Mitos e Histórias – escutar a canção do Universo

Mitos e Histórias – escutar a canção do Universo

A janela do amanhecer tem segredos para sussurrar. Não adormeças de novo.

Rumi

 

Ao tentar oferecer uma definição mais clara sobre mitos, histórias, lendas e afins, chega-me uma simples frase da Clarissa Pinkola Estés: “quando se conta um conto, a noite vem.”

A força destas palavras abana-me sempre, retirando-me dos meus lugares seguros e constantes. Detenho uma breve imagem de mim na noite, deitada na areia a contemplar as estrelas. Ou desperta devido a uma insónia, rodeada de silêncios e observando a rua pela janela. Nestas memórias, independentemente da idade que tenho, a sensação é similar à de uma criança. A noite é o mistério e contém tesouros e segredos que me alcançam, ainda que não os possa definir. Sou ínfima na vastidão de tudo o que vejo. E, no entanto, pertenço a esse todo. Vibro na dança entre o maravilhamento e o temor.

Talvez seja aqui que as histórias e os mitos nos colocam. Nesse lugar em que tudo é imenso e avassalador e, no entanto, conta-nos a nossa história, o geral e o particular num só bailado. 

Poderíamos dizer que, a nível simbólico, transpessoal, ritualístico, os mitos são poderosos guias psíquicos. Numa primeira abordagem, eles têm como função harmonizar-nos, levar-nos a conhecer os ciclos naturais do planeta. Os mitos são guias agrários, sazonais e psíquicos. Ensinam-nos a aceitar a natureza, esteja ela ao redor ou dentro de nós, e a viver de acordo com ela. E, desta mesma forma, forjam peças fundamentais para que possamos encontrar as pistas para fazer as passagens iniciáticas ao longo da vida.

Nos mitos e nas histórias, o mundo “mais que humano” não serve para ser dominado. Ele faz parte do Mistério. Pertence, da mesma forma que nós pertencemos e, por vezes, é um mestre do conhecimento antigo. A separação entre o humano e o não humano e a dominância de um sobre o outro vem da cristalização de conceitos, da descontextualização e da dualidade entre o bom e o mau. Como refere Joseph Campbell, “sempre que nos afastamos da eternidade, encontramos a dualidade. Temos de ler (os mitos) em poesia e não em prosa.”

As histórias são metáforas e, por si mesmo, as metáforas e os símbolos referem-se ao que não pode ser expresso, pois o poder e a imensidão dos significados diluem-se numa explicação simplista. O símbolo leva-nos continuamente à conexão com o Mistério. Esta é outra função dos mitos e das histórias. Abrir-nos para o Mistério da própria vida. Despertar-nos para uma maior consciência sobre a arte de se estar vivo.

Porém, o ponto mais brilhante dos mitos e das histórias tem pouco a ver com definições ou significados. Escutar a história, contar a história, é mais importante do que desvendar a história. Essa é a grande e mais importante função. Uma história serve para ser contada. E se uma história é contada, ela deve ser escutada.

Incluo aqui, naturalmente, a nossa própria mitologia. As nossas histórias pessoais, os sonhos, os anseios, os pequenos episódios que nos transformam. As versões da história nas quais estamos encurralados. As partes da história onde vivemos. As que não conhecemos. Há que destapar as histórias e contá-las. Todas as histórias nasceram para ser contadas. Todas as histórias trazem dentro a canção do universo. Este é o lugar dos contadores de histórias.

Como escutar a canção? Escutando a história. Deixando que se entranhe nos sentidos, permitindo que se molde ao nosso respirar. Como é que a história nos toca e transforma? O que nos sussurra? O que acontece à nossa volta quando a ouvimos? Como lhe pertencemos ou ela nos pertence? Que parte somos nós e como a terminaríamos? O que necessitamos dela, no momento presente?

Remembrar é voltar a unir o que estava desmembrado. Enquanto conceito psicológico, acrescenta-se-lhe o contexto de memória, pois há um jogo com a palavra “remember” (recordar). Quando me permito contar ou escutar a história, recordo, dou-lhe corpo, volto a unir aquilo que foi separado.

