Os Ventos do Deserto – a natureza selvagem da psique e a criatividade

Os Ventos do Deserto – a natureza selvagem da psique e a criatividade

Viver é uma forma de não estar seguro, de não saber o que vem a seguir, nem como.

Desde o momento em que descobres como, começas a morrer um pouco.

O artista nunca sabe do todo. Adivinha. Pode enganar-se, mas lança-se uma e outra vez no desconhecido.

Agnes de Mille

A Sul do país, conhecemos bem o Levante e o Siroco, os ventos do deserto, que chegam sem avisar e despenteiam as marés, a areia e as emoções. Não nos escapamos deles, permanecem sempre mais do que um dia e desencorajam tardes de calor e suaves banhos de mar tranquilo. Quando o Levante vem, as ondas crescem de forma bravia, a areia eleva-se em espiral, entranhando-se nos lugares mais recônditos e picando a pele despida. Se fugimos deles, há um desassossego que nos amarra. Não se controlam os ventos do deserto. Quando chegam, resta-nos aguardar e seguir o rumo a que levam, escutando a promessa sussurrada de noites cálidas e marés quentes.

Habituei-me a sentir o Levante dentro do peito, mesmo quando não estou no Sul. Quando não sei se as marés estão bravias ou se as espirais que se soltam das dunas me picam a pele ou se entranham nos lugares mais inóspitos. Os ventos do deserto soltam-se dentro e despenteiam os cabelos e a arrumação. Abafam certezas e sossegos, espantam a tranquilidade e despertam as emoções mais intensas, como cavalos selvagens correndo dentro do peito. Não há como controlar a ventania quente que nos descarna. Ela vem sem aviso e desnorteia, desaustina, sem que nada possa ser controlado. Há um apelo, porém, para mergulhar dentro. Adentrar no deserto e seguir os murmúrios de lugares diferentes.

Quando os ventos me visitam não perduro num lugar simples. Não é fácil, dócil ou ameno. Há uma ânsia de absoluto, uma dor profunda de saudade, um instinto selvagem de alcançar paisagens que desconheço. Os ventos do deserto enredam, com as suas estórias tecidas em suspiros, uma saudade não se sabe bem do quê, a maresia que nos chega à pele como a carícia de um amante por quem se espera há muito. Se lhes fujo, distraindo-me ou forçando-me a regressar a um lugar conhecido, integrado e bem-comportado, veste-se-me uma aridez intensa, como se o vínculo mais profundo da alma me fosse cortado.

Por isso, subsisto nesse espaço de desarrumação interna, em que os sussurros se transformam em gritos e danças selvagens, as marés me correm nas veias e nada mais posso fazer para além de criar os lugares por que tanto anseio. Escrevo, na maioria das vezes. Noutras cozinho, escolhendo ingredientes e especiarias com total dedicação. Experimentando novos sabores, como se o tempo não fosse importante. Ou vou para a floresta, para junto do mar, para qualquer paisagem que reflita a minha própria natureza interna.

 A criatividade tem cheiro destes lugares de Levante. Ela não é perfeitinha, nem encaixável numa prateleira, num horário ou numa secretária bonita e organizada. O novo não chega de espaços estéreis e conhecidos. Os nascimentos necessitam de ventre, de escuridão, húmus e lugares quentes.

O impulso criativo vem da natureza selvagem da psique. Ele aparece como as marés vivas, as grutas escondidas cheias de perigos e tesouros, as florestas densas de vida e lugares secretos, os desertos extensos com oásis parcos e verdejantes. Não sabemos ao que vamos. Quanto tempo demoramos. Sabemos que ele não depende dos tempos planeados da nossa vida. E que não pode ser domesticado.

