“Atingir o sítio onde dói é, por vezes, o caminho mais curto para a alma.” 

Thomas Moore


 

Amar é um “sacrifício”.

Um sacro-ofício, um ofício sagrado que exige compromisso, que pede dádiva, entrega e fé e onde negociamos constantemente com crenças, feridas, desilusões, ilusões, necessidades e projeções, tentando-nos manter à tona – navegando, respirando ar em golfadas entre o êxtase e a noite escura da alma… É uma maratona, não um trilho rápido em corta-mato.

Amar é, também, uma tarefa de responsabilidade. Particularmente quando falamos de amor próprio, nosso, único e individual, que não podemos entregar a mais ninguém. Porque ninguém nos sabe amar – e des-amar – como nós mesmos.

As chaves do Reino estão na nossa posse desde sempre, mas nem sempre queremos entrar nos sítios mais escuros e poeirentos, abrir as janelas e deixar entrar a aragem e a luz do Sol. É difícil olhar de frente o que não nos satisfaz em nós. Os momentos de que não nos orgulhamos, as partes que escondemos do outro, o que achamos impossível de ser amado. Por isso, caminhamos muitas vezes pela vida com o cuidado de ver se não está nada de fora, se as palavras são as certas para o momento, se a roupagem exterior não tem etiquetas que nos embaracem à vista. E esquecemo-nos de que somos sempre vistos, por mais que nos escondamos. Alguém nos lê, atravessa, abarca. E, com sorte, abraça.

Mas, como referia antes, o amor é um ofício sagrado e, por isso, não precisa que tudo esteja perfeito, contido e arrumado nas suas caixinhas. O amor precisa é de espaço, de abertura e da tal responsabilidade. Quanto mais se mergulha no mar que habita cada um de nós mais se vai descobrindo as cavernas onde nos perdemos, onde deixámos sonhos, sorrisos, esperanças, num percurso em apneia que nos puxa pela coragem, vulnerabilidade e autocompaixão.

É a responsabilidade que nos guia até lá. A madurez do adulto, de mão dada com a inocência da criança.
Simultaneamente, quase milagrosamente, encontramos pelo caminho as estórias de aventuras que nos permitimos viver, as personagens que adotámos, os mistérios em que nos envolvemos, pedaços de gargalhadas que ficaram presos algures. E vão dando fôlego na travessia.

Aquele que abraça o sacro-ofício de se amar por inteiro sabe que está, de facto, numa missão sagrada – a da jornada do herói ou da heroína no retorno a casa, ao centro, ao lugar do mundo comum, depois de olhar e viver o impensável.
Uma missão para bravos de alma, sim, mas que nos permite, eventualmente, caminhar na vida mais inteiros e menos coxos; com menos distribuições de culpa e fealdade pelos outros, mais empatia ou, pelo menos, mais liberdade em relação ao que nos pesa nas costas, nos pés, no coração.

Em quem não ressoaram as palavras daquele antigo anúncio: “se eu não me amar, quem me amará?”.

O sagrado está escondido na mais profana das experiências… 

Lembremo-nos, de um simples respirar.

 

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA MINDFULNESS EM CONTEXTO EDUCATIVO E FACILITADORA CIRCULOS MULHERES – EDT