Remembro a história quando me ouço a contá-la e me aproprio das novas mensagens que me traz, das circunstâncias onde a situo, das paisagens que me evoca. Quando me dou conta das reações físicas que tenho quando a história me toca. Das pessoas que me lembra, das vivências em que vivenciei (literal ou metaforicamente) aquilo que estou a contar ou escutar. Remembro-me quando me permito viver dentro do Mistério.

Talvez os primeiros contadores de histórias fossem artistas, por si mesmos criadores de mitos. Homens e mulheres atentos à canção do universo. Pessoas que evocavam “a noite” de que nos fala Clarissa Pinkola Estés, maravilhando-nos com a magnitude das estrelas e trazendo a dança entre o maravilhamento e o temor. Pois não há outra forma de vivenciar o Mistério.

Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem. Não importa o lugar, não importa a hora, não importa a estação do ano, o fato de uma história ser contada faz com que um céu estrelado e uma lua branca entrem sorrateiros pelo beiral e fiquem pairando acima da cabeça dos ouvintes. Às vezes, ao final de um conto, o aposento enche-se de amanhecer; outras vezes um fragmento de estrela fica para trás, ou um feixe de luz rasga o céu tempestuoso. E não importa o que tenha ficado para trás, é com essa dádiva que devemos trabalhar, é ela que devemos usar para criar alma.

Clarissa Pinkola Estés

 

 

 Publicado no nº30 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
DIRECÇÃO CRIATIVA E DE PROJETOS EDT

 

 

O Tempo das Encruzilhadas – os conflitos e as personagens internas

O Tempo das Encruzilhadas – os conflitos e as personagens internas

Os deuses criaram a humanidade porque adoram escutar estórias.

Provérbio Africano

Escutamos poucas estórias. Escutamos pouco, as estórias. Num mundo de previsões, opiniões, dados científicos e uma necessidade cada vez mais prevalecente de nos sentirmos seguros perante certezas e lógicas lineares fornecidas por algo (ou alguém) que prometa tomar conta de nós, esquecemo-nos de escutar as estórias que nos conectam com as dimensões sagradas da nossa vida interior. Se as escutássemos, muitas e muitas vezes, com uma atenção para além de um sentido físico, talvez surgisse um lugar para acolher as encruzilhadas.

A mitologia pessoal é uma forma de se olhar para a terra da alma, melhor dizendo, o mapa da nossa própria alma. A alma é o sítio dos lugares profundos. É também o lugar que imagina (em sonhos, fantasias, anseios e na nossa relação com o sagrado). A capacidade de imaginar – tão mais complexa e importante do que a forma corriqueira com que a empregamos – é o que nos faz entrar em contacto com a alma do mundo. Neste lugar, metaforicamente, trazemos os trilhos abertos, as florestas densas, as barreiras que nos impedem de seguir viagem. E, naturalmente, trazemos as encruzilhadas.

Na mitologia, nas antigas estórias, as encruzilhadas são pontos de paragem que conduzem a uma escolha. Porém, ao ser uma boa estória, a escolha não é linear, nem óbvia. Existe algo na encruzilhada, para além das direções. Um símbolo cujo significado não é claro. Uma pedra de forma estranha. Uma seta virada ao contrário, que confunde sobre o sentido a tomar. Um corvo ou uma raposa, com um sorriso matreiro e um olhar enganador.

Por vezes uma anciã, como a Baba Yaga eslava, que nos provoca com uma pergunta sem resposta adequada. Ou um demónio cujo desafio colocado relativiza tudo o que conhecemos como “verdade”. Estas figuras, perturbadoras e que desmontam o que, aparentemente, estaria arrumado, eram ancestralmente referidas como “daemons”, os antigos espíritos dos lugares.

Estruturas psíquicas que surgem sob a forma de elementos desconcertantes, elas funcionam como o “trickster”, o matreiro que age para além do bem e do mal. Transportam a duplicidade, a polaridade, mas também o que está para além da dualidade, pois não encaixam em nenhum sistema ou rótulo. Acabam por ser ajudantes, mas não pela sua bondade. Elas pedem-nos uma superação de provas, que testam as certezas, o caracter e as metáforas pelas quais vivemos.

