A Arte do Discernimento

– a primeira tarefa de Psique –

“Dizendo isto, Afrodite tomou trigo, cevada, milho, sementes de papoila, grãos-de-bico, lentilhas e favas; tudo misturado e feito em um grande monte, disse a Psique:

«Pois, eu quero agora experimentar a tua diligência. Afasta todos os grãos destas sementes que estão juntas e separa-as em montes distintos. Tens de ter tudo pronto antes de ser noite.»

Dito isto, saiu ao encontro dos deuses. Psique, embargada com a grandeza daquele mandamento, ficou como morta, sem elevar a mão para começar tão grande obra. Então, uma pequena formiga do campo, vendo-se defronte de tão grande trabalho e dificuldade para a mulher do grande deus do amor, amaldiçoou a crueldade de Afrodite e correu rapidamente pelos campos, rogando a todas as batalhas e multidões de formigas:

«Oh, subtis filhas e criadas da terra, mãe de todas as coisas, haja misericórdia, pena, socorram a uma moça mortal formosa, mulher do deus do Amor, que está em perigo!»

Então, como ondas de água, vinham infinitas formigas caindo umas sobre as outras, e com muita diligência, grão a grão, apartaram todo o monte. Depois de afastados e divididos todos os géneros de grãos, rapidamente se foram dali.”

 

A primeira tarefa de Psique, também chamada simplesmente de A Tarefa de Psique, na sua demanda encontrar Eros, evoca-nos uma outra imagem, esta de um conto de fadas, nos quais a madrasta de Cinderela atira malgas de lentilhas para as cinzas, dando-lhe um tempo específico para terminar a tarefa. Tal como neste mito, a ajuda não humana (com Cinderela são pombas e rolas, com Psique são formigas) é crucial para o cumprimento da tarefa. Não será, certamente, uma coincidência que em pelo menos duas estórias de superação feminina (nas versões antigas de Cinderela, esta tem um papel bem mais ativo do que nas versões posteriores) surja a tarefa da separação das sementes. Interessante também observar que Afrodite – no lugar de sogra – e a Madrasta Má têm um papel fundamental na atribuição das tarefas à heroína.

Afrodite, a grande Deusa do Amor, é uma figura primitiva. Ela nasce do mar, da mistura de sémen de Úrano com a espuma das ondas. Ela é oceânica, abissal, inconsciente e alquímica, a Grande Mãe, o princípio feminino em toda a sua grandiosidade arquetípica. Psique, por sua vez, na primeira parte do mito é mortal, mas concebida por gotas de orvalho caídas sobre a terra.

Todas as mulheres têm acesso interno ao arquétipo de Afrodite, essa feminilidade indomável e majestosa. Ainda assim, e como acontece com todos os arquétipos, não podemos deixar-nos possuir ou identificar com um, pois corremos o risco de ser esmagadas por ele.

Psique, na sua pureza e doçura, não tem ainda a maturidade para entender e integrar Afrodite, sem ser dominada por ela. Ela é comparada à Deusa inúmeras vezes e, por isso mesmo, torna-se inatingível aos olhos humanos. Os homens admiram-na, desejam-na, mas não querem casar-se com ela. Acaba por ser escolhida por um Deus – Eros – filho da própria Afrodite. Inevitavelmente, e apesar de grandioso, o lugar da paixão paradisíaca e cega – na qual o casal se relaciona enquanto arquétipo e não se consegue realmente ver – dará lugar ao cair das ilusões e os amantes separam-se.

Aqui iniciam as tarefas de Psique. Para recuperar Eros, ela busca Afrodite. Desafiando-a para além do possível, a Deusa do Amor impõe-lhe tarefas colossais e cheias de subtilezas. Através delas, a jovem sairá da sua concha de “gota de orvalho” e aprenderá a integrar e suavizar a sua feminilidade abissal, através do desenvolvimento da sua própria estrutura psíquica.

Afirma-se a primeira tarefa: a separação das sementes. À primeira vista, parece uma tarefa fácil para uma mulher. Ordenar, escolher, separar, arrumar. Fazemo-lo todos os dias. Entre listas, tarefas e horários, afundamo-nos na ordem e na separação. Perdemo-nos dentro da tarefa e arriscamo-nos a sentir que preferíamos passar sem ela.

Porém, encontramo-nos perante um desafio de Afrodite. Afrodite, pela sua natureza arquetípica, funciona da mesma forma que as “madrastas más” dos contos de fadas. Ela é o feminino impessoal, a natureza crua da vida que impulsiona a donzela para sair de um lugar de inconsciência ingénua e ser iniciada no Feminino Maduro, na Inteireza e na ampliação da sua consciência. Desta forma, o processo de separação é muito mais do que a exigência de uma tarefa mundana.

É fácil negligenciar o processo de escolha como algo trabalhoso e superficial. Porém, a separação das sementes pede um lugar de separação criativa, de espaço íntimo, emocional e instintivo. As formigas, pela própria natureza, trazem uma qualidade terrena, do mundo dos instintos. Há que saber focar internamente e selecionar, avaliar, peneirar lugares, pessoas, emoções e decisões.

Este é um processo interno, sobretudo, e exige que olhemos para as nossas qualidades com realismo e espírito crítico. Que nos entreguemos à tarefa de resgatar aquilo que importa, chegar aos valores pelos quais caminhamos e confiar nos instintos. O processo de decisão feminino não se baseia, de todo, numa lista de prós e contras. Ele faz parte do processo de aprendizagem, lucidez e discernimento, do qual a intuição é parte integrante. Não se fundamenta em horários e tarefas, mas em saber o que soltar e quando soltar e quando agarrar o que nos serve, o que queremos.

Através da simplicidade discreta e instintiva que nos é dado pelo simbolismo das formigas, resgatamos a capacidade de mergulhar dentro da tarefa, recebendo-a como um lugar de discernimento profundo de quem somos e do que queremos para nós.

Neste processo de seleção criativa, mas tão terrena, começamos a integrar o Feminino Profundo de forma enraizada e não avassaladora, com o qual podemos efetivamente interagir. Ao mesmo tempo, permitimo-nos iniciar num Feminino em conexão e proteção da sua natureza interna, religando-se ao mundo dos instintos e guiando-se pela sua própria voz interior.

Eros e Psique. Afrodite e Psique. Ou não falássemos nós do Amor e da Alma.

 

 Publicado na revista “Vento e Água” nº 24

 

ÉLIA GONÇALVES
SUBDIRECÇÃO EDT