Nos mitos antigos e contos de fadas, as heroínas perdem-se na floresta, escondem-se em troncos de árvores, tecem camisas de ervas venenosas que lhes aguilhoam as mãos e as deformam, ou descem ao submundo e são viradas ao contrário, sangrando durante três dias. Elas saem dos lugares protegidos da sua psique e são expostas à sua natureza selvagem até que a mesma seja acolhida. Não há doçura ou conforto. Nem uma lógica racional, ou um tempo delineado. A aparente passividade dorida como resposta à proposta que a vida traz é, na verdade, a rendição profunda ao ímpeto para sair de lugares seguros e caminhar para um lugar que nos despenteia e obriga a seguir outro rumo.

Ninguém se perde conhecendo o caminho. É nos trilhos desconhecidos que o impulso de vida encontra solo fértil. A casa na floresta, o cavaleiro nobre, o renascimento e a soberania eventualmente aparecem. Especialmente se não estivermos à espera.

Acreditamos que devemos transformar sombras em luz, seguir os ritmos fluídos da vida e que o esforço e a dor são forças opostas à criação. Mas a semente brota com esforço e o crescimento da planta vem contra a força da própria gravidade.

A psique selvagem, como a criatividade, é uma paisagem inóspita, paradoxal e indomesticada. Os demónios internos, os espíritos dos lugares, as feridas que transformámos em cicatrizes trazem-nos a desarrumação necessária para sair de regiões seguras e infecundas. Somos levados a conhecê-los, permanecemos durante um tempo, vivendo o sublime e a dor profunda, a beleza e o desespero, a saudade e o amor. Eles não se tornam aliados porque os controlamos, entendemos ou transformamos. Porém, perdemo-nos neles pressentindo que, como numa promessa sussurrada pelo Levante, algo nascerá de onde aparentemente nada havia. E nesse lugar, onde cuidamos, tecemos, cozinhamos, escrevemos, pintamos, acariciamos, descobrimos que os ventos do deserto nos trazem anseios daquilo que, na verdade, trazemos dentro.

Diz um provérbio Tuareg que “Deus criou o mar para que o Homem pudesse viver e alimentar-se e criou o deserto para que ele pudesse descobrir a sua alma”.

 

 Publicado no nº28 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT

 

 

O Nome da Água – as estórias na nossa relação com a vida

O Nome da Água – as estórias na nossa relação com a vida

Uma estória é como a água

Que aqueces para o teu banho.

Ela leva mensagens entre o fogo

e a tua pele. Ela deixa-os encontrar

E isso limpa-te!

Rumi

Quando eu era pequena, vivia numa casa muito antiga, comprada pelo meu bisavô. A casa era grande e a cozinha ampla fora construída de forma a abarcar o poço, aquela entidade que parecia ter vida própria, com uma abertura enigmática para lugares antigos. Lembro-me de me debruçar sobre ele, quando era destapado, num misto de curiosidade e temor, para observar o meu reflexo espelhado na escuridão das águas. Existe qualquer coisa de mágico e desconhecido em partilhar a casa onde se vive com um poço. Era uma sensação que transbordava para mim, quando entrava na cozinha. Ele estava ali e a sua presença fazia-se sentir.

Tínhamos água canalizada, mas havia uma certa responsabilidade nas vezes em que se abria a torneira. As águas do poço eram usadas, por isso, sempre que necessário. Para lavar vegetais, regar o jardim ou cozinhar.

Existiam outras regras. Depois da meia-noite, ninguém tirava água do poço. Um dia, perguntei ao meu pai porquê.

– Porque a água está a dormir. – respondeu-me. – Não se acorda a água. Mas, se um dia precisares mesmo, tens de a chamar primeiro pelo nome. Chama-a três vezes. Depois disso, poderás utilizá-la.

A sensação, já existente, de que o poço tinha vida, juntamente com o facto de a água dormir e ter um nome moldou a minha relação com a água. A forma como a utilizo, como a bebo, como a encaro e comunico com ela. A água está viva, não somente porque é feita de elementos químicos ou porque abarca seres vivos nela. Ela está viva porque dorme e tem um nome, porque se move pelo mistério e sou eu que tenho de aprender a vê-la e a aceitar que ela me vê. Ela merece o meu respeito, a minha atenção e o meu cuidado. Ela merece a minha reverência e a magia da reciprocidade.