Deparamo-nos com uma encruzilhada quando a vida que estamos a viver já não ressoa com quem sentimos ser. Essa é, provavelmente, uma das grandes questões míticas da vida. Quando o mito pessoal prevalecente (aquele com o qual temos vivido) se depara com um mito pessoal emergente (algo novo que clama por nascer). Quando as nossas personagens internas deixam de encontrar espaço para se movimentar. São momentos de profunda incerteza, pois os valores que nos regiam, a sabedoria interna que iluminava os passos, cessa a sua voz. Já não podemos escutar os sinais de um mito que deixou de ressoar connosco. E, em plena encruzilhada, não conhecemos ainda as roupagens do novo, do emergente, da nova vida que nos chama.

Nestas alturas, sem certezas internas, corremos o risco de fugir. Voltar para trás, enveredar por um qualquer caminho, agarrar-nos a convicções que já não temos. Sob o medo e o desconforto da encruzilhada, abandonamos tantas vezes a autoridade interior, em prole de certezas “vendidas” pelo mundo. É mais cativante acreditar na linearidade do bem e do mal do que na complexidade arquetípica que somos.

Porém, a encruzilhada chama por outras personagens em nós. Os divergentes. Os que fazem as perguntas. Os que acolhem a incerteza. Os que encontram um caminho onde as respostas fáceis não existem. Somos esses também, se soubermos escutar as estórias. Os mitos, os grandes temas, as personagens que trazemos dentro não se vestem de linearidade. Quanto mais ancestrais as estórias, maior complexidade trazem.

Encontro temas míticos pelos quais vivo e personagens internas na minha própria história. Um dos meus bisavôs era guarda fiscal. Outro era contrabandista. Viviam em terras rivais, um de linhagem paterna, outro de linhagem materna. Cresci com o guarda-fiscal, mas sonhava com o contrabandista. Escutando as suas estórias, compreendi uma parte do meu próprio mito pessoal, as metáforas pelas quais me rejo. Eu “sou” a contrabandista e a guarda-fiscal. Vivo ambas, escuto as suas vozes em circunstâncias diferentes. Abraço o guarda fiscal, pisco o olho ao contrabandista.

Porém, quando encontro uma encruzilhada, escolher um deles não me traz qualquer satisfação. A sua polaridade não me consegue acalentar. A encruzilhada pede-me que sacrifique a consciência linear em prole do desconhecido. Que encontre a terceira via, o olhar do paradoxo. Não sou um ou outro, sou ambos. Qual a solução que escolheriam, perante um desafio do espírito do lugar? A resposta não surge logo e requer tempo para que se instale dentro de mim. Parte do processo vem da incerteza de saber se algum dia escutarei a voz desta nova personagem. Não sei quem ela é, mas caminho na fé de que abarcará a minha dualidade.

O mapa da alma é-nos fornecido através dos trilhos que arriscamos percorrer. Na encruzilhada, surge um convite a uma paisagem inexplorada. Há que forjar a personagem que caminhará por essa senda.

Nas palavras de Joseph Campbell, “Se queremos mudar o mundo, temos de mudar a metáfora”.

Publicado no nº29 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT

 

 

Os Ventos do Deserto – a natureza selvagem da psique e a criatividade

Os Ventos do Deserto – a natureza selvagem da psique e a criatividade

Viver é uma forma de não estar seguro, de não saber o que vem a seguir, nem como.

Desde o momento em que descobres como, começas a morrer um pouco.

O artista nunca sabe do todo. Adivinha. Pode enganar-se, mas lança-se uma e outra vez no desconhecido.

Agnes de Mille

A Sul do país, conhecemos bem o Levante e o Siroco, os ventos do deserto, que chegam sem avisar e despenteiam as marés, a areia e as emoções. Não nos escapamos deles, permanecem sempre mais do que um dia e desencorajam tardes de calor e suaves banhos de mar tranquilo. Quando o Levante vem, as ondas crescem de forma bravia, a areia eleva-se em espiral, entranhando-se nos lugares mais recônditos e picando a pele despida. Se fugimos deles, há um desassossego que nos amarra. Não se controlam os ventos do deserto. Quando chegam, resta-nos aguardar e seguir o rumo a que levam, escutando a promessa sussurrada de noites cálidas e marés quentes.

