos é – absolutamente – ajoelharmo-nos no húmus (não é daí que vem a humildade?) e servir a parte desse todo que nos permite estar vivos. Somos também planta, árvore, grão, animal, pedra. Somos água e oxigénio. Somos vida e servimos a vida.

Nem todos temos de ser ativistas no Pantanal. Cabe-nos, sim, o ónus de pequenos (grandes) gestos de um quotidiano mais ambientalmente sustentável. Menos plástico, menos eletricidade, menos água, mais reciclagem, mais procura de informação sobre o que se passa neste planeta.

Afinal, somos (só) vizinhos.

Está mais do que na altura de começar a dizer Olá ao que nos rodeia.

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE EDUCAÇÃO MINDFULNESS E FACILITADORAS DE CÍRCULOS DE MULHERES