COM.UNIDADE EDT – Entrevistas a Alunos

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Um espaço para partilhar e dar voz à crescente Com.Unidade EDT


Entrevista à aluna da formação de “Terapia Transpessoal”  – Carla Nunes Lopes – pela tutora Rita Sardinha

1. Já és psicóloga e trabalhas neste belo ofício de acompanhar… o que te levou a escolher a Escola Desenvolvimento Transpessoal e o curso de Terapia Transpessoal?

Eu já trabalhava como psicóloga e já fazia algum acompanhamento, no entanto, sentia que os modelos e as práticas aprendidos na faculdade não eram suficientes, pelo menos para mim, porque sentia que não abrangia o todo.
A minha escolha decorreu precisamente dessa sensação de alguma coisa estar em falta e também da minha ligação mais à área espiritual, ou seja, da necessidade de começar a integrar tudo um pouco mais na minha vida.

Quando estava com os clientes sentia que havia mais qualquer coisa onde eu não conseguia chegar, havia sempre algo, outro mundo que precisava de perceber e que só a visão da psicologia, da forma como eu a aprendi, não me chegava.

Numa determinada altura comecei à procura – tinha também uma terapeuta que estava ligada á psicossíntese e a esta parte mais transpessoal – e surgiu-me a EDT. Não tive dúvidas que era por aí porque foi um “Match” perfeito entre aquilo que eu sentia e a forma como vocês se expressavam, Sentia-me em Casa.

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2. Ao longo destes meses de curso, qual foi a tua maior tomada de consciência e que impacto teve na tua vida? 

É difícil de responder porque a cada semana havia um tema para trabalhar e cada tema, em maior ou menor medida, mexia connosco, fazia-nos refletir…, mas trazendo aqui algo que eu me recorde e que me tenha tocado mais – ressaltaria o tema da Sombra.
O tema da sombra foi um levantar de cortina, como se de repente todas aquelas peças de teatro que habitam cá dentro, todos os episódios que nós vivemos, todas as personagens que vivemos, tivessem aparecido no palco. Isso proporcionou-me uma descoberta muito rica das várias personagens internas, dos vários mundos, dos vários labirintos, e fez-me despertar para algo mais profundo.
Como a transpessoal abarca o todo, abraça os vários mundos da pessoa, senti que isso me trazia um novo olhar, uma linguagem mais intuitiva e mais humana, esse estar de coração, ao lado do outro, de forma subtil, amorosa, acompanhando-o.

O que também teve um grande impacto na minha vida foi a compreensão do que é “acompanhar” o outro e a distinção entre isso e a natural tendência a “ajudar” o outro; o Ser Inteira, essa capacidade de nos abraçarmos com tudo; e o movimento de honra à vida e aos pais, que me permitiu, por um lado deixar partir quem já partiu – o meu pai, e por outro, olhar para a minha mãe como uma mulher, que nada me deve, e que já me deu tudo. Tudo isto me emociona e me impacta…

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3. Após concluíres esta aventura pessoal e de formação no curso de Terapia Transpessoal, quem é a Carla?

É com emoção que te respondo… A Carla… bem, eu na minha essência não deixei de ser eu, aliás a transpessoal ajudou-me a ir ao encontro da minha verdade, disso não tenho dúvida.

Hoje, acho que esta Carla, que busca a sua verdade e o que mais lhe faz sentido, é alguém que se abraça mais e se aceita mais, que se permite ver por inteiro, de todas as perspetivas, sem ficar assustada nem querer fugir.

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4. Como é que a abordagem transpessoal te ajuda a cumprir os teus sonhos e projetos de vida? 
A transpessoal trouxe-me uma linguagem, um pano de fundo, toda uma série de ferramentas e não só… trouxe-me algo mais, qualquer coisa a nível do fundamento e da essência, não só da transpessoal, mas da vossa escola, um “algo” que me sustenta e que me acompanha.
Todas as experiências que tivemos no Encontro de Práticas já foram aplicadas, já as integrei e estou a materializá-las… por isso, acho que esta abordagem me trouxe um contato muito mais facilitador na forma de chegar ao outro.
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RITA SARDINHA
TUTORA TERAPIA TRANSPESSOAL – ESCOLA DE DESENVOLVIMENTO TRANSPESSOAL
A Responsabilidade na Presença

A Responsabilidade na Presença

“Love the world as your own self, then you can truly care for all things.” 

(Ama o mundo como a ti mesmo, e poderás realmente amar todas as coisas – tradução livre)

Lao Tzu


 

A forma como somos criados tem tanto de acaso como de intervenção divina. Como se naquele preciso instante em que um único espermatozoide, mais motivado, com mais sorte ou com a centelha dos deuses a seu lado encontra o seu destino selássemos um “sim” à vida num ato de criação profano que é ao mesmo tempo um mergulho de fé no sagrado. Um mistério, uma noite escura. Das que precedem sempre o nascer da luz.

Muito embora tantas vezes nos seja difícil olharmo-nos assim, como uma espécie de milagre único, individual e inestimável, quando começamos a olhar para dentro, num mergulho profundo de quem somos, sem atalhos, há um reencontro com sonhos antigos, pedaços de nós que se resgatam e uma sensação profunda de chegar a casa que nos permite tocar, nem que ao de leve, a emoção do Presente que é estar vivo. Aqui e agora.

Neste movimento interno de retorno a “casa” (que nem sempre é belo, luminoso ou feliz) damos a mão à consciência e abraçamos a responsabilidade da madurez, de tomarmos conta de nós mesmos e aceitarmos o nosso papel na nossa vida, no desenrolar das suas estórias.

E quanto mais fortemente habitamos a alma mais começamos, também, a olhar para fora, para os outros, para o mundo, com o mesmo olhar de compaixão, amor e cuidado que usamos para nós. Ficar onde estamos, sabendo que estamos no lugar e espaço certos. Permanecer, em escuta e abertura, em compaixão e inteireza. Não é somente uma escolha, é uma Arte.

Lá fora, fora de nós, há uma Mãe generosa e abundante que nos nutre, protege e sustenta. E se somos Todos Um, interligados neste momento do tempo, partilhamos esta Casa gigante em que verdadeiramente aquilo que acontece ao vizinho – ainda que ele esteja em África, na Índia ou Nova Zelândia – também nos toca, mais cedo ou mais tarde.

Com a consciência nasce a responsabilidade, e esta pede-nos que tomemos conta do nosso pequeno pedaço do mundo. Daquele que nos coube ocupar. Pede-nos uma relação saudável, equilibrada e nutridora com a Natureza, para que possamos deixar um legado a quem nos seguirá. Para que os nossos passos sejam guardados no coração de quem nos ama, e não em sulcos profundos com que possamos caminhar aqui.

É de facto um milagre poder ter ar fresco para respirar, água límpida para acalmar a sede, terra próspera para plantar alimento. É um milagre observar a diversidade de vida que nos oferece este planeta, da qual fazemos intrinsecamente parte. É um milagre Sermos.
Recebamos estes milagres de peito aberto, sentindo o mistério da vida, e ofereçamos de volta, com a mesma sensação de sagrado, o nosso cuidado atento a esta Casa que tão bem cuida de nós.

 

MARGARIDA MONARCA
EDUCAÇÃO MINDFULNESS – ESCOLA DE DESENVOLVIMENTO TRANSPESSOAL
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Entrevista à aluna da formação de “Consultoria em Mindfulness  – Florbela Silva – pela tutora Cátia Pinto

1. Gostaria de começar por perguntar o que te levou a querer conhecer e aprofundar a prática de Atenção Plena?
Olha, a prática da atenção plena nesta componente transpessoal começou na formação de terapia transpessoal em que havia um módulo em que abordámos a atenção plena e… É curioso como na vida realmente as coisas vêm e às vezes ficamos atentos a estas sincronicidades, não é? Porque eu estava na terapia transpessoal e, ao mesmo tempo, tinha esses módulos e havia uma pessoa que me desafiou de alguma forma a criar um grupo de meditação – uma coisa assim muito leve – em que dividíamos entre os dois. Ele faria as práticas mais de mindfulness e eu comecei por fazer alguns exercícios que nós tínhamos na terapia transpessoal, não só de atenção plena mas também de outro tipo de meditações guiadas. E assim começámos o grupo. E aquilo despertou em mim um interesse muito… muito genuíno, no sentido de «O que é que estava a chegar às pessoas?». Foi um bocadinho por aí, a atenção plena transpessoal… Por outro lado, em mim, o despertar… o perceber-me, o dar-me conta… De repente, ligar a atenção realmente e aperceber-me de tantas coisas que se estavam a passar e que aconteciam comigo.
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2. Quais foram os maiores desafios e as descobertas mais significativas ao longo desse caminho de aprendizagem na EDT? 
Desafios… Desafios foram o tempo porque nem sempre estamos habituados a tirar tempo para nós no dia e a prática da atenção plena tem este compromisso de dedicarmos este tempo a nós diariamente. Esse foi um desafio sem dúvida grande porque o dia-a-dia é muito rápido e facilmente nós não pensamos o que são as nossas prioridades e… então foi um pouco o ajustar das prioridades, o que realmente é importante para mim. E eu acho também que o que ajudou foi, ao fim de algum tempo (que não foi muito), eu começar a sentir essas diferenças do dar-me conta. E ao dar-me conta e a aperceber-me de determinadas coisas foi motivador. Foi algo que me ajudou a manter firme essa ideia. Claro que há dias em que, por vezes, passa… mas com o tempo, até isso depois nos faz falta, parece que falta alguma coisa na nossa vida. Parece que faz-nos falta esse espaço. Eu costumo dizer que sou uma pessoa espaçosa nesta questão de tempo para mim e, realmente, se por algum motivo, algum dia não deu, no dia seguinte já há ali alguma coisa que não está igual… Portanto, há que voltar. [E nesse sentido, qual é a descoberta mais significativa que tu destacarias no meio desses desafios?] Quando nós nos colocamos em primeiro lugar… Às vezes, nós achamos que somos egoístas por nos estarmos a colocar à frente dos outros, especialmente quando estamos com outras pessoas, quando temos outras responsabilidades, e achamos que isso não é o melhor ou mais correto. E eu senti isso por vezes… Eu acho que foi isso, foi o descobrir que esse tempo em que eu me dedico a mim, no fundo, estou a potenciar-me a mim e estou a melhorar a minha relação com os outros. Porque é aquela velha máxima da máscara do avião, não é? Se eu não estiver bem não posso cuidar do outro. E sinto isso perfeitamente, o tempo para mim… que é necessário.
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3. Em que medida estar atenta e presente – a ti e ao que te rodeia – implicou mudanças na relação contigo mesma, com os outros ou com o mundo?
Quando estamos atentos a nós, ao que se passa connosco… sem dúvida que temos aquele «darmo-nos conta» do que é que está a acontecer e vamos tomando consciência dessa escolha, não é? Se é realmente aquilo que nos faz sentido, ou não, ser assim… E quando não nos faz sentido, termos essa capacidade de escolha, termos essa capacidade de poder mudar… Nem sempre conseguimos logo. Nem sempre conseguimos mudar esse piloto automático que temos dentro de nós muito rapidamente, mas… Com prática, com persistência… Na verdade, na prática da atenção plena, no darmos conta, nesta presença, há uma coisa que está muito intrínseca aqui que é o comprometimento que nós temos para connosco. Porque quer a prática de fazermos diariamente ou qual for a periodicidade que queiramos fazer… Quer a prática quer esse darmo-nos conta e querermos fazer alguma coisa vem desse comprometimento de evolução pessoal, de desenvolvimento, de estarmos bem… é daí que advém essa melhoria, não é?
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4. Atualmente, intervéns e difundes o MDF em empresas. Queres falar-nos um pouco desse trabalho, como é que o MDF pode ser aplicado ao contexto empresarial e de que forma é que os colaboradores e gestores podem beneficiar desta relação com a prática de Atenção Plena? Quais são os maiores desafios ou obstáculos que tens encontrado? E que tipo de retorno tem sido dado? 
O mindfulness pode ser aplicado em ambiente empresarial para o momento de stop – que é dos momentos com maior aceitação e com maior retorno que existe porque permite realmente a paragem, o dar conta… O facto das pessoas darem-se conta… Primeiro, é este autoconhecimento de como elas são… Por vezes, as pessoas estão num piloto automático tão forte, tão forte, que elas não se apercebem da forma como reagem com os outros e, de alguma forma, também interiorizaram determinados comportamentos ou determinados papéis da sua vida que estão em linha de conta com aquilo que lhes foi passado em outras alturas e que nem sequer está completamente alinhado com aquilo que faz sentido nas relações hoje em dia. Então, o facto das pessoas darem-se conta dos seus próprios comportamentos e conseguirem ter esta perspetiva de que cada pessoa tem a sua leitura do mundo – e que aquilo que a pessoa está a fazer que nós podemos interpretar como certo ou errado – abstendo-nos desses julgamentos, abstendo-nos dessa forma crítica de olharmos o outro… Ter essa capacidade de ver de que forma o outro… «Porque é que para ele faz sentido este tipo de comportamento? O que é que está do lado de lá?» Quando as pessoas começam a fazer esse tipo de exercício abre-se aqui um mundo completamente diferente às pessoas, e tem sido muito compensador observar isto a acontecer.
Os maiores desafios e obstáculos que eu tenho encontrado têm muito a ver com o observar do mindfulness apenas como uma prática de Wellness, apenas como uma prática de bem estar. E eu procuro alterar um pouco isso. Então, o facto de haver determinados preconceitos ou pré-conceitos do que é o mindfulness e, às vezes, estar ligado com cultura zen ou budista ou esotérica… Isto, por vezes, tem um fator obstáculo nas empresas. Quando eu consigo desconstruir um pouco esta ideia, quando consigo apresentar o conceito do que é o mindfulness, então isso muda logo e normalmente tem uma recetividade muito grande.
O retorno… acima de tudo, o autoconhecimento das pessoas – que é uma das coisas que tem mais feedback – e outra tem a ver com a forma como as pessoas lidam com as suas emoções. Nomeadamente, eu acompanho sempre os meus programas com inquéritos em que faço a avaliação do que acontece. O fator que é mais diferenciado é mesmo a forma como as pessoas usam e lidam com as suas próprias emoções. Depois, por fim, o impacto nos relacionamentos. O facto das pessoas conseguirem olhar para os outros com uma maior responsabilidade naquele relacionamento – não porque a outra pessoa é assim mas porque ela deixa, porque ela permite que determinadas coisas aconteçam. E, portanto, há esse lado das pessoas que se auto-responsabilizam pelo que está a acontecer nas suas vidas.
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CÁTIA PINTO
CONSULTORA MINDFULNESS – ESCOLA DE DESENVOLVIMENTO TRANSPESSOAL
Como é que a Alma se expressa?

Como é que a Alma se expressa?

“O interno não é menos real do que o externo, e, embora seja parte de nós, não está literalmente dentro da nossa pele”

Bill Plotkin


 

Quando falamos em desenvolvimento pessoal falamos, normalmente, de trabalho interno, das atividades ou exercícios que nos permitem um olhar atento para dentro de nós mesmos, para o lado interno da nossa vida. E como está dentro de nós, na esfera do que é privado e íntimo, que não se revela aos outros, é natural que a imagem que nos surja seja a de um mundo dentro da nossa pele, existindo na mente ou no coração, fora de vista e desconhecido.

Há muitas formas de aceder a este lado interno. Por vezes, nem queremos aí entrar. Sabemos, de antemão, que o que aí reside é tão grande e intenso que pode transformar-nos por completo, virar a vida ao contrário e vincular-nos a um poder interno que nos custa reconhecer e do qual tantas vezes fugimos.

No entanto, esse lado escondido não desiste de nos chamar ao longo da vida. Há quem lhe chame Coração, Desejo, ou ainda Alma, apesar de estes nomes estarem muito carregados de ideias e imagens, preconceitos, estórias de violência e dor, mal-entendidos e dogmas. Mas porque dar nomes nos ajuda a compreender, dar-lhe-emos o nome de Alma, esse universo interno, tão misterioso como um planeta de uma galáxia distante.

Esta Alma que é parte de nós chama-nos frequentemente, ao longo da nossa vida. Chama-nos de muitas formas, com um impulso de realização, de pertença, de completude. Como se nos pedisse para encontrar o nosso lugar no mundo, preencher o nosso espaço, completando este imenso mosaico que é a Vida. Sabemos isto, todos nós; mas não é incomum que fechemos os ouvidos internos aos seus sinais.

A linguagem da Alma é feita de natureza, de símbolos, de sonhos, de metáforas, de poesia, de música, de dança… De tudo o que traz um frémito ao nosso coração, nos faz vibrar como as cordas de um qualquer instrumento, ao som de uma nota matriz. Nestas ocasiões, em que o coração estremece, a pele se arrepia e os olhos se enchem de água, algo em nós se move e se entrelaça com a Alma. São muitos os caminhos para este reencontro.

A arte, palavra igualmente carregada, é impulso de captar aquilo que fez o coração estremecer, que nos enterneceu, seja o canto de um pássaro ou a visão de uma montanha, é também vontade de expressar o que nos vai dentro.
Desde que o Homem se conhece que a arte é um caminho para se aproximar do sagrado e celebrá-lo. O que nos sobra do homem primitivo, da idade das cavernas e da pedra lascada? Arte: pontas de flechas, gravuras nas pedras, imagens dos animais, dos homens, das estrelas, daquilo que era visto como misterioso e sagrado, porque dava e tirava Vida.

Também uma criança pequena reage a esse mesmo impulso interno, balançando-se ao som da música, pegando num lápis e fazendo rabiscos ou cantando umas palavras quaisquer.

À medida que vamos crescendo, contudo, bloqueamos essa expressão, com critérios de beleza ou comparações impossíveis. Mas a expressão criativa não deixa de manter essa capacidade extraordinária de nos ligar ao mundo interno e de o trazer cá para fora, tornando visível o invisível. Ou revelando a ligação profunda entre ambos os lados dessa consciência. Em termos terapêuticos, a arte tem o poder de trazer compreensão, novos significados, reparação e, claro, propiciar a sanação. Permite expressar o que calamos, soltar, deitar fora, trazer a catarse. Observar profundamente, com um olhar límpido e novo, aquilo que tantas vezes nos passou ao lado. E espelhar o mundo de fora e o mundo de dentro.

Na verdade, só a nossa perceção nos diz que um está fora e outro dentro, já que quando o nosso olhar se alarga, damo-nos conta de que há um só plano, o da consciência, e que o Mistério da Vida abunda tanto nos nossos sonhos quanto na floresta densa por onde caminhamos. Talvez por isso o Zen nos diga que é possível engolir o Oceano Pacífico num só trago…

 

PATRICIA ROSA MENDES
TERAPIA E MEDITAÇÃO – ESCOLA DE DESENVOLVIMENTO TRANSPESSOAL
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Entrevista à aluna da formação de “Consultoria em Mindfulness  – Maria Lencastre – pela tutora Mónica Ferreira

1. Quem era a Maria antes e quem é a Maria depois desta relação com o Mindfulness… depois da formação de consultoria em Mindfulness?
O que é que te trouxe esta prática?
Acho que não sei quem era a Maria antes e acho que ainda não sei quem é hoje.
Mas sem dúvida que o Mindfulness ajudou e ajuda a este caminho de descoberta, de descoberta pessoal e de aprendizagem, de consciência, de crescimento… …crescimento no sentido de evolução, não necessariamente de aperfeiçoamento, de melhoria…
“Aí”, o Mindfulness tem desempenhado um papel muito importante.
Em primeiro lugar pela prática, pela experiência; outra perspetiva, outra linguagem para trabalhar o desenvolvimento pessoal, ou pelo menos uma linguagem diferente daquela que eu estava habituada – foi o Mindfulness que me trouxe o meu primeiro contacto com algum tipo de meditação, por assim dizer – um amor à primeira vista, nesse sentido – e ao mesmo tempo uma total identificação com aquilo que são os princípios ou os valores do Mindfulness.
E nesse sentido um Norte, um rumo, mas sobretudo uma ética, uma perspectiva que permite em alturas menos conscientes ou menos atentas relembrar “ok, o que é que eu quero… quem é que eu sou, onde é que eu estou ou para onde é que eu vou…” …uma bússola.
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2. Quando estavas a terminar a formação de Consultoria em Mindfulness, criaste um projecto de acompanhamento de jovens através do Mindfulness, em ambiente escolar, projecto esse que implementaste – com um primeiro grupo de jovens, durante 8 semanas, e com um segundo grupo, durante 12 semanas.
O que é que sentiste que esta experiência te trouxe a ti e a esses jovens? E o que é que sentiste que o Mindfulness podia dar a estes adolescentes, o que é que eles podiam necessitar, em que é que o Mindfulness podia fazer a diferença na vida destes jovens?
Na prática, estes adolescentes em particular com quem eu trabalhei, não tinham contacto nenhum com qualquer tipo de aprendizagem menos formal – nunca se tinham sentado em círculo numa sala, coisas tão simples como esta. Portanto, houve aqui um fator de novidade tremendo, e essa experiência da novidade foi vivida por eles de forma muito entusiástica.
Eles confidenciavam que em determinada circunstância tinham parado e tinham feito “aquela coisa da respiração”.
Era sobretudo esse espaço e tempo que eles sentiam como deles, nesta lógica de círculo, de se sentarem e de a sala estar configurada de forma diferente e lhes permitir parar, relaxar, acalmarem-se através do simples notar da respiração.
Mas cada vez mais, com a experiência, e com as leituras que vou fazendo – e também notei isso na prática – fazer um curso de 10 semanas, ou 8 ou 12, parece-me manifestamente pouco. Até porque eu era uma estranha à escola e, quando se trabalha com grupos, é preciso um tempo para se criar uma relação. Se este trabalho for feito por alguém que já “está” na escola, a repercussão, o impacto que se pode ter em termos práticos pode ser muito maior.
Eu senti que havia “aqui” muitas limitações devido a este contexto e que tudo podia ser mais potenciado se fosse a própria escola a abraçar uma cultura mais consciente, uma cultura mais compassiva. Não é de estranhar a tendência destes programas e projectos ser, cada vez mais, a de capacitar os professores, agentes mais permanentes nas escolas, por forma a que eles possam apoiar a criação de contextos e culturas e salas de aulas mais conscientes. De outra forma, é um lançar de sementes, que acaba por ficar assim um bocadinho, depois, sem rega, sem ninguém para conversar ou acompanhar o crescimento… …podia-se jardinar mais…
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3. Depois da formação e desta experiência, “lançaste-te” para um doutoramento no âmbito do Mindfulness, nomeadamente dedicando-te a preparar uma avaliação do programa “Mindful Self Compassion”, junto de estudantes universitários.
O que é que te “chamou” a este tema?
E, até à data, quais têm sido os maiores desafios e as maiores aprendizagens sobre o tema e sobre criar e desenvolver uma tese de doutoramento na área do Mindfulness?
Já nas escolas eu sentia necessidade de informação, porque me pediam – comprovação de resultados, boas práticas, … – e por outro lado, senti a necessidade de contribuir para a credibilização do Mindfulness junto de determinados agentes – e isso é uma coisa que a investigação pode fazer.
Mas antes disso o que a investigação pode fazer é descobrir – qual é que é o impacto, quais é que são os resultados; com os seus instrumentos, que são aqueles que conhecemos, e olhar para a realidade e perceber de que é que estamos a falar quando falamos de Mindfulness –esta “moda” actual.
E depois, naturalmente, porque eu gosto muito de livros e de teoria – não que me sinta “um peixe na água”, mas gosto muito desse “mundo”.
Quando eu falo do “Mindful Self Compassion Program”, eu sei que ele é constituído por x sessões, com determinadas temáticas, atividades, e com um manual muito pormenorizado sobre tudo o que acontece e o que deve acontecer – e isto permite aumentar a capacidade de comparação e de saber – quando estamos a falar de um método mais quantitativo, naturalmente. E eu achei que isso fazia sentido.
E também achei que isso fazia sentido porque ao longo do meu percurso de aprendizagem na EDT, uma palavra que fui ouvindo com bastante frequência foi “compaixão” – logo desde a primeira sessão.
“Isso”, a compaixão, fazia-me muito sentido a nível pessoal – foi, e está a ser, uma aprendizagem grande em termos pessoais – e que eu acho que tem ressonância em toda a sociedade. Numa sociedade mais competitiva, exigente, agitada, hipercrítica, acho que a compaixão ajuda a contrariar um bocadinho todo esse movimento.
E depois, a nível pessoal – fui mãe recentemente… ter uma bebé – ser mamífero – fazer um doutoramento, regressar ao trabalho… essa logística diária acabou por ser também um desafio.
A motivação para fazer o doutoramento está completamente presente, mas também está um caos muito grande, que necessita de ser abraçado, e como ele já está a semi-engolir-me, eu não tenho outra hipótese senão viver isto de forma plena!
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4. E o Mindfulness – a prática, os valores, o teu conhecimento – ajuda em alguma coisa neste novo “caos”? Consegues no meio desse “caos” sentir que o Mindfulness está presente na forma como te relacionas com essas novas circunstâncias?
Curiosamente, sim. Apesar da indisciplina que tenho tido ultimamente, começo a achar que isto é como andar de bicicleta… …há coisas que se vão descobrindo e que não voltam para trás – tomadas de consciência que são como um pano de fundo.
Há momentos em que me perco no caos, mas também há momentos em que consigo trazer a compaixão e sorrir um pouco para tudo isto… …tenho essa consciência de que é uma fase muito particular na minha visa… e que isto também passará.
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MÓNICA FERREIRA
TUTORA TERAPIA E MINDFULNESS – ESCOLA DE DESENVOLVIMENTO TRANSPESSOAL