Habituei-me a sentir o Levante dentro do peito, mesmo quando não estou no Sul. Quando não sei se as marés estão bravias ou se as espirais que se soltam das dunas me picam a pele ou se entranham nos lugares mais inóspitos. Os ventos do deserto soltam-se dentro e despenteiam os cabelos e a arrumação. Abafam certezas e sossegos, espantam a tranquilidade e despertam as emoções mais intensas, como cavalos selvagens correndo dentro do peito. Não há como controlar a ventania quente que nos descarna. Ela vem sem aviso e desnorteia, desaustina, sem que nada possa ser controlado. Há um apelo, porém, para mergulhar dentro. Adentrar no deserto e seguir os murmúrios de lugares diferentes.

Quando os ventos me visitam não perduro num lugar simples. Não é fácil, dócil ou ameno. Há uma ânsia de absoluto, uma dor profunda de saudade, um instinto selvagem de alcançar paisagens que desconheço. Os ventos do deserto enredam, com as suas estórias tecidas em suspiros, uma saudade não se sabe bem do quê, a maresia que nos chega à pele como a carícia de um amante por quem se espera há muito. Se lhes fujo, distraindo-me ou forçando-me a regressar a um lugar conhecido, integrado e bem-comportado, veste-se-me uma aridez intensa, como se o vínculo mais profundo da alma me fosse cortado.

Por isso, subsisto nesse espaço de desarrumação interna, em que os sussurros se transformam em gritos e danças selvagens, as marés me correm nas veias e nada mais posso fazer para além de criar os lugares por que tanto anseio. Escrevo, na maioria das vezes. Noutras cozinho, escolhendo ingredientes e especiarias com total dedicação. Experimentando novos sabores, como se o tempo não fosse importante. Ou vou para a floresta, para junto do mar, para qualquer paisagem que reflita a minha própria natureza interna.

 A criatividade tem cheiro destes lugares de Levante. Ela não é perfeitinha, nem encaixável numa prateleira, num horário ou numa secretária bonita e organizada. O novo não chega de espaços estéreis e conhecidos. Os nascimentos necessitam de ventre, de escuridão, húmus e lugares quentes.

O impulso criativo vem da natureza selvagem da psique. Ele aparece como as marés vivas, as grutas escondidas cheias de perigos e tesouros, as florestas densas de vida e lugares secretos, os desertos extensos com oásis parcos e verdejantes. Não sabemos ao que vamos. Quanto tempo demoramos. Sabemos que ele não depende dos tempos planeados da nossa vida. E que não pode ser domesticado.

Nos mitos antigos e contos de fadas, as heroínas perdem-se na floresta, escondem-se em troncos de árvores, tecem camisas de ervas venenosas que lhes aguilhoam as mãos e as deformam, ou descem ao submundo e são viradas ao contrário, sangrando durante três dias. Elas saem dos lugares protegidos da sua psique e são expostas à sua natureza selvagem até que a mesma seja acolhida. Não há doçura ou conforto. Nem uma lógica racional, ou um tempo delineado. A aparente passividade dorida como resposta à proposta que a vida traz é, na verdade, a rendição profunda ao ímpeto para sair de lugares seguros e caminhar para um lugar que nos despenteia e obriga a seguir outro rumo.

Ninguém se perde conhecendo o caminho. É nos trilhos desconhecidos que o impulso de vida encontra solo fértil. A casa na floresta, o cavaleiro nobre, o renascimento e a soberania eventualmente aparecem. Especialmente se não estivermos à espera.

Acreditamos que devemos transformar sombras em luz, seguir os ritmos fluídos da vida e que o esforço e a dor são forças opostas à criação. Mas a semente brota com esforço e o crescimento da planta vem contra a força da própria gravidade.

A psique selvagem, como a criatividade, é uma paisagem inóspita, paradoxal e indomesticada. Os demónios internos, os espíritos dos lugares, as feridas que transformámos em cicatrizes trazem-nos a desarrumação necessária para sair de regiões seguras e infecundas. Somos levados a conhecê-los, permanecemos durante um tempo, vivendo o sublime e a dor profunda, a beleza e o desespero, a saudade e o amor. Eles não se tornam aliados porque os controlamos, entendemos ou transformamos. Porém, perdemo-nos neles pressentindo que, como numa promessa sussurrada pelo Levante, algo nascerá de onde aparentemente nada havia. E nesse lugar, onde cuidamos, tecemos, cozinhamos, escrevemos, pintamos, acariciamos, descobrimos que os ventos do deserto nos trazem anseios daquilo que, na verdade, trazemos dentro.