No imaginário de uma criança, o mundo é um lugar pleno de vida, de encantamento e possibilidades. Aquilo com que nos relacionamos tem vida e comunica connosco, seja um pássaro a cantar, uma princesa numa torre antiga ou a água cujo nome temos de chamar. Acredito verdadeiramente que isto não acontece às crianças porque são crianças, mas porque o seu olhar ainda não foi quebrado pela ilusão de separação do mundo a que pertencem e, dessa forma, elas sabem e podem conectar-se com ele.

 Porém, as estórias, sejam pessoais ou coletivas, pertencentes ao folclore regional ou sob a forma de contos de fadas, parecem ter sido remetidas a lugares de infantilidade, fantasia e imaturidade. Esquecemo-las ou ignoramo-las, como uma tarefa própria do ato de crescer.

Adulteramo-nos na tentativa de ser adultos, abandonando as roupagens da alma e do sagrado, desalmando-nos do encantamento e da vida que late em cada um dos nossos passos. O vazio ganha espaço, enquanto os ritmos, as estações, as estrelas e a terra debaixo dos nossos pés se tornam objetos. A solidão emaranha-se num corte profundo que nos desconecta do mundo sagaz onde pertencemos.

Mas as estórias conduzem memória. São a grande linguagem da alma, o elo de ligação entre o passado, presente e futuro, a entrada para o Mistério e para a consciência subtil de que tudo o que nos rodeia vive e comunica. Elas são orgânicas e entrelaçam-nos na própria vida em si. Se nos ligam aos elementos, à natureza e aos seus habitantes, moldam a nossa intimidade com eles. Torna-se fácil amar e cuidar o que conhecemos.

Recuperar estórias é restaurar a ligação ao mundo. Adentrar na vida por inteiro. Fazer parte do corpo da terra, permitirmo-nos ser sonho para além de sonhador.

Onde estão as nossas estórias preferidas? Ainda as escutamos, lemos ou contamos, permitindo que nos vistam novamente desses lugares? Deixando que nos atravessem, transformem, emocionem e alimentem?

Para onde remetemos as estórias da infância, das avós e das velhas sábias que habitavam lugares isolados? Onde deixámos a memória dos pés descalços na areia, dos mergulhos nos riachos e das ligações profundas a flores e a pequenos animais? Onde estão as receitas antigas, os rezos, as mezinhas, as canções? Essas memórias repletas de cheiros, sensações e eternidade?

A nossa mitologia pessoal veste-se do que lhe damos, interna e externamente. O seu alimento tem a riqueza que permitirmos. Vivemo-la, com maior ou menor consciência, conhecendo os seus meandros ou nem por isso. Precisamos de substituir a fantasia de um mundo controlável e que nos serve, para o lugar da Imaginação – como o grande caldeirão da alma! – onde nos deixamos inundar pela vastidão da vida a que pertencemos. Precisamos de resgatar os lugares míticos dos nossos percursos, as estórias onde fomos criados, o direito pleno de fazer parte de um universo vivo.

Talvez, se o consentirmos, possamos sentar-nos um pouco com o Mistério. Escutar, falar-lhe ou permanecer num silêncio partilhado. Comover-nos com os malmequeres que desabrocharam, ou onde nasceu uma ninhada de coelhos. Encontrar as personagens que perdemos. Recordar que já morámos onde a água dormia, caminhamos junto a árvore abençoada ou por numa ribeira onde uma Moira Encantada pedia três tarefas.

Nesse lugar, podemos dar connosco junto a um poço, depois da meia-noite. E, numa necessidade de saciar a sede, talvez olhemos para a água, lá em baixo, com um misto de temor e reverência, e a chamemos baixinho:

– Maria… Maria…Maria…

Quem sabe, esse primeiro gole nos traga mais de sagrado do que sede saciada.

 

 

 

 

Publicado no nº27 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT

 

 

Como se bebe a Vida? – a terceira tarefa de Psique

Como se bebe a Vida? – a terceira tarefa de Psique

Afrodite, torcendo as sobrancelhas com uma gargalhada, disse:

«(…) olha bem para aquele monte, onde estão aqueles penhascos muito altos. De lá sai uma fonte muito negra; desce por aquele vale, onde faz curvas negras e turvas; e dali saem alguns riachos infernais. Dali de cima daquela fonte, traz-me esta taça cheia de água.»

(…) Psique, viu uma grandiosa dificuldade para chegar, porque o penhasco parecia que chegava ao céu, tão liso, que não havia quem por ele pudesse subir.  Para além disso, guardavam-na dois dragões atentos e espantados, sempre alerta. (…) Quando ela tentou subir, as mesmas águas falaram-lhe:

«Psique, afasta-te daí. Não tentes aproximar-te, ou morrerás.»

Mas a águia real de Zeus apareceu de asas abertas e disse:

«Não sabias que estas águas do Estige são proibidas aos deuses e até à Zeus? Dá-me essa taça.»

 A águia voou e encheu a taça, trazendo-a a Psique, que a levou a Afrodite.

Nesta terceira tarefa de Psique, na sua demanda para conseguir o apoio de Afrodite e, desta forma, alcançar o perdão de Eros, é-lhe pedida uma tarefa “impossível”. Encher uma taça de cristal da fonte de águas que alimenta o Estige e o Cócito, que brota do cimo de um penhasco. O Estige e o Cócito são rios associado ao submundo e o Estige desce de uma montanha imensa, desaparece em direção ao reino de Hades e regressa ao cimo da montanha. É um curso de água circular, que toca a luz e a escuridão, o dia e a noite, o sagrado e o mistério. Ele flui de cima para baixo e de baixo para cima. Uma fonte circular urobórica, já simbolizada nos dragões que a guardam. Une a escuridão e a profundeza inconsciente e misteriosa do mundo inferior ao elevado e inacessível cimo da montanha, o mundo superior. É um dos cinco rios que atravessam o submundo e a característica deste é a invulnerabilidade. Foi neste mesmo rio que Tétis mergulhou Aquiles para o tornar invulnerável. O Cócito é o rio das lamentações. Apesar de não se falar nas propriedades destas águas no mito – até porque o pedido é que se vá à fonte das mesmas – fica a curiosidade do perigo de nos podermos afundar na invulnerabilidade ou na lamentação.

Psique tem, desta forma, a tarefa de subir uma montanha impossível, guardada por dragões ancestrais e encher a taça de uma fonte na qual, o mais provável será afogar-se e morrer. De alguma forma soa-me a “comum” e conhecido na vida que adotamos, como se parecesse o esperado de se fazer. Tarefas impossíveis e abissais, por entre a dança da lamentação e da invulnerabilidade que nos esgotam e mutilam. Sem abrir espaço para saborear o que há a cada instante, um doce-amargo com ramificações que enlaçam, sem que necessitemos de nos agarrar somente a um dos lados.

Como as outras anteriores – separar as sementes e apanhar a lã dos tosões – esta soa a uma tarefa de desespero, no qual o mais provável é a morte. E, da mesma forma, é a subtileza e a mudança de perceção que a salvam.

A vastidão das águas, o dia e a noite, o visível e o invisível, a vida e a morte, o sagrado e o profano são mais do que conceitos, eles surgem-nos como a própria vida, experiências intensas que nos habitam e envolvem. As propostas surgem-nos sem ser apresentadas, o surgimento da menarca, uma ferida antiga que vem à superfície, uma paixão intensa, uma descida ao nosso próprio submundo. Como tudo o que vem das profundezas, da fonte de vida, e rompe num momento específico, não pode ser contido, não depende da nossa vontade e é avassalador. Se existem elementos visíveis e palpáveis dessas experiências, outros são inconscientes, profundos e, como as águas circulares, falam-nos de morte e renascimento internos.

Como se lida com a vastidão das águas? Como se abraça a imensidão das experiências?

Como se bebe a vida?

É o segundo elemento mítico que nos surge como um sussurro de perceção. A taça de cristal.  A taça, contentora de água da vida. Recetora, feminina, cristalina e preciosa, a capacidade de receber o fluxo selvagem em pequenas porções e dar-lhe forma.

Numa civilização que nos impele a obter o máximo possível de experiências, no mínimo tempo possível, com o máximo de controlo sobre as mesmas, vivemos assoberbados com a insuficiência e a ambição assola-nos em diversas formas. Sucesso infindável, posses materiais, processo pessoal interminável.

Tanto queremos chegar à montanha inacessível, que nos esquecemos da taça. E, sobretudo, da águia.

A águia é sagrada para a maior parte das tradições ancestrais. Ela é a visão, o distanciamento necessário e a possibilidade de olhar a vastidão da vida sem me afundar nela. Considerada um psicopompo (mensageiro, elemento que viaja por entre os mundos, podendo unir o mundo visível e o invisível, o sagrado e o profano), eleva-se acima do terreno para contemplar o padrão geral. Ela permite-nos ampliar a perspetiva para a ausência de soluções de uma visão limitada pela própria magnitude da experiência.

Independentemente do ruído, da vastidão das águas da vida, da necessidade de posse que vem de um controlo mutilador, o que necessitamos mesmo, a cada instante? O que nos toca viver? Qual é a porção necessária?

Como se bebe a vida?

A montanha inatingível pertence ao próprio mistério, com o seu fluxo de vida e morte. Saborear a imensidão da vida é saborear uma porção dela, conhecer o que nos toca, a parte que nos cabe, os lugares que ocupamos e onde pertencemos. Olhar para além dos lugares comuns, desconstruir conceitos e treinar a visão ampliada dos padrões gerais do mundo. Não tirar para além do necessário. Encontrar a minha taça e enchê-la quando é preciso. Saborear a vida.

Como se bebe a vida? Um trago de cada vez.

Publicado no nº26 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT

 

 

Um baú cheio de Valores

Um baú cheio de Valores

“Somos os “ancestrais” de uma era que há-de vir, os geradores inadvertidos dos mitos que os suportarão, os modelos míticos que inspirarão as suas vidas.”

Joseph Campbell

Uma vez criei uma prática para um workshop de Educação que levava à reflexão profunda dos valores que gostaríamos de deixar como legados às gerações que estamos a educar; através da arte e acompanhada pelas notas certas, as que evocam a emoção, fechámos assim, de uma forma belíssima, um dia cheio de dúvidas e inseguranças partilhadas, onde o foco foi encontrar a estória certa para o educador que somos.

Esta prática tem-me surgido no pensamento muitas vezes, sempre que penso que a vida é um sopro e que se por acaso fechasse os olhos amanhã gostaria de pensar que gastei – e não “perdi” – tempo com as coisas importantes, os adubos generosos que ajudem a fortificar uma relação saudável do meu filho com ele mesmo e com o Mundo que o rodeia: os outros e o maior, a Terra, casa onde mora.

Como tão bem – só ele, mesmo! – escreve Campbell, somos os plantadores dos mitos de um amanhã distante, cuja madrugada não chegaremos a ver; antes de nós caminharam por este mundo aqueles que nos legaram, de uma forma ou de outra, a sua estória, que fez morada nas nossas almas, células, sangue, pensamento, e que é a massa, também, de que somos feitos. Por isso tantas e tantas vezes procuramos em baús bafientos, ou nas palavras dos anciãos da nossa família, ou em documentos comidos pelo pó os trilhos dos que vieram antes, para descobrir aquilo que contam de nós. Ou, simplesmente, olhamos para os pais e avós, revendo os seus valores, crenças e a forma como se movem no mundo, e o espelho dá-nos a nossa imagem de volta.

Que valores queremos legar? O que queremos, de facto, deixar como impressão emocional aos nossos filhos e educandos, que mapa de navegar queremos traçar com eles? E, mais importante que tudo, quanto tempo investimos em mapear?

Deixamos aquilo que somos, e mais nada. Deixamos a forma como nos tratamos, com doçura e compaixão ou com rigidez e exigência. Mostramos, se o fizermos nós, a capacidade de lutar pelo que se acredita, a fé, a coragem, o valor da liberdade individual, da auto-estima, da verdade interna, do saber usar a voz no tom certo a cada momento. Onde ainda há espaço para a vulnerabilidade e o saber quando já não há caminho nas escolhas feitas, e é preciso ajustar o rumo.

Ao olhar de quem nos fita, tentando aprender, mostramos a relação com o outro, ríspida, agressiva, ansiosa, ou empática, calorosa, compreensiva. E muito mais. Connosco vão descobrindo o seu lugar no mundo, a sua pertença à Terra, a importância do cuidar consciente e atento, da vida que se sente nas árvores tal como nas águas dos rios e em todos os seres vivos.

Para sermos inteiros temos de alinhar o nosso sentir com pensamento e acção; a verdade está no desenho do corpo, transparente e lúcida. É por isso que o gesto se adianta às palavras, e de nada vale ensinar o que de verdade não somos.

É por isso que tudo começa, de facto, no nosso umbigo: na descoberta de quem somos. Do que nos move a alma e faz sorrir, norteia os passos e traz sentido ao caminho. Do saber os tais valores com que queremos pintar memórias e fazer crescer seres humanos. Que, toda a gente sabe, é o maior trabalho de todos!

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES

 

 

O regresso às águas – Pele de foca e o instinto selvagem

O regresso às águas – Pele de foca e o instinto selvagem

“Todas as criaturas do planeta voltam para casa. É uma ironia que nós tenhamos construído santuários para a íbis, o pelicano, a garça-real, o bolo, o grou, o cervo, o alce e o urso, mas não para nós mesmos, nos lugares em que vivemos no dia-a-dia. “

Clarissa Pinkola Estés

Cresci numa praia e, talvez por isso, tenha alguma intimidade com as águas selvagens. Entendo o encher e esvaziar das correntes, as marés vivas, a calmaria e a tempestade. Conheço os sinais dos ventos e das neblinas e estremeço com a densidão do mar nas noites escuras. Sei que ser íntimo das águas não significa não as temer. Sei que quem está ligado às águas do oceano não consegue ficar muito tempo sem se nutrir delas. Sei que me dirigi vezes e vezes sem conta a essas mesmas águas para me reencontrar.

Cresci também junto de um poço e, se conheço a frescura da água saída do ventre da Terra, também escuto o bater atemorizado do meu coração ao espreitar para a límpida escuridão que um lugar aparentemente sem fundo.

Pele de Foca fala-me de uma mulher que não podia mais permanecer sem regressar às águas. Como me ressoa este conto. Como me conta a mim mesma desde que me recordo gente. A primeira estória pela qual me apaixonei foi A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen. A mesma estória, no fundo, reconhecida pelo tamanho que eu tinha. Encontrei-a mais tarde, nesta versão contada em quase todo o mundo, sobre uma mulher que precisa de recuperar a pele e regressar às águas para sobreviver.

A nossa mitologia pessoal habita-nos, entranha-se nos lugares mais escondidos da alma e tatua-se em nós. Não a escolhemos. Respiramo-la. E se, por vezes, a encontramos nas estórias que se entrelaçam nas nossas circunstâncias, é preciso estar muito atento às variadas versões e às encruzilhadas, pois são os momentos de Mistério nos quais podemos adentrar, ou reescrever o mito.

Acredito que todos aqueles que escutam pele de foca reconhecem o “roubo da pele” que inevitavelmente acontece ao longo de uma existência humana, tantas e tantas vezes e de variadíssimas formas. E, naturalmente, também nos ressoa o resgatar da pele, da essência, daquilo que é único em nós e que tem de ser reencontrado e vestido.

Mas há um outro olhar nesta demanda de “recuperar a pele”, que me canta aos ossos, numa melodia profunda. A mulher foca não pode regressar a casa sem a pele. Não pode mergulhar nas águas e respirar debaixo delas, nadar até à sua família e à sua estória. Sem a pele, ela é “só” humana, ainda que não inteira, pois nesta humanidade há uma separação da natureza, do ritmo da lua sob o qual as peles se tiram para dançarmos, das águas onde mergulhar para regressar a casa.

Há um lugar que precisamos recuperar. Encontramo-lo no conto Allerleirauh, também chamada Mil Peles, ou Todas as Peles. No conto, uma princesa veste-se de peles de animais selvagens e nessa capa permanece até descobrir quem é. Nesse processo, passa muito tempo escondida, entre tarefas mundanas e simples, pouco glamorosas, nas quais a astúcia própria de quem se vai remembrando, vai tecendo os símbolos e os lugares que lhe pertencem. Sem recuperar a sua natureza instintiva, felina, o processo de individuação não está completo.

Recuperar a pele é voltar a ser bicho. Recordar a natureza animal. Encontrar um lugar no qual o cheiro, o instinto, a visão, estejam alertas. A pele é o nosso maior sistema de defesa e, paradoxalmente, é através dela que tocamos o mundo e o que nos rodeia. Recuperar a pele é recuperar a fisicalidade sagrada, onde o mistério e o divino habitam. Sem a separação do corpo, da matéria orgânica, do planeta.

Regressamos às águas quando recuperamos o bicho que somos, o instinto, a fisicalidade e a ligação a tudo o que late no planeta. Quando nos tornamos pertença aos lugares e quando começamos a remembrar estória.

As águas são as senhoras da memória, o berço do nascimento da vida, as veias e o sangue do planeta. Amamo-las porque nos recordam útero e carícia, pois permeiam a nossa pele em limpeza e conversas ancestrais. Tememo-las porque, como o inconsciente, não conhecemos as suas profundidades, os lugares das cavernas submersas, as sereias, as serpentes marinhas e os lugares de Mistério que somos.

Porém, algo se torna inegável. Por onde as águas correm a vida desponta. O alimento vem. Quem viaja, aproveita para descansar e matar a sua sede. Por vezes fica um pouco mais e nesse lugar, algo acontece.

A mitologia pessoal, o símbolo, são linguagens da alma. Mas a alma é o lugar que pertence. Ela não necessita transcender, pois a sua espiritualidade é o lugar onde está. E, por isso, viver o símbolo pode ser tão importante.

Talvez a nossa fisicalidade sagrada necessite de ritmos próprios. Talvez necessite de aguçar os instintos, treinando os sentidos como o animal que somos. Talvez possa encontrar um lugar onde as águas corram e se sente, respirando, e siga com o olhar um fluxo e uma canção mais antigos que a própria vida. Talvez se possa ir remembrando, enquanto se recorda quem é e recupera estória de uma forma não racional ou cognitiva. Pois a pele que nos pertence reconhece o fluxo da água e as canções antigas.

Recuperar a pele e regressar às águas. Encontrar os lugares antigos da alma nos lugares onde os nossos pés pisam. Reconhecê-los e acarinhá-los. Haverá canção mais bela e mais antiga?

Publicado no nº25 da Revista Vento e Água

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT