“Na simplicidade protegida dos primeiros dias após o nascimento de um bebé, o círculo mágico volta a fechar-se, temos novamente a sensação miraculosa de duas pessoas que existem somente uma para a outra, do céu tranquilo refletido no rosto da mãe que amamenta o seu rebento. Porém, é apenas um breve interlúdio (…)”

Anne Morrow Lindbergh, “Dádivas do Mar”

Educar vem do latim educare = instruir, criar, conduzir para fora

Todos temos uma aldeia dentro. Uma aldeia com longas raízes, adentradas naquilo que somos, compostas de avós, bisavós, tios, pais, todos aqueles que nos foram tocando, ao longo da vida, com as suas formas particulares de estar, viver, crer e, por inerência, educar.

Etimologicamente, educar significa (também) criar. Colocar os dedos na matéria-prima de alguém e ajudá-lo a tomar forma, adubar, crescer.

A verdade é que os Criadores que todos somos nasceram das sementes das crianças que um dia fomos e que também elas foram “conduzidas para fora”, germinadas, com a ajuda do toque de alguém. O daqueles que nos cuidaram, melhor ou pior, com toda a sua magnífica humanidade, repleta de sonhos – uns abertos ao mundo, outros estilhaçados -, crenças, medos, vivências felizes e dolorosas.

Ainda que hoje em dia esta aldeia se sinta mais dentro (interiormente) – infelizmente, escasseiam as avós e as suas tardes de bolos e estórias, as tias velhinhas que nos ensinavam artes de costura, as vizinhas de cabelos brancos que nos entupiam de bolachas com manteiga e cacau -, quando abraçamos a belíssima tarefa de educare alguém estas vozes cruzam-se inevitavelmente connosco e, por vezes, podem fazer com que nos percamos do educador que realmente queremos ser, ou da tal intuição que nasce com cada um de nós. Talvez encontremos a rigidez de alguém, a permissividade de outrem, a imaturidade de outro, ou os mini-bullies da nossa infância que nos fizeram sentir (ainda mais) pequenos.

Como seres relacionais que somos todos buscamos afeto, e na relação privilegiada que temos com aqueles cujas vidas, de alguma forma, guiamos, é profundamente fácil enredarmo-nos nas nossas carências emocionais, nos vazios que nos habitam, evocar aqueles momentos passados em que nos sentimos feridos, não escutados, desrespeitados, invisíveis.

Educar implica responsabilidade, e responsabilidade implica clareza, limpidez de olhar, capacidade de auto-mergulho, de escavar no nosso mundo interno. Uma expedição arqueológica em busca dos valores que são realmente os nossos e que queremos legar, da qualidade da nossa presença (aquela que não é transmissível senão no estar), da serenidade possível por entre os desafios com que nos vamos deparando. E que sim, serão muitos, pois assim se constroem indivíduos, se colocam limites, se transmite segurança. Mesmo quando estamos a tremer por dentro.

Não conheço trabalho mais belo, nem tarefa mais dura. Seja-se pai, avó, tio, cuidador, educador, professor, serão muitos os momentos de êxtase puro, de maravilhamento, quando nos damos conta de que todo o esforço, dedicação, cuidado, amor que colocámos de repente desabrocha, num instante mágico…. e serão outros tantos aqueles em que nos sentiremos perdidos, sem rumo, sem forças, abalroados por inseguranças, frustração, desespero.

Como já escrevi algures mais do que uma vez, não há receitas prontas nisto de educar. Não há q.b. de isto, mais uma pitada daquilo que sempre ou nunca resulte. Mas há, isso sim, dentro de cada um de nós a capacidade de se descobrir. De evocar o seu próprio círculo mágico consigo próprio, alumiar esta relação consigo como só nós podemos fazer, dar-se a mão.

E, quem sabe, encontrar as ferramentas, as tais q.b., em cada momento.

Até porque o seguinte ainda vem depois.

 

 

MARGARIDA MONARCA
TUTORA DE MINDFULNESS EM EDUCAÇÃO E CÍRCULOS DE MULHERES