Diz um provérbio Tuareg que “Deus criou o mar para que o Homem pudesse viver e alimentar-se e criou o deserto para que ele pudesse descobrir a sua alma”.

 

 Publicado no nº28 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT

 

 

O Nome da Água – as estórias na nossa relação com a vida

O Nome da Água – as estórias na nossa relação com a vida

Uma estória é como a água

Que aqueces para o teu banho.

Ela leva mensagens entre o fogo

e a tua pele. Ela deixa-os encontrar

E isso limpa-te!

Rumi

Quando eu era pequena, vivia numa casa muito antiga, comprada pelo meu bisavô. A casa era grande e a cozinha ampla fora construída de forma a abarcar o poço, aquela entidade que parecia ter vida própria, com uma abertura enigmática para lugares antigos. Lembro-me de me debruçar sobre ele, quando era destapado, num misto de curiosidade e temor, para observar o meu reflexo espelhado na escuridão das águas. Existe qualquer coisa de mágico e desconhecido em partilhar a casa onde se vive com um poço. Era uma sensação que transbordava para mim, quando entrava na cozinha. Ele estava ali e a sua presença fazia-se sentir.

Tínhamos água canalizada, mas havia uma certa responsabilidade nas vezes em que se abria a torneira. As águas do poço eram usadas, por isso, sempre que necessário. Para lavar vegetais, regar o jardim ou cozinhar.

Existiam outras regras. Depois da meia-noite, ninguém tirava água do poço. Um dia, perguntei ao meu pai porquê.

– Porque a água está a dormir. – respondeu-me. – Não se acorda a água. Mas, se um dia precisares mesmo, tens de a chamar primeiro pelo nome. Chama-a três vezes. Depois disso, poderás utilizá-la.

A sensação, já existente, de que o poço tinha vida, juntamente com o facto de a água dormir e ter um nome moldou a minha relação com a água. A forma como a utilizo, como a bebo, como a encaro e comunico com ela. A água está viva, não somente porque é feita de elementos químicos ou porque abarca seres vivos nela. Ela está viva porque dorme e tem um nome, porque se move pelo mistério e sou eu que tenho de aprender a vê-la e a aceitar que ela me vê. Ela merece o meu respeito, a minha atenção e o meu cuidado. Ela merece a minha reverência e a magia da reciprocidade.

No imaginário de uma criança, o mundo é um lugar pleno de vida, de encantamento e possibilidades. Aquilo com que nos relacionamos tem vida e comunica connosco, seja um pássaro a cantar, uma princesa numa torre antiga ou a água cujo nome temos de chamar. Acredito verdadeiramente que isto não acontece às crianças porque são crianças, mas porque o seu olhar ainda não foi quebrado pela ilusão de separação do mundo a que pertencem e, dessa forma, elas sabem e podem conectar-se com ele.

 Porém, as estórias, sejam pessoais ou coletivas, pertencentes ao folclore regional ou sob a forma de contos de fadas, parecem ter sido remetidas a lugares de infantilidade, fantasia e imaturidade. Esquecemo-las ou ignoramo-las, como uma tarefa própria do ato de crescer.

Adulteramo-nos na tentativa de ser adultos, abandonando as roupagens da alma e do sagrado, desalmando-nos do encantamento e da vida que late em cada um dos nossos passos. O vazio ganha espaço, enquanto os ritmos, as estações, as estrelas e a terra debaixo dos nossos pés se tornam objetos. A solidão emaranha-se num corte profundo que nos desconecta do mundo sagaz onde pertencemos.

Mas as estórias conduzem memória. São a grande linguagem da alma, o elo de ligação entre o passado, presente e futuro, a entrada para o Mistério e para a consciência subtil de que tudo o que nos rodeia vive e comunica. Elas são orgânicas e entrelaçam-nos na própria vida em si. Se nos ligam aos elementos, à natureza e aos seus habitantes, moldam a nossa intimidade com eles. Torna-se fácil amar e cuidar o que conhecemos.

Recuperar estórias é restaurar a ligação ao mundo. Adentrar na vida por inteiro. Fazer parte do corpo da terra, permitirmo-nos ser sonho para além de sonhador.

Onde estão as nossas estórias preferidas? Ainda as escutamos, lemos ou contamos, permitindo que nos vistam novamente desses lugares? Deixando que nos atravessem, transformem, emocionem e alimentem?

Para onde remetemos as estórias da infância, das avós e das velhas sábias que habitavam lugares isolados? Onde deixámos a memória dos pés descalços na areia, dos mergulhos nos riachos e das ligações profundas a flores e a pequenos animais? Onde estão as receitas antigas, os rezos, as mezinhas, as canções? Essas memórias repletas de cheiros, sensações e eternidade?

A nossa mitologia pessoal veste-se do que lhe damos, interna e externamente. O seu alimento tem a riqueza que permitirmos. Vivemo-la, com maior ou menor consciência, conhecendo os seus meandros ou nem por isso. Precisamos de substituir a fantasia de um mundo controlável e que nos serve, para o lugar da Imaginação – como o grande caldeirão da alma! – onde nos deixamos inundar pela vastidão da vida a que pertencemos. Precisamos de resgatar os lugares míticos dos nossos percursos, as estórias onde fomos criados, o direito pleno de fazer parte de um universo vivo.

Talvez, se o consentirmos, possamos sentar-nos um pouco com o Mistério. Escutar, falar-lhe ou permanecer num silêncio partilhado. Comover-nos com os malmequeres que desabrocharam, ou onde nasceu uma ninhada de coelhos. Encontrar as personagens que perdemos. Recordar que já morámos onde a água dormia, caminhamos junto a árvore abençoada ou por numa ribeira onde uma Moira Encantada pedia três tarefas.

Nesse lugar, podemos dar connosco junto a um poço, depois da meia-noite. E, numa necessidade de saciar a sede, talvez olhemos para a água, lá em baixo, com um misto de temor e reverência, e a chamemos baixinho:

– Maria… Maria…Maria…

Quem sabe, esse primeiro gole nos traga mais de sagrado do que sede saciada.

 

 

 

 

Publicado no nº27 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT

 

 

Como se bebe a Vida? – a terceira tarefa de Psique

Como se bebe a Vida? – a terceira tarefa de Psique

Afrodite, torcendo as sobrancelhas com uma gargalhada, disse:

«(…) olha bem para aquele monte, onde estão aqueles penhascos muito altos. De lá sai uma fonte muito negra; desce por aquele vale, onde faz curvas negras e turvas; e dali saem alguns riachos infernais. Dali de cima daquela fonte, traz-me esta taça cheia de água.»

(…) Psique, viu uma grandiosa dificuldade para chegar, porque o penhasco parecia que chegava ao céu, tão liso, que não havia quem por ele pudesse subir.  Para além disso, guardavam-na dois dragões atentos e espantados, sempre alerta. (…) Quando ela tentou subir, as mesmas águas falaram-lhe:

«Psique, afasta-te daí. Não tentes aproximar-te, ou morrerás.»

Mas a águia real de Zeus apareceu de asas abertas e disse:

«Não sabias que estas águas do Estige são proibidas aos deuses e até à Zeus? Dá-me essa taça.»

 A águia voou e encheu a taça, trazendo-a a Psique, que a levou a Afrodite.

Nesta terceira tarefa de Psique, na sua demanda para conseguir o apoio de Afrodite e, desta forma, alcançar o perdão de Eros, é-lhe pedida uma tarefa “impossível”. Encher uma taça de cristal da fonte de águas que alimenta o Estige e o Cócito, que brota do cimo de um penhasco. O Estige e o Cócito são rios associado ao submundo e o Estige desce de uma montanha imensa, desaparece em direção ao reino de Hades e regressa ao cimo da montanha. É um curso de água circular, que toca a luz e a escuridão, o dia e a noite, o sagrado e o mistério. Ele flui de cima para baixo e de baixo para cima. Uma fonte circular urobórica, já simbolizada nos dragões que a guardam. Une a escuridão e a profundeza inconsciente e misteriosa do mundo inferior ao elevado e inacessível cimo da montanha, o mundo superior. É um dos cinco rios que atravessam o submundo e a característica deste é a invulnerabilidade. Foi neste mesmo rio que Tétis mergulhou Aquiles para o tornar invulnerável. O Cócito é o rio das lamentações. Apesar de não se falar nas propriedades destas águas no mito – até porque o pedido é que se vá à fonte das mesmas – fica a curiosidade do perigo de nos podermos afundar na invulnerabilidade ou na lamentação.

Psique tem, desta forma, a tarefa de subir uma montanha impossível, guardada por dragões ancestrais e encher a taça de uma fonte na qual, o mais provável será afogar-se e morrer. De alguma forma soa-me a “comum” e conhecido na vida que adotamos, como se parecesse o esperado de se fazer. Tarefas impossíveis e abissais, por entre a dança da lamentação e da invulnerabilidade que nos esgotam e mutilam. Sem abrir espaço para saborear o que há a cada instante, um doce-amargo com ramificações que enlaçam, sem que necessitemos de nos agarrar somente a um dos lados.

Como as outras anteriores – separar as sementes e apanhar a lã dos tosões – esta soa a uma tarefa de desespero, no qual o mais provável é a morte. E, da mesma forma, é a subtileza e a mudança de perceção que a salvam.

A vastidão das águas, o dia e a noite, o visível e o invisível, a vida e a morte, o sagrado e o profano são mais do que conceitos, eles surgem-nos como a própria vida, experiências intensas que nos habitam e envolvem. As propostas surgem-nos sem ser apresentadas, o surgimento da menarca, uma ferida antiga que vem à superfície, uma paixão intensa, uma descida ao nosso próprio submundo. Como tudo o que vem das profundezas, da fonte de vida, e rompe num momento específico, não pode ser contido, não depende da nossa vontade e é avassalador. Se existem elementos visíveis e palpáveis dessas experiências, outros são inconscientes, profundos e, como as águas circulares, falam-nos de morte e renascimento internos.

Como se lida com a vastidão das águas? Como se abraça a imensidão das experiências?

Como se bebe a vida?

É o segundo elemento mítico que nos surge como um sussurro de perceção. A taça de cristal.  A taça, contentora de água da vida. Recetora, feminina, cristalina e preciosa, a capacidade de receber o fluxo selvagem em pequenas porções e dar-lhe forma.

Numa civilização que nos impele a obter o máximo possível de experiências, no mínimo tempo possível, com o máximo de controlo sobre as mesmas, vivemos assoberbados com a insuficiência e a ambição assola-nos em diversas formas. Sucesso infindável, posses materiais, processo pessoal interminável.

Tanto queremos chegar à montanha inacessível, que nos esquecemos da taça. E, sobretudo, da águia.

A águia é sagrada para a maior parte das tradições ancestrais. Ela é a visão, o distanciamento necessário e a possibilidade de olhar a vastidão da vida sem me afundar nela. Considerada um psicopompo (mensageiro, elemento que viaja por entre os mundos, podendo unir o mundo visível e o invisível, o sagrado e o profano), eleva-se acima do terreno para contemplar o padrão geral. Ela permite-nos ampliar a perspetiva para a ausência de soluções de uma visão limitada pela própria magnitude da experiência.

Independentemente do ruído, da vastidão das águas da vida, da necessidade de posse que vem de um controlo mutilador, o que necessitamos mesmo, a cada instante? O que nos toca viver? Qual é a porção necessária?

Como se bebe a vida?

A montanha inatingível pertence ao próprio mistério, com o seu fluxo de vida e morte. Saborear a imensidão da vida é saborear uma porção dela, conhecer o que nos toca, a parte que nos cabe, os lugares que ocupamos e onde pertencemos. Olhar para além dos lugares comuns, desconstruir conceitos e treinar a visão ampliada dos padrões gerais do mundo. Não tirar para além do necessário. Encontrar a minha taça e enchê-la quando é preciso. Saborear a vida.

Como se bebe a vida? Um trago de cada vez.

Publicado no nº26 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT