“Todo o livro tem uma alma. A alma da pessoa que a escreveu e daqueles que a leram, viveram e sonharam com ela. Toda a vez que um livro muda de mãos, toda a vez que alguém passa os olhos pelas páginas, o seu espírito cresce e se fortalece.”

Carlos Ruiz Zafón


Se uma das nossas íntimas intenções é permitir um retorno da alma e o recuperar de um estilo de vida sagrado, não podemos confundir “des-literalizar” com “desmaterializar”. Esta habitual confusão faz-nos olhar para a matéria como algo secundário, como se fosse apenas uma alavanca para a transformação ou, simplesmente, uma prisão onde a Alma foi enclausurada. 

A nossa tendência a separar, a polarizar e a escolher entre uma coisa “ou” outra, ao invés de integrar e de abarcar a tensão própria de ter e ser – uma coisa “e” outra – coloca-nos muitas vezes a caminhar pela vida com a sensação de estarmos em pedaços e de não ser possível atender a todas as partes. 

Esta comum divisão entre “espirito” e “matéria”, parte do pressuposto que ambas se anulam e que não são dimensões da realidade que coexistem e se alimentam mutuamente. Com essa divisão-oposição, ser-se espiritual pode levar à conceção da “matéria” como algo mais humilde ou indigno, de menor valor, de pouca elevação e facilmente substituível. Reduzem-se as coisas à sua utilidade, esquece-se a sua beleza inerente e o seu valor metafórico e deixa-se de cuidar, deixa-se que se danifiquem, negligenciam-se, sem que nos demos conta de que isso é também uma forma de nos negligenciarmos a nós mesmos…

Quando vivemos muitos anos com algumas coisas, por exemplo, é natural que nos vejamos apegados a elas. Isso não acontece porque elas são inertes e cumprem com eficácia a sua função, mas sim porque elas têm um valor simbólico distinto, porque se relacionam connosco e nos fazem relacionar com o outro, com o ambiente e com o mundo, porque nos vinculam às pessoas que amamos, porque “falam” e nos contam histórias, porque nos podem até religar aos nossos antepassados e dar vida às memórias através de um objeto que foi passado de mão-em-mão, de vida em vida, de geração em geração.

De acordo com algumas tradições, sempre que criamos uma obra de arte adequada, estamos a criar um “recipiente” apropriado para capturar um determinado espírito e ele não tem outra escolha senão habitá-lo. Se olhássemos para as coisas com imaginação – se não fossemos literais – e se as entendêssemos como uma “presença real” desse espírito (nas palavras de George Steiner), a nossa casa e nós mesmos seriamos afetadas por ele e a nossa vida perderia um carácter mais insípido. Seria como abrir uma porta para o Encantamento, esse mundo que fala à Alma, que nos concede uma experiência com mais magia e que nos leva a conhecer os mistérios profundos do coração. 

“Todas as verdadeiras obras de arte são um ato de oração”

(Barbara Hepworth)

Poderíamos, com essa nova visão, projetar e criar uma casa, uma escola, um escritório, um parque de diversões onde a intenção fosse – para além dos óbvios critérios de funcionalidade – a de “capturar” o espírito que as pessoas necessitam nesse lugar. Como seria um hospital se na elaboração do seu projeto e na sua construção se tentasse evocar e abrigar um espírito de saúde e de cura? E se uma prisão fosse construída para evocar um espírito de reabilitação?

Seria interessante fazer uma pausa e dedicar à nossa casa um olhar atento, fresco, como se fosse a primeira vez que estivéssemos a vê-la, e tentássemos perceber quais os espíritos que habitam nela. Que nos imaginássemos como “hóspedes místicos”, capazes de sentir, ler e escutar as mensagens subtis, e que, através das características dos objetos, do seu estado – cuidado ou negligenciado – dos materiais, do ambiente, deixássemos aflorar a sua Alma e escutássemos que histórias contam através de nós. Qual o espírito geral da casa e de cada divisão? Um espírito de harmonia, um espírito rústico, ousado, aventureiro, inspirado, caótico, …? Quais os que estão ausentes e podem aportar algo? Qual seria o objeto-recipiente certo para os atrair, um bom “isco”, se considerássemos a sua forma, as cores, as texturas, os aromas…?

Para escolher esses objetos, as suas características são importantes, mas existe algo que não pode ser ignorado – a nossa reação estética imediata. Não é por colocarmos uma estátua de Buda num espaço que ele ganha automaticamente um ambiente de serenidade. Precisamos de sentir nela a presença desse espírito, ou, se quisermos, precisamos de nos sentir serenos na sua presença para saber que ela o abrigou.

Se olharmos para algo e essa primeira reação for de incómodo ou repulsa, de espanto ou entusiasmo, se nos provocar um arrepio ou “pele de galinha”, nos estremecer ou nos “tirar o fôlego”, estamos já em íntima relação com a Alma das coisas e a Alma do Mundo.

Precisamos que a beleza não esteja desterrada e confinada a lugares específicos, como museus ou exposições de arte, e que impregne a nossa vida diária, que nos desperte os sentidos, não só por uma questão de prazer, mas também de saúde e de cura.

“A beleza é uma maneira que os Deuses têm de comover os nossos sentidos, de alcançar o nosso coração e de nos aproximar da vida.”

James Hillman 

Podemos viver uma vida mais enfadonha, onde a utilidade é o critério-rei, as coisas são descartáveis e não se expressam nem nos influenciam. Podemos escolher o encantamento, comover-nos com as várias dimensões da experiência e considerar que todas as coisas têm Alma e importância psicológica, oferecendo-lhes cuidado e criando-as. Podemos conciliar ambos os sentidos – funcional e estético – e soprar alma para o mundo, deixando que a magia, a imaginação e a profundidade ocupem o seu lugar e nos riqueza e sentido.

Se soubermos apreciar honestamente o Mistério, teremos a bênção de assistir à revelação do “poema no coração das coisas” (Wallace Stevens). 

“A poesia não quer adeptos, quer amantes.”

Federico Lorca

Artigo publicado na Revista Vento e Água, número 21

VANESSA OLIVEIRA
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